Sérgio Carolino: da perfeição à excelência

A música entrou-lhe na vida ainda era uma criança. O pai achou por bem inscrevê-lo em mais uma atividade extra, que lhe ocupasse o tempo com novas aprendizagens. A banda de Alcobaça, que tinha ressurgido há pouco, pareceu-lhe boa opção. O avô concordou. Tinha, em tempos, tocado caixa na mesma banda e teria muito orgulho que o neto lhe seguisse as pisadas.

Sérgio gostava de ténis e de caricatura; os chapéus sempre foram marca da sua personalidade. Mas não se importava de experimentar novas coisas. Mal sabia que um mero acaso iria definir, tão cedo, o rumo que a sua vida iria levar.

Sérgio Carolino: a paixão por chapéus veio em pequenino e foi para ficar.
Sérgio Carolino: a paixão por chapéus chegou em pequenino e veio para ficar.

De lábios demasiado grossos para a Trompete e com falta de jeito para apertar, com os lábios, a palheta do Fagote, quase que foi a Tuba que o escolheu a ele. “Foi amor ao primeiro som”. A química que se gerou entre ele e aquele instrumento foi intensa. Por já estar habituado às posições da trompete, conseguiu de imediato fazer uma escala. “Fiquei logo apaixonado pelo instrumento, e daí até ficar com o bichinho da música, foi tudo muito rápido”.

Rapidamente o ténis e a caricatura passaram para segundo plano. Hoje, Sérgio Carolino é nome e referência da Tuba em Portugal e no Mundo. Com 42 anos, já conquistou o pedestal da notoriedade artística na música. Na verdade, já conquistou quase tudo o que havia para conquistar; quando no início, foi ele o conquistado.

Divergente dos aprendizes de outros instrumentos, Sérgio não teve direito a um professor de Tuba. Se, na Banda de Alcobaça, havia apenas uma professor para todos os instrumentos, também o Conservatório Nacional de Lisboa ainda não oferecia essa especialidade. Foram as cassetes áudio e os discos vinil os seus professores mais respeitados. Ouvia-os com atenção, tentava repetir os sons, de ouvido.

Hoje Sérgio recorda esses tempos com carinho. Sem professor, diz que se manteve fora da “caixa” – daquilo que era habitual um professor ensinar – podendo ele mesmo dar asas à criatividade. Pouco tempo depois, já perspectivava tornar-se músico profissional da Banda da Marinha, mas foi o Romeu e Julieta de Prokofiev, tocado pela Orquestra da Comunidade Europeia, no Teatro S. Carlos, que o fez sonhar fazer um dia parte de uma orquestra sinfónica. Do Conservatório de Lisboa seguiu para o de Genebra, sem bolsa mas com um dom irrepreensível. O tempo passou a correr até que voltou e rapidamente iniciou uma carreira como tubista.

Sérgio assina pela Yamaha, marca que lançou uma boquilha para tuba especial, à medida do músico.
Sérgio assina pela Yamaha, marca que lançou uma boquilha para tuba especial, à medida do músico.

Diz que o que mais o distingue é a curiosidade nata de experimentar do 8 ao 80: do repertório clássico ao contemporâneo; do jazz à música improvisada mais experimentalista. E, acrescentamos nós, ser tão bem sucedido nessa exploração de diferentes idiomas musicais.

Sempre soube quão seria difícil ter um reconhecimento internacional, principalmente vindo de um país que tão pouco mérito dá aos que querem fazer da vida uma obra de arte. No entanto, quando ainda mal dava por isso, já encontrava uma réstia de esperança numa carreira fora de portas.

Aos poucos, começou a fazer master classes; começou a ser convidado para os principais festivais mundiais de instrumentos de metal; começou a ter compositores a escreverem para si; começou a gravar discos. Começou a desconstruir as barreiras psicológicas por ele mesmo impostas e a viver o momento de glória que tanto tardava em chegar.

Sparky também ajudou. Foi o seu primeiro amigo verdadeiro de quatro patas. E os 41 anos de diferença aqui não fizeram diferença nenhuma. Sérgio há muito que tinha interesse na raça Basset Hound. Os colegas tubistas aguçavam-lhe a curiosidade quando diziam que o latir destes cães soava ao toque de uma tuba. No ano passado, pôde comprová-lo. Não só Sparky adora sons graves, parecidos com o da sua voz, como os mais agudos lhe fazem alguma impressão. Sai ao dono.

Entrou na vida de Sérgio sem saber que ia representar um antídoto contra a ansiedade do músico. A personalidade forte e o teor cómico combinam em perfeita harmonia com a teimosia, diz Sérgio, numa simbiose de bem-estar e de abstração. “Absorve tudo quanto é energia negativa. Quando ele dorme comigo, de manhã acordo com uma leveza incrível.”

Como prova da sua fidelidade, Sparky teve direito a uma participação especial num dos mais recentes discos do seu dono; do projeto TUBAX, com Mário Marques. Every dog has his say, embora ainda em produção, junta a tuba ao saxofone e, claro, ao latir sui generis do basset hound.

Sérgio Carolino com Sparky, o Basset Hound.
Sérgio Carolino com Sparky, o Basset Hound.

Depois de conquistada uma carreira sólida, Sérgio já não precisa de mediatismos. Com mais de 23 discos gravados e depois de recebidos seis dos mais importantes prémios da área – inclusive, por quatro vezes, o Roger Bobo Award Prize of Excellence in Recording -, o seu lugar no estrelato mundial da música contemporânea já está garantido. Agora, afirma que tem como meta atingir o equilíbrio entre a prática da generosidade e a conquista  da excelência. Sabe que num mundo de egos como o da música, a ingratidão, o cinismo e a inveja estarão sempre presentes. Há que conseguir afastar maus olhados e atrair energias positivas.

Depois de se ter atirado de pára-quedas com a tuba às costas, Sérgio reafirma a necessidade de dar oportunidade às coisas. “Eu nunca digo que não. Ainda há uns tempos no Japão tinham lá um louva-a-deus frito e eu peguei naquilo e comi. Também já tinha comido uma aranha frita na Tailândia. Se os outros comem e sorriem, porque não? Eu tenho que experimentar!”

Confessa que também já pensou em deixar a música e em ir viver para o Nepal. Mas sabe, no entanto, que o seu lugar é a representar Portugal na qualidade de músico internacional, que tão bem sabe desempenhar.

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