RUI NEVES: O HOMEM QUE DÁ CORDA AO TÉNIS NACIONAL

Por: David Silva, Inês Soares, João Dias, Ricardo Oliveira

O ténis não se reduz aos artistas que vemos em campo. Por detrás temos outro tipo de protagonistas como Rui Neves. Desde os 14 anos a encordoar raquetes, fez disto a sua vida. Num emaranhado de cordas e recordações, faz da sua sala não só uma oficina como o maior bastidor do ténis nacional. Pelas suas mãos já passaram raquetes de estrelas como Roger Federer, Thomas Muster e João Sousa.

UMA SALA COM HISTÓRIA E A ARTE DE ENCORDOAR

Poucos metros distam entre o complexo desportivo do Jamor e um dos sítios mais conhecidos do mundo do ténis nacional, ainda que a modéstia aparente do lar de Rui Neves possa enganar o transeunte mais desatento. A raquete inscrita na parede da frente não deixa margem quanto à singeleza do espaço, confirmada depois ao entrarmos na sala de convívio (e trabalho), uma sala repleta dos mais variados ossos do ofício: sofás e mesa coberta por cordas e raquetes, lembranças na parede, a máquina de encordoar… e um canário palrador.

Sala de convívio e trabalho, isto porque o encordoador de 52 anos faz da sua casa oficina. Encordoa há 38 anos e estas quatro paredes já viram inúmeros visitantes, uns mais óbvios e outros menos: Para além de tenistas, algumas figuras públicas já passaram por aqui, inclusive políticos. Conheço muito bem o Telmo Correia, o Pedro Mota Soares, o ex-ministro Roberto Carneiro ou o Filipe Lobo Ávila, que também costuma vir aqui. Pessoas da televisão também. Uma vez bateram-me à porta e de repente tenho o Carlos Lopes à minha frente. Esta salinha tem muita história”, conta com um sorriso.

Rui Neves relaciona a desorganização da sua sala com a quantidade de recordações que a sua profissão lhe proporcionou, e ambiciona ter um dia um espaço seu em que consiga expor tudo o que guardou. As constantes visitas de profissionais, amadores, e pais de jovens tenistas não o deixam ter tempo para arrumar a sala, o que apesar de tudo não deixa de ser positivo para o negócio.

Por vezes, o metro quadrado em que trabalha (sempre de pé) pode ser “saturante”, precisando de se abstrair andando de bicicleta, jogando ténis com amigos ou a “inventar com as raquetes”, afirma. Mas na verdade, Rui Neves gosta do que faz, e diz que a profissão se enraizou em si e tornou-se uma paixão. “Às vezes sinto uma falta que não é só do trabalho em si, mas do convívio com as pessoas. Acaba por ser já uma paixão e ainda para mais trabalhando com jogadores de alto nível”, conclui.

A exigência talvez tenha sido quase sempre a mesma, mas os materiais com que trabalha não. Desde cordas de tripa natural a nylon, desde raquetes de madeira a raquetes de fibra de carbono, pelas suas mãos passaram materiais de todo o tipo. Rui Neves explica o que mudou: “Hoje em dia, como as raquetes têm áreas maiores e a malha é mais aberta e as cordas são um bocadinho mais duras, baixa-se um pouco a tensão. Passámos de uma época onde tudo jogava com 30 kg ou 29 kg de tensão para um tempo onde 22 ou 23 kg é o normal. Também depende do estilo do jogador, se joga mais em força ou mais em toque. O João Sousa joga com 21 kg, por exemplo”.

Algo que também muda no ofício de Rui Neves é o volume do trabalho ao longo do ano. O próprio admite uma certa sazonalidade da profissão e do desporto. Com muito mais trabalho no verão, o mês de maio é o mais complicado já que é a altura do Open em Portugal. Fora os torneios seniores, o trabalho também vai chegando a partir dos mais novos que apesar da sua tenra idade “já partem muitas cordas”, conta o encordoador. Embora sempre vá havendo trabalho, Rui Neves reconhece que entre novembro e fevereiro, o negócio quebra um bocadinho.

Há alguns anos, esta questão da sazonalidade era muito mais forte. O encordoador fala da sua experiência. “Quando comecei haviam muitos poucos campos cobertos. Existiam meia dúzia deles. Começou por haver dois no estádio, mas um deles estava sempre cheio de água quando chovia. Agora já começam a haver mais campos cobertos, portanto no Inverno as pessoas já jogam com mais alguma regularidade e vai sempre aparecendo algum trabalho, apesar de não ser muito. Como fui criando relação com muitos clientes ao longo destes anos todos, eles acabam por aparecer”, conta o encordoador.

Apesar de irem aparecendo muitas pessoas, “o trabalho acaba por ser um pouco solitário”, afirma Rui Neves. No entanto, isso nem sempre é mau. Com tantos torneios e tanta confusão, o encordoador diz que por vezes sabe bem estar sozinho. Quando compara o trabalho feito num torneio sempre rodeado de pessoas com o que é feito sozinho em casa, Rui Neves diz preferir a solidão pois é nesses momentos que melhor consegue fazer o seu trabalho. Ainda assim, não esconde o gosto de falar e de embarcar na conversa, não fosse exatamente o contacto com as pessoas, uma das melhores coisas que o ténis lhe poderia ter dado.

Na verdade, Rui Neves tem algo que o ajuda a combater os momentos de maior solidão: o canário Popas e a sua televisão, sempre com uma partida de ténis a passar.

A questão da herança da profissão acabou por surgir e o encordoador deu a sua sincera opinião:

“Não há interesse da parte deles, como também não há interesse da minha parte em passar a pasta. Já tive uma série de problemas por causa disso. Alguns até compram máquinas, mas é o chamado pôr cordas, eles não encordoam. É exatamente o que acontece nas grandes lojas de desporto. Eles têm uma máquina, mas não é uma profissão. Nota-se logo quando a raquete é mal encordoada.”

E COMO TUDO COMEÇOU? 

Dos 6 aos 12 anos, no final das aulas, as tardes de Rui Neves eram passadas no Estádio do Jamor, onde trabalhava a mãe e o padrinho na parte do ténis e o pai na zona do futebol. Assim, “o aparecimento do ténis no seu percurso acabou por ser uma sina de vida”, conta o encordoador.  Numa altura em que o desporto era muito exigente financeiramente, os filhos de funcionários do Estado tinham relativa facilidade em praticar desporto sem ter de pagar. Deste modo e com a influência dos seus vizinhos, com quem passava as tardes na brincadeira, Rui começa a jogar ténis. A sua primeira raquete é-lhe oferecida pelo seu padrinho.

Mais tarde, aos 14 anos, partiu as primeiras cordas e como não havia muito dinheiro, acabou por ir ter com o padrinho que “já encordoava raquetes no estádio, durante esse período” – conta Rui Neves – “As raquetes eram, maioritariamente, de madeira e remendadas. Tudo feito à mão, no momento”. O padrinho explicou-lhe como se encordoavam as raquetes e o entusiasmo começou a surgir.

A procura pela primeira máquina de encordoar acaba por ser inevitável. Começou por ser algo rudimentar: uma máquina de peso que, na altura, custou 40 contos. O encordoador diz que “foi quase um amor à primeira vista ao ver a máquina” e começa assim por encordoar as próprias raquetes. Os futuros clientes começam a surgir, angariados pelo seu padrinho que trabalhava na receção do ténis, lá no Estádio. Além disso, Rui Neves refere que nunca esqueceu a primeira raquete que encordoou para um cliente. “Comecei a fazer o trabalho de um dia para o outro. As pessoas começaram a gostar e isto começou a crescer. A dada altura já tinha um bom volume de trabalho e depois quando começa a entrar algum dinheiro, vem o entusiasmo também”, conta.

Nos anos 80 houve o boom do ténis nacional. Os campeonatos de todos os escalões eram feitos no Estádio do Jamor e como Rui jogava, começou a conhecer muitos miúdos e a trazer as raquetes deles para encordoar. Pouco tempo depois, começa a encordoar também as raquetes dos seniores. E 1 ou 2 anos mais tarde, quando João Lagos começa com os circuitos satélite (agora chamados futures), Rui é procurado para encordoar as raquetes desses torneios, começando o volume de trabalho a aumentar exponencialmente.

Em 1986 surgem os primórdios do Estoril Open, com um Challenger na Quinta da Marinha, em que Rui Neves já fora convidado. Por essa altura, já utilizava uma máquina melhor, ainda manual. Porém já não era a de peso. Aí, “comecei a trabalhar mais em convívio com os jogadores e a conhecê-los”, afirma.

28 ANOS DE ESTORIL OPEN

“Em 28 anos de Open, falhei 1 dia” disse Rui Neves. O primeiro Estoril Open aconteceu em 1990 e com isto surgiu o convite para ser o encordoador oficial do torneio, “não estava nada à espera, foi uma surpresa muito grande que eu não contava”. Desde aí, Rui Neves tornou-se presença assídua desta competição e confirma que “durante essas semanas passam por mim mais de 300 raquetes”.

Encordoação atrás de encordoação, foi através do Estoril Open que Rui Neves começou a ser conhecido entre os grandes nomes do ténis nacional e internacional. O encordoador realça que muitas vezes dá por si a ver competições de ténis na televisão e a relembrar os jovens jogadores a quem já encordoou as raquetes. O Estoril Open não só permitiu encordoar raquetes de jovens aspirações, como também de nomes já assumidos do panorama do ténis mundial, “Cheguei a encordoar as raquetes do número 1, Thomas Muster, quando ele veio cá” disse Rui.

Em 2008 começou a trabalhar com a marca Wilson que tem um stand oficial no Estoril Open. O encordoador recorda o ano em que Roger Federer veio à competição e “todos da equipa técnica queriam um autógrafo”, por isso combinou com um amigo que trabalhava na sala dos jogadores para que lhe proporcionasse um encontro com o atleta. “Após o aviso desse meu amigo, subi as escadas e fui ter com ele” disse Rui que quando chegou lá deparou-se com a mulher do atleta, Mirka Federer, e pediu-lhe autorização para se encontrar com o seu marido. Quando Federer apareceu, Rui Neves não se conteve em perguntar a tensão com que este jogava. Após responder 21 kg, a estrela do ténis perguntou-lhe se tinha tempo de encordoar 5 das suas raquetes. “Quando cheguei ao stand com as raquetes do Federer eles nem acreditaram” riu-se o encordoador, “Foi giro que nesse ano em que lhe encordoei as raquetes ele venceu” recordando, em tom de brincadeira, que quando trouxe um encordoador próprio, dois anos mais tarde, em 2010, o jogador suíço acabou por ficar pelos quartos de final.

“Houve vários jogadores e com muitos deles criaram-se amizades que ficam para sempre” afirmou o encordoador. Em 2000, aquando do torneio Masters em Lisboa, onde jogaram os 8 melhores tenistas do mundo, Rui Neves recorda o momento em que o tenista Álex Corretja lhe foi dar um abraço – “Pensei… mas quem sou eu ao pé deste tipo?”.

Para além de conhecer jogadores, Rui Neves também tem oportunidade de conhecer os encordoadores dos atletas e a aprender com os mesmos. “Cheguei a conhecer o encordoador que trabalha com o Federer e que chegou a ser do Sampras”, disse Rui. Além disso, admite que chega a trocar opiniões com o próprio encordoador do Nadal, via Facebook.

Atualmente, existe algo em relação ao Open que inquieta Rui Neves. “Gostava muito mais do Open realizado no Jamor. Acho muito mais giro do que no Estoril. Aqui tem mais espaço e é mais aberto, vem mais pessoas. Para além de ser mais cómodo para mim”, admitiu. O encordoador explica que a mudança de local ocorreu por razões políticas. A organização que agora comanda a prova está ligada à Câmara de Cascais e interessa ser no Estoril exatamente por causa do nome “Estoril Open”.

Rui Neves aponta também para as relações entre os jogadores e o público que está mais limitada com a mudança de espaço para o Estoril. “As pessoas quando vêm, não vêm só para ver jogos, vêm também porque gostam de ver treinos. Lá no Estoril, eles têm dois campos onde fazem o aquecimento e estes ninguém os vê. Perde um bocado a piada”, confessa Rui.

Relativamente ao Open deste ano, o encordoador aponta para o facto da maior parte das vezes ter sido a namorada do João Sousa a vir entregar-lhe as raquetes, realçando que o tenista apenas “aparece para dar autógrafos e depois desaparece”. Salvaguardando que aquando é o torneio da Taça Davis, é mais fácil de ter contacto com o atleta devido à menor presença de público.

“O que começou como uma brincadeira, tornou-se a minha vida”, finaliza Rui Neves.

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