Rota das Índias

Carolina Amado, Carolina Silva, Leonardo Cabana

A arte e a criatividade acompanham-no desde criança. Aos oito anos, incentivado pela mãe, começou a tocar piano. Desde aí, a música nunca mais deixou de ser parte do seu dia a dia, já que é a criação musical aquilo que mais o preenche e apaixona. Aos 21 anos, Daniel Índias funda a Arte Viral, uma Cooperativa que luta contra o esquecimento da arte e dos artistas em Portugal, inspirado pela sua própria história.

Quem o conhece, descreve-o como um visionário. Idealizou a união da arte às pessoas, à socialização. A obra não se torna arte sozinha, precisa de olhares postos em si, da confrontação de ideias. Concretiza-se na sua totalidade no momento em que cria no outro uma sensação de espanto, maravilhamento ou desconforto. Na mesma medida, quando a arte fica de parte, excluída do quotidiano das comunidades, as pessoas vivem isoladas, uma vez que os seus horizontes são limitados ao que os olhos veem.

Daniel Índias reconheceu a necessidade da divulgação artística em Portugal, um país com uma extraordinária multiplicidade cultural, mas onde, muitas vezes, os artistas sentem dificuldades em encontrar um espaço para se encontrarem com o público e partilharem as suas criações. Inquieto com esta realidade, e por sentir na pele, enquanto artista, os seus efeitos, Índias, como é mais conhecido, decidiu tomar a iniciativa e promover, através da Arte Viral, a arte portuguesa. Aliou, então, o útil ao agradável: o seu lado estratega e empreendedor, ao seu lado criativo. Qualquer um que tenha as suas obras fechadas em casa, já cobertas de pó, tem agora acesso a uma plataforma de divulgação. A Arte Viral preocupa-se e dá espaço a várias vertentes artísticas: desde a pintura, à ilustração digital, à música.

Daniel Índias Fernandes nasceu em novembro de 1992, em Lisboa. Vive, atualmente, em Sintra, mais próximo da Natureza.

Com a Arte Viral, Índias teve a oportunidade de produzir um dos eventos com que sonhara: o It’s Happening, que une as comunidades entre si e à arte. Com uma edição na Escola Artística António Arroio e outra nos Anjos, o It’s Happening funciona através de um sistema de “senhas”, em que o público decide a que artistas quer dar o seu dinheiro. Estes eventos reuniram diversos artistas performativos, musicais e visuais, como Manu Malveiro, Mike Lyte e Cara Trancada, respetivamente.

“Quando conheci o Índias, a primeira coisa que senti dele foi paz de espírito. Senti também um grande turbilhão de coisas a acontecer dentro dele. Essa perceção nunca mudou. Até hoje, sinto a mesma coisa: paz e caos. São interessantes os momentos em que se unem: conseguem criar-se uniões, gatherings como este [Ātman]”, partilhou Gaudi, artista performativo, no fim da última edição do Ātman.

Ātman significa, em sânscrito, alma, essência, sopro vital, ou higher self. O Ātman, a alma, é também isto mesmo: caos e paz em conflito, num turbilhão, mas onde, no final, prevalece a paz e o amor. No encerramento do evento, o sentimento de união no ar era quase inexplicável. Estivemos no último dia desta edição do Ātman, uma iniciativa promovida pela Arte Viral, que decorreu de 8 a 10 de outubro, na Quinta Ten-Chi, em Sintra.

O fim de semana foi preenchido por workshops e atividades, como Yoga, AcroYoga, que combina Yoga e acrobacias, meditação em grupo, atuações de artistas performativos, exposições de arte visual e muita música com ritmos chillout, downtempo ou techno. Como este é um evento que convida os participantes a desligar os telemóveis, de modo a estarem totalmente presentes e em conexão com os outros e com a Natureza, e para que todos se sintam à vontade, não é permitido tirar fotografias ou gravar vídeos. Ainda assim, tivemos oportunidade de conversar com alguns dos artistas presentes neste Ātman: Gaudi, Barbo, Janax Pacha, Gingaí, e Índias, com o seu projeto de produção musical, Nu Mokṣa.

Cartaz Ātman – We Are Here

Gaudi, Carlos Gaudi, é um artista performativo multifacetado. Já trabalhou como artista de circo em vários países, já foi diretor de teatro e espetáculos circenses, é coreógrafo, ator, dançarino. Impressiona o público com as suas técnicas de equilíbrio e malabarismo, e com os arcos que o acompanham quase sempre nas suas performances, e que diz “amar de coração”, apesar de serem objetos inanimados. Contudo, como o próprio refere, o seu trajeto não se fez apenas de malabarismos e acrobacias, foram anos de aprendizagem em que várias artes se fundiram. Em 2015, foi finalista do Got Talent Portugal.

Barbo, Tin Barbo, é um jovem produtor musical e apaixonado por surf. Para ele, é mais do que um desporto, é um estilo de vida. Nasceu nos Balcãs e em 2010 chegou a Lisboa. É guitarrista, DJ, e tem um projeto chamado Secret Garden, no Miradouro da Senhora do Monte, uma associação cultural que promove atividades que unem o convívio à música e à arte.

Gabriel Epstein, argentino, esteve no Ātman com o seu projeto Janax Pacha. Segundo o próprio, é mais do que um nome artístico, é um conceito, significa “terra do céu”. Este projeto nasceu num período de transformação na sua vida, em que, durante dois meses, se isolou do resto do mundo para refletir e estar consigo mesmo. Está, agora, focado na fusão de sons eletrónicos com instrumentos étnicos e tribais, como a flauta e o didgeridoo, aliando Natureza e cidade, orgânico e virtual. Com um talento que parece inesgotável é, ainda, ator.

Henrique Saias é um dos produtores desta edição do Ātman. É DJ, teve um projeto de trance psicadélico quando era mais novo, e hoje apresenta Gingaí, um projeto de música étnica e downtempo, “com alma”. O didgeridoo, instrumento de sopro dos povos indígenas australianos, é o seu instrumento principal. Além disso, trabalhou em quintas de produção biológica. Para si, é impensável viver afastado da Natureza.

Estes são alguns dos rostos que construíram o último Ātman. Partilham os valores e princípios que guiam este evento, que já formou um coletivo, uma família. São seis: a aprendizagem e a procura da verdade, a coragem, a bondade, a gratidão, a empatia e a dedicação. As suas prioridades são ouvir sempre o outro e conhecer novas perspetivas, cuidar do seu próprio bem-estar para que possam partilhá-lo, cultivar amor por onde quer que passem, agradecer por toda a abundância de recursos da Natureza e respeitá-la. Ao Índias, e a toda a família Ātman, o que os move é a paixão e o talento e criatividade que florescem em cada um.

Como Índias afirma, fundou o Ātman, mas não o possui. O conceito “Ātman” baseia-se, pelo contrário, na abertura e na partilha. Todos os participantes o criam, mas nenhum o detém. Índias fez, connosco, no final da noite, uma retrospetiva deste Ātman da perspetiva do artista, Nu Mokṣa, que atuou no segundo dia do evento, e do ponto de vista do produtor, gestor e técnico audiovisual.



Henrique Saias e Índias já tinham trocado algumas palavras mas reencontraram-se, por acaso, no início de 2019, num concerto de didgeridoo. Aí, perceberam que estavam em sintonia relativamente à música e aos valores que os guiam. A amizade evoluiu e, com ela, a relação profissional. Henrique juntou-se à equipa da Arte Viral e é, hoje, Project Manager. Como o próprio afirmou, é “o braço direito do fundador do Ātman”. Por isso, decidimos conhecê-lo um pouco melhor.

A Arte Viral irá manter-se na sua rota: lutar para dar voz a artistas com menor visibilidade no panorama cultural. A esta missão, aliam-se preocupações ambientais e projetos que pretendem alertar a população para o tema, por meio da arte.

Para 2020, Índias destaca um projeto, em desenvolvimento, com o artista plástico Ecos, que se inspira na Natureza para as suas criações e concilia Arte e Sustentabilidade. É, aliás, o responsável pelas obras que observamos no plano de fundo das entrevistas no final do Ātman. O seu novo projeto, com o apoio da Arte Viral, tem como principal objetivo consciencializar as pessoas para a importância do ciclo do azoto.


Daniel Índias continuará o seu caminho de aprendizagem e persistência, sem medo de errar. Como é característico seu, não se dará por satisfeito, numa busca incessante, interminável, pelo conhecimento e pela verdade. Imagina-se, no futuro, a conhecer novas culturas, talvez a viver fora de Portugal, em terras mais exóticas, rodeado pela fauna e flora. O sonho de viver a criar música, não será, contudo, deixado para trás. O avanço da era digital é a alavanca que permite que o espírito nómada, a mente empreendedora e a criatividade de Índias se unam, na concretização do futuro que imagina para si e para a Arte Viral. Enquanto o Índias estiver por perto, fisicamente ou através dos meios virtuais, os novos artistas portugueses não serão esquecidos.

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