WALTER DEAN: O JORNALISTA QUE ENSINOU GAZA

Jornalista na CBS, esteve em Gaza a educar outros jornalistas e hoje dá aulas por todo o mundo. Walter Dean é aos 67 anos um homem realizado, de bem com a vida e com um papel fundamental no Jornalismo Contemporâneo.

Por Francesca Giachi, Rita Sanches, Sónia Cabecinhas e Susana Amador

Walter Dean brinca com Salvador, o gato que já é uma presença icónica do Espaço Ulmeiro, um dos alfarrabistas mais antigos de Lisboa. Com 50 anos de atividade, situa-se na Avenida do Uruguai, uma das artérias mais movimentadas do bairro de Benfica. O silêncio do espaço combina com a calma inabalável daquele que é um dos jornalistas mais conceituados dos Estados Unidos.

Wally, como gosta de ser tratado, com 67 anos, afirma que não se sente diferente do que era há 20 ou 30 anos atrás. Nascido no Nebrasca em 1948, o jornalismo sempre esteve presente na hora das refeições. O pai foi editor na Associated Press e desde cedo lhe transmitiu o “bichinho” pelo jornalismo. Foi no secundário que começou a sua experiência enquanto jornalista: fazia a cobertura dos eventos desportivos da sua escola.

Ao longo dos 40 anos como jornalista de televisão, o dia que mais o marcou pela positiva foi quando um tornado atingiu a cidade de Omaha em 1975. O momento foi bastante significativo para Walter, devido à própria proximidade com o desastre, que aconteceu na cidade onde cresceu. Nessa noite, Walter estava a trabalhar na estação de televisão e encontrou-se incumbido da tarefa de avisar a população da área afetada. Sentia a responsabilidade de tentar salvar vidas, ao mesmo tempo que fazia o seu trabalho.

© Arquivo Pessoal de Walter Dean

Já os piores dias que recorda da sua carreira profissional enquanto jornalista foram aqueles onde “tudo correu mal”, refere Walter. Os dias em que, apesar do seu esforço para fazer o melhor trabalho possível, as questões práticas pareciam não coincidir com a sua atitude.

A docência bateu-lhe à porta quando, depois de 13 anos a trabalhar como jornalista na CBS, foi dispensado do canal devido a uma reestruturação nos recursos humanos. “Os professores querem fazer a diferença, tal como os jornalistas”, diz. Também a mãe era professora, algo que parece ter influenciado Wally.

© Arquivo Pessoal de Walter Dean

Enquanto professor e membro do Committee of Concerned Journalists (CCJ), Walter Dean desenvolveu diversos projetos de estudo no sentido de tentar compreender as mecânicas do jornalismo. Estudou técnicas utilizadas por jornalistas e editou livros sobre a temática, como We interrupt this newscast, escrito em conjunto com outros jornalistas. Era diretor do CCJ quando desenvolveu o curso Elements of Journalism. Este curso pretende dar uma visão alargada a jornalistas de todo o mundo sobre o próprio jornalismo que praticam, de forma a oferecer novas perspetivas ao jornalismo convencional.

Os professores querem fazer a diferença, tal como os jornalistas

Com o desenvolvimento do curso, teve a oportunidade de viajar por todo o mundo para ensiná-lo. Entre os sítios que visitou contam-se Índia, Palestina e Portugal, bem como diversas universidades dos Estados Unidos da América. Um dos locais que mais o marcaram neste processo foi a Cijordânia, na fronteira com Gaza, onde teve contacto direto com uma realidade jornalística singular.

Já tinha trabalhado com uma ONG e já tinha estado na Cijordânia cinco ou seis vezes, portanto os jornalistas da Palestina já me conheciam e confiavam em mim, assim como as pessoas da organização.”, conta Walter. Sobre esta experiência a trabalhar em situações de emergência, Walter refere que todos os dias eram um desafio e que, por vezes, se sentia “impotente” perante os acontecimentos. Durante o tempo que passou na Palestina refere que o psicológico também foi afetado. “Trabalhávamos entre 12 e 14 horas por dia, sete dias por semana, durante os três meses que lá passei. Já não tínhamos forças para ir aos sítios fazer o nosso trabalho, era uma constante luta.”

Walter salienta, ainda, o importante papel que as mulheres tinham na recolha de entrevistas em Gaza. “São as minhas heroínas”, diz. Como o modelo familiar na Palestina é matriarcal, as chefes de família sentiam-se mais à vontade para falar com as jovens jornalistas.

© Arquivo Pessoal de Walter Dean
© Arquivo Pessoal de Walter Dean

É um homem reservado quanto à família, mas conta-nos, enquanto apaga um cigarro, que tem dois filhos, William e Katie. Apesar de querer preservar a sua privacidade sobre o assunto, diz que os melhores momentos da sua vida foram o nascimento dos filhos. “Tal como a Joleene (mulher), que é enfermeira, os dois são cientistas.”, esclarece em tom de brincadeira.

Sobre o jornalismo, Walter refere que estamos numa altura de mudança. Os jornalistas passaram a ser obrigados a fazer de tudo um pouco, o que antes era uma profissão tradicional onde cada um tinha a sua função. O grande problema que Walter identifica é que não existe ninguém para dizer a estes jornalistas, sobrecarregados de trabalho, para “respirarem fundo”. A chave, segundo Walter, é passar por entre as tempestades “com sentido de humor”.

Walter Dean considera-se, hoje, um homem realizado. “Ter conseguido construir uma família e ter uma casa, essas foram as coisas mais acertadas da minha vida. De resto, todos temos arrependimentos quanto a algo que correu menos bem.”

Wally partiu no dia seguinte para a Palestina, mais uma vez. Vai ensinar uma nova turma de futuros jornalistas. “Posso influenciar uma pessoa de cada vez no Médio Oriente, mas não consigo mudar mentalidades”, diz.

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