Tiago R. Santos: Um Estranho numa Terra Estranha

Por Catarina Figueiredo, Rui Alves de Sousa e Ysamar Lobo.

“É difícil contar uma boa história, mas quando consegues, é um feito extraordinário”. Tiago R. Santos faz aquilo que mais gosta: contar histórias, no cinema e na televisão, mas também no quotidiano – porque a sua vida está repleta de pequenas e grandes histórias, momentos curiosos que marcaram o seu crescimento e o seu trabalho. Tiago escreveu guiões para várias séries nacionais, como Conta-me Como Foi e Os Filhos do Rock, é colaborador habitual do realizador António-Pedro Vasconcelos (é o autor dos seus quatro últimos filmes, incluindo Os Gatos Não Têm Vertigens e Amor Impossível). Tem um romance publicado, A Velocidade dos Objetos Metálicos, que revela algumas das suas maiores influências: os filmes de Robert Altman e Paul Thomas Anderson, histórias que se desenvolvem em mosaico, vidas que se cruzam e que geram momentos inesquecíveis de cinema.

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Além das suas histórias, há ainda as histórias dos filmes dos outros, que Tiago analisa, como crítico, nas páginas do GPS, suplemento da revista Sábado. A paixão pelas fitas acompanha-o desde a infância, quando “ficava em casa a ver 2 ou 3 filmes por dia” em vez de ir aproveitar o sol para jogar à bola. “Isso acabou por acontecer mais tarde, tal como o interesse pelas miúdas”, mas apesar disso, o bichinho cinéfilo nunca o abandonou, e entre bons e maus filmes, lá tenta todas as semanas ajudar, em textos divertidos, a escolher as estreias que merecem o investimento do tempo e dinheiro dos leitores.

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Antes de ser hoje um dos mais requisitados guionistas portugueses, Tiago começou por ser jornalista. Deu aqui os primeiros passos na escrita, mas não se identificava com o meio. “Eu estive na Focus durante dois anos, e chegou uma altura em que percebi que aquilo não era exatamente o que eu queria fazer”. Foi então que, de repente, num jantar com vários amigos, surgiu a ideia de sair do país. E se fosse viver para Nova Iorque?

Assim aconteceu. Partindo para os EUA inicialmente como repórter-correspondente da Focus, função que abandonou rapidamente, Tiago começou uma jornada no estrangeiro que iria mudar a sua vida – e que segundo o próprio, “foi fundamental para perceber aquilo que queria concretizar profissionalmente”. Tiago fugiu de casa dos pais para sair à aventura em busca de um mundo novo, desconhecido, estranho para um jovem português que só conhecia Nova Iorque pelo imaginário do cinema.

Nos primeiros seis meses, tentou “criar rotinas, perceber o que estava a fazer”, e fundamentalmente, entendeu que não queria continuar a ser jornalista. “Sempre gostei muito de cinema, e comecei a pensar que gostava de escrever cinema”. Em Nova Iorque, encontrou novas referências proporcionadas pela cidade, e graças a elas, Tiago idealizou algumas histórias, uns quantos rascunhos para os seus primeiros guiões. O bichinho, desde então, nunca o abandonou.

Criou novos hábitos que se cruzaram com a vontade de contar histórias. Começou a conhecer o circuito de cafés de Nova Iorque, as pessoas que os frequentam, as conquistas e as desilusões de muitos os que por ali passam, todos os dias. Entre os cafés encontrou o Doma, aquele que se tornou o seu favorito para as tardes infindáveis de escrita. Por lá, sentou-se um dia no lugar onde, antes, tinha estado o ator Philip Seymour Hoffman, uma das suas grandes inspirações e um ícone do cinema moderno (entrou em filmes inovadores como Sinédoque, Nova Iorque e O Mentor). E a empregada do café disse que isso era sinal de sorte.

São pequenas situações que o ajudaram a crescer e a perceber que tipo de vidas e de emoções gostaria de retratar nos seus guiões. “Uma vez um senhor vestido de verde também me abordou assim de uma maneira inesperada”, revela, “e eu ao princípio até pensava que ele me estava a engatar, ou algo do género. Mas não, viu que eu estava a ler um livro do David Foster Wallace, e começou a falar comigo sobre isso, e depois, sobre filmes de que eu também gostava. No final é que ele se apresentou, e eu percebi que era um executivo muito importante da Paramount”. São pessoas que fizeram parte dos dias nova-iorquinos de Tiago, e que lhe deram a conhecer uma outra cidade, com outra forma de vida e de relações sociais, ambas inexistentes em Portugal. “Em Lisboa, as pessoas movem-se muito por grupos, têm as suas bolhas, não procuram o contacto pessoal fora da sua esfera. Nova Iorque é completamente diferente: é muito raro conheceres alguém que seja mesmo de lá.”.

Entre guiões e ideias criativas, Tiago começou a trabalhar em restaurantes. É algo a que hoje dá especial importância, já que o fez sentir-se realmente bem em Nova Iorque, como um nova-iorquino acostumado ao quotidiano acelerado da cidade. “Comecei a criar aquela rotina de trabalho-escrita, e trabalhei com pessoas muito engraçadas”. Tiago recorda em especial um rapaz chamado Hobo: “Fazíamos uma espécie de dupla”. Ao trabalhar em restaurantes, Tiago teve que perder parte da timidez que o caracteriza: “Tens de falar com as pessoas, e por isso, esta mudança mudou um pouco a minha maneira de ser com os outros.”

O regresso a Portugal foi decidido de forma repentina, ao perceber que o sonho poderia nunca se concretizar verdadeiramente. “Via pessoas que estavam a fazer as mesmas coisas que eu há dez, quinze, vinte anos, e não avançavam. E eu não queria isso para mim”. Apesar de Nova Iorque lhe ter ensinado muito e de lhe ter proporcionado uma nova forma de ver o mundo, Tiago sente que, provavelmente, não conseguiria sobressair. “Em Portugal somos poucos nisto, em Nova Iorque há um argumentista em cada esquina, e porque é que eu poderia ter sorte, se tanta gente melhor que eu continuava na mesma?”.

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“Nova Iorque tem este encanto um pouco hipnótico”. Essa magia foi o que fascinou Tiago, mas que o levou também a partir. “Trabalhar em restaurantes é muito engraçado, é muito divertido… mas é demasiado divertido. E tu chegas a uma altura em que percebes: ‘eu não posso estar a divertir-me tanto’”. Mesmo que a viagem de regresso tenha sido atribulada (“uma das amigas que veio comigo para lá não reagiu bem ao meu regresso”), Tiago não se arrepende da experiência, e recomenda que todos devem embarcar neste tipo de aventuras. “Acho que abre os horizontes, e olhas para as coisas e para o teu país de uma outra forma”.

Para o futuro, ficaram as recordações, nenhumas fotografias (Tiago detesta posar em frente a uma câmara), e continuam a habitar, na sua mente, as imagens icónicas da cidade criadas pelos filmes. Nos últimos anos, Tiago tem contado histórias sobre o seu país, e conseguiu um grande êxito junto dos espectadores portugueses graças aos projetos em que se envolveu. Nova Iorque ficará para sempre guardada no seu coração. Desde que voltou a Portugal que já olha para Manhattan, filme de Woody Allen, de outra maneira: é que ao contrário de muitos de nós, Tiago esteve naqueles lugares, e por lá deixou a sua marca. Uma marca de um jovem aspirante a guionista, entre tantas figuras mais ou menos excêntricas e fascinantes que, todos os dias, calcorreiam as ruas de Nova Iorque.

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