“Só existo porque o ar é grátis”

Por: Kateryna Chelnokova, Luís Duarte Sousa e Luís Marujo

Não receia usar saias cor de rosa, camisolas de renda e vestidos estampados. Joana Ramalheira é transsexual, proveniente de uma família tradicional aveirense. Rui de nascença, nunca se identificou com o nome dado pelos pais, sempre questionou o corpo feminino e confessa que até sentia “inveja” de não ter os traços das mulheres.

“Eu não me considero fotogénica, nunca gostei de ser filmada”, reforça timidamente Joana todas as vezes que vê alguém com uma câmara. Devido à sua educação extremamente rigorosa, confessa que se foi tornando uma pessoa cada vez mais introvertida. Não lhe restaram amigos, nem dos tempos da infância, nem das fases adultas. Com vista a combater a falta de interação, criou um blog anti-Islão, onde, sem receio algum, expressa as próprias convicções políticas conservadoras.

Recentemente, começou a trabalhar na área do apoio ao cliente, razão pela qual se levanta todos os dias cedo de manhã. Ali, consegue pôr em prática o seu gosto de ajudar as pessoas. Foi um colega do emprego atual que lhe sugeriu mudar de nome, apostar na verdadeira identidade. Deixou o Rui para trás e escolheu ser Joana, por ser um nome que sempre gostou e porque, tal como a própria afirma, “fica engraçado no diminutivo”.

 

“A ‘bolha’ da família”

Desde a primeira classe, altura em que se mudou para Kinshasa, capital do Congo, começou a sentir dificuldades em lidar com a inquestionável solidão da sua alma. Recorda as idas para a escola com tristeza. Era, muitas vezes, vítima de bullying na carrinha cheia de alunos e pais. “Nunca foi feito nada, ‘tudo passa’ – diziam-me”, descreve Joana. O excessivo controlo parental, de igual forma, em nada contribuiu para o bem-estar da jovem. “Via os meus amigos a saírem uns com os outros e a divertirem-se, mas eu estava sempre em casa, na ‘bolha’ da família”, constata.

Nos tempos livres, Joana dedicava-se à leitura, que serviu de “refúgio” para a própria. Os Contos de Grimm e de Andersen faziam parte do seu dia-a-dia. Quando entrou na adolescência, as suas preferências mudaram para revistas francesas. Joana relata, “uma certa admiração pelos modelos de lingerie”, fontes inspiradoras na busca da essência do “eu”. Atualmente, gosta de se informar nas páginas de noticiários ou artigos de opinião das redes sociais. É daí que tira ideias para enriquecer o seu blog, bem como para consolidar a sua visão do mundo.

O questionamento da identidade

O pequeno Rui que deixara para trás Portugal, chegou a Kinshasa numa altura em que já se sentia desconfortável com o corpo, embora não soubesse bem o porquê de se sentir assim. Durante a adolescência, olhava para as raparigas de uma forma diferente da que os outros rapazes olhavam. Questionava o corpo das mesmas e confessa que até sentia alguma “inveja” de não ser como elas, de não usar as roupas extravagantes e coloridas que as raparigas adolescentes usavam. Questionava o porquê de o estilo masculino ser muito menos elaborado do que o feminino e o porquê de não poder vestir-se como elas. “Não estás a olhar para elas como se a quisesses ter, mas como se a quisesses ser”, explica Joana em relação ao dilema que viveu na adolescência.

Assim, sempre soube que era transsexual, embora apenas viesse a conhecer esta palavra em Portugal. Relembra a satisfação que sentiu quando descobriu que a primeira operação de mudança de sexo tinha sido feita. Viu aqui uma oportunidade de realizar um desejo que sempre a tinha acompanhado: o de vir a ser mulher. Este é um sonho que ainda não cumpriu, embora se vista como uma mulher já há algum tempo. A mudança de estilo foi gradual e muito lenta. Não teve um momento específico em que tivesse passado oficialmente a vestir-se como mulher. Começou pela roupa interior e, aos poucos, foi experimentando uma ou outra peça, até começar a vestir-se totalmente de mulher.

 

Uma família disfuncional

Só depois de regressar a Portugal, por volta dos 21 anos, é que Rui se assume como Joana. Foi nesta altura que teve contacto com a palavra transsexual, que descrevia exatamente aquilo que sentia desde sempre: a insatisfação com o seu corpo, o desejo de ser mulher. Contudo, se o retorno ao país que vira nascer Rui e que, agora, assistia ao nascimento de Joana trazia o alívio de finalmente poder pôr nome à confusão que até então marcara a sua vida interior, o resto foi um mar de espinhos.

A casa para onde foi viver em 1991 – e onde ainda hoje habita – é a residência dos pais. Assim, Joana vê-se forçada, pela falta de dinheiro, a dividir um apartamento em Alfornelos com um pai que durante anos a destratou e, ainda hoje, recusa aceitar a sua identidade. Esta relação com o pai é algo que, para ela, surge com uma ocorrência muito particular.

Joana diz ter vivido o pico da sua vida aos 6 anos e que, a partir daí, foi tudo sempre a piorar, numa espiral que a levou até à depressão e isolação em que vive hoje. Ainda no Zaire, o seu desempenho escolar era motivo para episódios de violência doméstica por parte do pai – que, à época, tinha problemas com álcool. Além disto, os irmãos não a protegiam ou procuravam apoiá-la. “O ambiente que vivia em casa foi-me tornando cada vez mais introvertida… não fomos uma família criada no apoio mútuo, não se cultivava aqueles laços entre irmãos”.

Por outro lado, a sua mãe vivia atormentada por um casamento que queria ver terminado, mas que mantinha pelos filhos. Contudo, isto também produzia uma certa culpabilização das crianças pela continuação do matrimónio e, portanto, acabava por não ser uma mãe muito presente – tanto que hoje, embora ainda falem, a relação que Joana mantém com a mãe é mínima.

No entanto, o pai sempre foi, para Joana, a maior fonte dos seus males. E, eventualmente, depois de anos de conflito constante, por tudo e por nada, Joana fartou-se. “Fui eu que levei a relação de não-existência a esse ponto… acabou a lenha para a fogueira. [O meu pai] Até pode estar a falar a bem ou a falar calmamente, eu não respondo. Não interessa responder.”

Apesar disso, o estado de convivência nula não impede que pai e filha se cruzem. Por essa razão, Joana evita passar mais do que o tempo necessário em casa, o que a leva a ficar muitas vezes depois das 17h no trabalho. “Eu faço horas extra porque entre aquele ambiente e o ambiente que eu tenho no meu quarto – ou na casa onde está o meu quarto – eu prefiro aquele ambiente.”

As cicatrizes que este confronto com o pai deixou na Joana ainda hoje se manifestam. A depressão que a assola deve-se, em grande parte, a esta relação tóxica. Por sua vez, o estado deprimido em que vive há décadas fá-la ter uma atitude perante a vida que acaba por ir ao encontro deste martírio interior. “A Joana é aquela pessoa que existe porque o ar é grátis” disse, citando uma praticante de artes esotéricas que, em tempos, consultou.

Apesar da solidão e tristeza que vivem com ela, Joana não se coíbe de relembrar os momentos felizes da sua vida. As melhores recordações que guarda remontam à sua passagem pelo Zaire. Desse tempo, relembra alegremente os passeios de barco no rio Congo e as viagens no interior do país. (logo no início da psicológica). “Organizava-se para aí com três famílias. Tudo tinha jipes e era preciso sair de casa às 7h da manhã para se chegar lá às 11h porque aquilo era no interior mesmo… Os locais ajudavam a levantar os pneus quando ficavam presos e depois, era preciso andar por aquelas pedras a escaldar – os pés habituavam-se! –, para se chegar a uma praia calma. Eram zonas com corrente onde se praticava pesca. A minha infância é isso!”

É certo que Joana não teve uma vida nada fácil. Ainda tentou tirar o curso superior de educadora de infância – a sua profissão de sonho – na Escola Superior de Educação, em Benfica. Contudo, devido ao elevado custo das propinas, não foi capaz de concluir o percurso. Para além de ter cadeiras em atraso, apanhou a reestruturação curricular, na qual o curso passou a durar mais um ano. Agora, admite que já não se sente “disponível emocionalmente para trabalhar com crianças”.

Apesar de tudo, mesmo sendo muito marcada por vivências negativas, a vida de Joana tem algo que muita gente gostaria de poder dizer: é uma vida cheia.

 

 

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