Tiago Pereira: sobre(viver) entre atos

Por Diana Vicente, Marta Carreiro e Raquel Lopes

Tiago Pereira, 28 anos.
O acaso é o elemento-chave do seu guião de vida. Nem sempre foi o seu melhor amigo, mas encaminhou-o para o ponto de partida da sua viagem. Tiago assume-se como um sonhador que anseia protagonizar a sua cena e, aos poucos, encenar a sua própria vida.

Primeiro ato, cena I: Nascer e crescer

“No início dos anos 90, o casamento entre os meus pais já não era o melhor”, confessa Tiago. É assim que começa por descrever a sua vida, antes desta ter começado sequer. Numa tentativa de unir um amor e recuperar um casamento que contava já com três filhos, Tiago nasce para se assumir como o quarto em cena. É no dia 23 de Maio de 1990 que entra no palco da sua vida, ao acaso, como uma personagem inesperada.

Antes mesmo de Tiago nascer, o seu pai sai de cena, deixando em palco uma mãe, sozinha, com os seus quatro filhos. Foi assim que cresceu, na Serra das Minas (Sintra) entre aventuras mais ou menos aconselháveis. Com o passar do tempo, o menino transformou-se em homem.

 

Cena II: A descoberta

O Teatro começou por ser apenas um divertimento leviano na vida de Tiago. Mal ele sabia que se tornaria na sua maior paixão quando começou a dar os primeiros passos. Ainda recorda, com um sorriso no rosto, o seu primeiro papel enquanto ator no ano de 1998: “Fiz de árvore, mas fui a melhor árvore que podia ser”. Atualmente, Tiago costuma utilizar esta história, enquanto encenador, para mostrar aos seus atores que todos os papéis em palco são importantes.

O bichinho pelo Teatro foi crescendo e ficando mais forte, até Tiago se juntar ao grupo teatral da Escola Secundária de Mem – Martins: os Lordes do Caos. Juntamente com outros amigos, começou a entender a complexidade do papel do ator e a evoluir enquanto se divertia.

À medida que cresce, o Teatro vai sendo cada vez mais interessante para Tiago, no entanto, ainda não era na altura uma paixão ardente. Em 2008, altura em que frequentava o curso profissional de Secretariado, os Lordes do Caos levam a peça “Fernando, talvez Pessoa” a Vila Real de Santo António, num evento que juntou várias escolas e os seus grupos de teatro respetivos. “Eu estive sempre em palco, a peça tinha 1h20 e eu estive sempre ali. Ia olhando para o público e só os via quietos, pensei que estivessem a apanhar uma seca. No entanto, aquela foi a única peça de todo o festival que teve as 300 pessoas presentes na sala, de pé, a bater palmas. Aquilo foi avassalador, mexeu muito comigo. Foi aí que percebi que ia começar a minha luta pelo Teatro”, conta Tiago.

Mas nem tudo no guião da sua vida era uma fantasia harmoniosa. O palco era um escape para um jovem com dificuldades por superar. Nesse mesmo ano, a mãe de Tiago sofreu um AVC, o que levou a que o jovem procurasse trabalho, assim como os seus irmãos, de modo a ajudar a família. Tiago iniciou então a sua vida profissional no ramo da restauração.

Em 2009, o jovem e alguns amigos são convidados para integrar a Associação Cultural Absurdo, criada para dar continuidade ao trabalho nos Lordes do Caos e que na altura tanto admiravam. A partir daí foi uma avalanche de projetos nos dois grupos que integrava, que ainda hoje recorda com saudosa felicidade.

O bichinho da encenação começou a ganhar destaque quando Tiago pede para encenar a peça “Felizmente Há Luar” nos Lordes, na qual mais tarde também participou. O Teatro era o equilíbrio numa vida que nem sempre lhe sorria e que não conseguia controlar.

Cena III: altos e baixos

 A nível profissional a vida de Tiago teve tantas reviravoltas como as que o Teatro lhe trouxe. Antes mesmo de terminar o ensino secundário, em 2010, começou a trabalhar numa empresa de brinquedos chamada “Sr. Brinquedo”, onde teve o primeiro contacto com este mercado que tanto o fascina. Apesar de ter ingressado no ensino superior, no curso de Marketing, não chega a terminá-lo devido à carga de trabalho e à necessidade de emprego.

No Teatro, é também tempo de Tiago fazer uma pausa e, durante um ano, não encena nem participa em nenhuma peça. Essa paragem fez-lhe bem, mas também lhe deixou um vazio. É quando regressa aos Lordes do Caos para assistir a um espectáculo, que se apercebe que a saudade pesava demasiado e que tinha que regressar. No entanto, o seu retorno nos Lordes deu-se não enquanto ator, mas sim como coordenador do grupo do qual sempre fez parte, uma vez que o professor que o coordenava tencionava abandonar o cargo. Tiago assumiu-se, assim, como o principal encenador dos Lordes do Caos.

Entre várias peças, menções honrosas e textos variados, Tiago destaca aquela que, para ele, foi a peça que teve um sucesso particular e o marcou no seu percurso enquanto encenador: “Brigida Di Grazia“, em 2014. Escrita por Ana Rita Barreira, a peça foi recebida com entusiasmo por muitas casas e contou com inúmeras plateias bem compostas. Foi no palco do Olga Cadaval, em Sintra, que Tiago sentiu o maior êxtase em relação a esta peça: “Foi surreal. Foi uma peça arrebatadora num sítio profissional, que esteve sempre cheio nos dois meses em que a peça esteve em cena. O público adorou a peça e eu chorei baba e ranho no Olga Cadaval, orgulhoso de todo o trabalho e de todos os que o tornaram possível”.

Mas como já era hábito na sua vida, mais um obstáculo surgiu: “Esse dia tão feliz, foi também o mais triste da minha vida porque foi quando diagnosticaram cancro da mama à minha mãe. Foi o 8 e o 80”, revela Tiago. Passados alguns anos e muitas dificuldades, a mãe de Tiago conseguiu ultrapassar o cancro e hoje está totalmente curada.

Segundo Ato, cena I: Novos projetos e futuros incertos

Os anos de 2015 e 2016 trazem novas ideias e projetos à mente do jovem encenador. Juntamente com alguns dos seus companheiros de palco, surge a raiz da associação que hoje Tiago coordena: a Quatro Quartos (QQ). Com o objetivo de desenvolver diversos tipos de arte, ajudando jovens a potencializar os seus talentos, a QQ foca-se ainda apenas na arte do Teatro. Nesse ano, Tiago levou a palco três peças no espaço de três meses, período que descreveu como louco mas também de prazer. Foram elas “Madrepérola” (texto adaptado escrito por Ana Rita Barreira), “Ordem Indecifrada” (texto adaptado de “Cenofobia” de André Teodósio)  e “Baixa – Chiado” (texto adaptado de “Central Park West” de Woody Allen) – ver na cronologia mais abaixo.

Os projetos e peças vão surgindo e o amor pelo Teatro vai crescendo também. Mas uma paixão tão grande exige uma base de sustento estável. Numa tentativa de conjugar os dois mundos que admira e lhe dão prazer, Tiago, com a ajuda de mais dois amigos, decide fundar a sua própria empresa de distribuição de brinquedos. “Já tinha experiência na área e no mercado dos brinquedos e pensei ‘porque não?’”, confessa.

Após conseguir investimento lança-se nesta nova aventura e funda a Toystock, uma empresa de distribuição de brinquedos. É nela que passa os dias e constrói o seu futuro: entre gerir horários, contabilidade e marcas variadas para distribuição, os desafios são todos os dias novos. Tiago aprende diariamente o que é gerir uma empresa, algo que nunca fez, com todas as dificuldades que lhe são impostas constantemente.

Hoje, dedica-se a um projecto que é gerido por si. Admite que lhe agrada a sensação de trabalhar para ele mesmo e sentir que está todos os dias a construir um projecto com cunho próprio.

Tiago tenta  ser cada vez mais encenador do seu próprio guião: talvez um dia se consiga dedicar por completo à arte que mais ama e fazer da encenação a sua única profissão. Até lá, vai ocupando o seu lugar em palco – meio ator guiado pelo destino, meio encenador que projecta a sua peça de vida.

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