Um sonho de família

Realizado por Ana Rita Maciel, Mariana Tiago e Sara Sampaio Silva

Passeio de elefante, petisco de gafanhotos e um Natal na praia. Foram estas algumas das peculiares vivências experienciadas por Carolina e André Carvalho que, acompanhados pelos seus três filhos, Leonor, Pedro e André – carinhosamente apelidado de Andrezinho -, partiram numa viagem de oito meses pelo mundo, que dificilmente se apagará das suas memórias.

São 15h em ponto. O frio, acompanhado pelo vento característico de uma típica tarde de outono, faz-se sentir. Lá fora, as pessoas caminham apressadas, cobrindo os rostos com os fartos cachecóis que dispõem ao pescoço. O sinal da campainha faz soar uma melodia alegre, seguida da gravação de uma voz feminina que pede identificação a quem chega. Já dentro do amplo condomínio, composto por várias vivendas pintadas de um rosa-bebé aconchegante, André acena ao longe, com uma expressão simpática, mas algo tímida. É dia de escola e as crianças ainda não estão em casa. No andar de cima encontra-se Carolina, numa divisão não muito ampla, ocupada em grande parte por uma mesa envidraçada, reveladora de um conjunto de fotografias de família e de algumas revistas, abertas especificamente em páginas onde o casal e os três filhos surgem, dando a sensação a quem vê de se tratar de uma família harmoniosa e, sobretudo, feliz. Incitados a iniciar o relato com a sua história de amor, André e Carolina não conseguem conter pequenas risadas espontâneas, algo envergonhados.

TVI – Televisão Independente, berço de uma história de amor

Foi em setembro de 2007 que André e Carolina se conheceram. Ambos ligados ao departamento de Marketing na TVI, viram inevitavelmente as suas vidas cruzar-se e não foi preciso muito tempo até que percebessem que queriam estar juntos, colocando um ponto final nas relações amorosas que mantinham na altura. O primeiro contacto não foi suficiente para que se impressionassem um com o outro. André revela mesmo que no primeiro dia de trabalho com Carolina, não lhe achou qualquer graça. A verdade é que ao fim de um mês e meio estavam oficialmente a namorar e passadas umas semanas Carolina já estava grávida da filha mais velha, Leonor. Os primeiros meses de relação foram intensos, causando algum receio e estranheza aos seus familiares, que achavam que tudo seria muito precipitado. Contrariando esses medos, casaram, tiveram mais dois filhos e estão juntos há mais de 11 anos.

Preparativos para a grande viagem

Filho de uma funcionária da TAP, André sempre teve o “bichinho” das viagens dentro de si. Antes da relação com Carolina era já um explorador nato, empenhado em descobrir o mundo. “Eu sou aquela pessoa que sabe todos os hotéis que existem no mundo, todas as companhias de aviões, as cidades, as capitais… Sou um maluquinho da geografia e das viagens”, afirma André, visivelmente empolgado. Entretanto, também na sua esposa despoletou essa paixão. Nos primeiros tempos de namoro, fizeram algumas pequenas viagens: Estocolmo, México, Camboja, Singapura, Kuala Lumpur, Indonésia, foram alguns dos destinos escolhidos. Viajar tornou-se de tal forma importante para o casal que, pelo menos, três ou quatro vezes por ano sentem a necessidade de andar de avião. Com o nascimento dos filhos pouca coisa mudou. Continuaram a fazer viagens, ainda que mais curtas e menos dispendiosas. Até que uma ideia diferente passou pela cabeça de Carolina. “Na altura, seguia nas redes sociais uma pessoa estrangeira que ia fazer uma viagem prolongada pelo mundo e confrontei o André”, explica. Após alguma ponderação, eis que a decisão é tomada e o sonho de ambos passa a realidade. Uma viagem com duração de oito meses, na qual passariam por Tailândia, Austrália, Nova Zelândia, Indonésia, Vietname, Hong Kong, Macau, China e, finalmente Japão, viria a acontecer a 19 de setembro de 2016.

Deixaram o emprego para trás e com a casa vendida a três semanas da partida, conseguiram o dinheiro para embarcar nessa aventura, para muitos “maluca”, para eles apaixonante.

Tendo em conta o cariz da viagem, foi necessária alguma preparação. Ainda que “rotina”, “hábito” e “planos” não sejam as palavras favoritas do casal, alguns aspetos mereceram a sua atenção especial, como foi o caso da aprendizagem de Leonor. Carolina sempre teve muita curiosidade relativamente a ensinos alternativos e, por isso, durante a viagem, a aposta recaiu no homeschooling [ensino doméstico]. Com a ajuda de uma professora de ensino primário, fez o levantamento das matérias de 3.º ano que a filha mais velha deveria aprender nos meses da viagem e organizou-as por semanas. “Não foi fácil, porque a Leonor é uma criança difícil, mas correu bem. Em vez de aprender onde nasce e onde se põe o sol pelos livros, aprendeu nas caminhadas que fizemos e nas viagens de carro. Aprendeu de forma natural e livre”, assegura.

Outro ponto a ter em consideração prendeu-se com os cuidados de saúde. Foi André quem planeou toda a viagem, designadamente os países e pontos culturais a visitar, o transporte a utilizar e a estadia. Atraído pelo oriente, não deixou de ter em consideração certas doenças perigosas que avassalam determinados países, como é o caso da malária, para a qual a prevenção é feita à base de comprimidos fortes. Não querendo submeter os filhos a essa medicação evitou desde logo a escolha de locais, onde predominasse a doença. A família foi a uma consulta de viajante e acabou por tomar apenas a vacina contra a febre tifoide, à exceção do filho mais novo, que ainda não havia atingido a idade recomendada. Munidos de um conjunto de antibióticos e outros medicamentos preventivos, assim partiram, seguros de que tudo iria correr bem. “As crianças tanto ficam doentes em Portugal, como no estrangeiro e também se tratam, portanto, estávamos descansados”, atesta Carolina.

A minutos de levantar voo, foram invadidos por sentimentos de descompressão e alívio. Depois de toda a tensão vivida nos momentos que antecederam a grande viagem, finalmente estavam a um passo de abandonar o país por oito meses, rumo a uma aventura que mudaria as suas vidas para sempre.

Passeio de elefante na Tailândia

André fez coincidir o início da viagem com a sua data de aniversário e Tailândia foi o país escolhido para celebrar. Divertidos em poder recordar os aspetos memoráveis de cada país visitado, começam por destacar na Tailândia o passeio de elefante. Uma atividade diferente daquelas a que, com certeza, estariam habituados e que fez as delícias das crianças. Houve ainda oportunidade para um safari e para caminhadas na selva, em busca de grutas habitadas por morcegos. A estadia da família coincidiu também com o famoso festival das lanternas, onde o céu se enche de pequenas luzes cintilantes, iluminando a noite escura.

Um Natal diferente na Austrália

É em sintonia que André e Carolina destacam o Natal em Kangaroo Island como o episódio mais marcante da viagem à Austrália. Trata-se da terceira maior ilha do país, descrita por ambos como o “fim do mundo”. Quebrando com o convencional, a data festiva foi passada numa praia, em que a roupa de banho e os chinelos fizeram parte do dress code e em que a ementa se compôs de arroz de salsichas. Ambos filhos de pais separados e, por isso, habituados a visitar cinco casas no Natal, esta foi sem dúvida uma experiência memorável para todos. Tasmânia foi outro ponto forte da viagem à Austrália. Nas palavras de Carolina é um “jardim zoológico a céu aberto”, onde os cangurus não se inibem de “cumprimentar” quem por eles passa. Foi na Austrália que a autocaravana passou a ser o meio de transporte e a estadia da família durante mais de 20 dias. Uma experiência engraçada, no entanto igualmente difícil. “Só se pode ficar um minuto no duche, senão já não dá para a pessoa que vem a seguir. Evitávamos usar a casa de banho da caravana, porque não é muito higiénico”, explica André, em tom divertido, mas algo enojado pela lembrança. Em Port Douglas tiveram oportunidade de mergulhar na água límpida da Grande Barreira de Coral, onde puderam vislumbrar as mais diversas espécies de peixes e os grandes corais.

Visita inesperada na Nova Zelândia

Qual não foi o espanto de Leonor quando abre a cortina da caravana e se depara com uma pequena família de leões marinhos na praia. Enormes e soltando de quando em quando rugidos altos, revelaram-se assustadoramente deslumbrantes, fazendo da viagem à Nova Zelândia uma experiência a compartilhar.

Subida ao vulcão e paraíso do lixo na Indonésia

As crianças, invadidas pelo entusiasmo próprio da idade, foram as primeiras a chegar ao cimo do vulcão em Bali. Ainda que cansadas, facilmente repetiriam a experiência no dia seguinte. Em Lombok, a realidade encontrada não foi tão maravilhosa como se esperava. “Apanhamos dez sacos de lixo, só num quadradinho de areia. Lá as pessoas fazem buracos na areia, metem o lixo e tapam. São os contentores deles”, revela Carolina com a preocupação estampada no rosto.

Carros do lixo musicais no Vietname

Apesar de destacaram a viagem de barco à ilha de Ha Long e a visita a Huê, foi um episódio específico passado em Hanói, capital do Vietname, que lhes arrancou uma gargalhada em uníssono. Lá, os carros do lixo, fazem-se acompanhar de uma música alegre, que convida as pessoas que por eles passam a dançar. Ao Vietname seguiu-se as viagens a Hong Kong e Macau.

O encanto dos chineses por cabelos claros

Os cabelos loiros de Leonor, Pedro e Andrezinho não passaram despercebidos ao povo chinês. Não foram raras a vezes em que a família se viu rodeada de pessoas, que curiosas, afagavam o cabelo das crianças como que a comprovar se seriam reais. “O Pedro escondia-se. Se parássemos a comer um gelado, de repente, formavam filas para tirar fotografias connosco”, conta Carolina entre risadas.

Encontro com a gueixa no Japão

Atualmente, não é muito comum dar de caras com uma gueixa verdadeira. Foi no momento em que saíam de uma das casas típicas do Japão que com ela se depararam e, inevitavelmente, o entusiasmo tomou conta desta família. “Mandei o Andrezinho ir ter com a gueixa e ela, muito querida, tirou uma fotografia com ele”, diz Carolina, com um olhar ternurento. André e Carolina enaltecem ainda a comida típica japonesa que, após experienciarem variadíssimos pratos, satisfez o gosto de todos.

E agora?

Terminada a aventura, André e Carolina reconhecem que a viagem serviu sobretudo para passar tempo de qualidade com os filhos. Se antes, a rotina ‘casa-escola’ e ‘casa-trabalho’ agrilhoava as suas vidas, impedindo-os de compartilhar com as crianças o tempo que desejavam, a viagem foi uma oportunidade de conhecerem facetas uns nos outros, antes desconhecidas, e de olharem para o que os rodeia com outros olhos. Cumplicidade e compromisso são agora as máximas da sua dinâmica familiar. Na sua lista de sonhos, viajar ainda se encontra no topo. Não sabem ao certo qual será o próximo destino, mas a descoberta do mundo não termina aqui.

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