Manel Lourenço: a Primeira Dama do indie pop português

Por Catarina Pinho, Marta Véstias e Verónica Silva

Manel cresceu rodeado de música, do folk português ao jazz, da clássica ao rock alternativo.  No final, descobriu que a sua relação com esta arte envolvia algo diferente. Apercebeu-se que a sua essência passava por melodias indie pop e canções em português sobre as pessoas à sua volta. Decidiu fazer música a solo, criou uma editora com os amigos e começou a dar concertos. Com o nome de Primeira Dama e apenas 21 anos já lançou dois discos e garante que a música é o que quer “fazer para o resto da vida”.

Capítulo I – O Palco

No coração do Bairro Alto em Lisboa, fica o estúdio do Filipe Sambado. Naquela sala preenchida por uma organização desorganizada de instrumentos musicais, forrada a caixas de ovos cor-de-laranja e de porta vermelha nasceram “os discos importantes da cena indie dos últimos dez anos”, diz Manel Loureço – a Primeira Dama. O seu primeiro álbum a solo, “Histórias por Contar”, foi um desses discos produzidos e gravados aqui pelo Sambado – assim como outros trabalhos da sua editora Xita Records.

A Xita Records foi fundada em conjunto com amigos no ano de 2015, quando Manel Lourenço terminou o secundário e decidiu fazer um ano sabático. Nesse ano começou a fazer músicas a solo, tocou teclas e compôs música com o Filipe Sambado, conheceu pessoas e deu concertos. Destaca o primeiro concerto com selo Xita Records que aconteceu no dia 27 de Junho de 2015 no café Dona Saudade, na Bica. Tudo isto fê-lo perceber que “queria fazer canções e cultivar essa ideia de cantautor, de contar uma história e de fazer canções em português”, conta.

Fez parte do primeiro EP da Xita – no qual tem uma música já como Primeira Dama – e do EP Maratona Split que foi produzido por ele, pelo Gonçalo Formiga e pelo Zé Maldito num fim-de-semana nas Caldas da Rainha. Chegou a ficar quatro dias fechado em casa a ouvir música, a fumar e a escrever letras com os amigos. Foi neste ambiente de criação colectiva que surgiram novas canções e onde Manel assume ter crescido enquanto músico e enquanto pessoa. Tudo isto culminou no lançamento do seu primeiro projecto a solo, o “Histórias por Contar”, que foi lançado em Maio de 2016.

“Foi mais ou menos natural a partir de uma certa altura e aconteceu tudo muito rápido”, afirma ao contar que quando lançou o seu primeiro disco já tinha criado uma das músicas que viriam a integrar o segundo. Nesse meio ano, até Dezembro de 2016, já tinha o segundo álbum terminado. No seguinte mês de Janeiro foi para Aveiro e com o João Sarnadas – mais conhecido por Coelho Radioactivo – produziu-o. Um ano depois do “Histórias para Contar, em Maio de 2017, é lançado o seu álbum homónimo do qual fazem parte os singles “Rita” e “Rua das Flores”.

Primeira Dama – Rita 

Primeira Dama – Rua das Flores

Quando lançou o “Primeira Dama” estava na licenciatura de Estudos Africanos na Faculdade de Letras de Lisboa mas percebeu que o que gostava mesmo de fazer era música e desistiu do curso. “É o que eu faço e é o que eu quero fazer para o resto da vida”, afirmou referindo-se à música. Ainda assim, não descarta a possibilidade de voltar a estudar quando tiver mais tempo e “mais cabeça” para isso.

Entre as Noites Xita que se realizam anualmente, o concerto no Festival da Nova Música, os duetos com a Lena D’Água e a passagem pelo Vodafone Mexefest, Manel afirma que o segundo álbum foi o que mais tocou até hoje. Até surgir um terceiro, vamos poder continuar a ouvi-lo nos próximos meses de verão no Festival A Porta em Leira, no festival Mêda+, no palco coreto do Nos Alive e ainda em Cem Soldos no Bons Sons.

Alguns dos principais palcos:

Capítulo II – Os Bastidores

O pai de Manel foi até há pouco tempo um dos maestros do coro da Gulbenkian e a lista de músicos da parte paterna da família não fica por aqui. O tio Manuel é saxofonista de Jazz, a tia canta no Coro Real de Espanha, o tio João também é cantor, o avô era músico e a avó foi durante anos professora de música. É por isso que Manel diz que “a música sempre esteve muito presente” e que começou a estudar música clássica no Conservatório de Lisboa quando ingressou no primeiro ano de escolaridade aos seis anos.

Se da herança paterna fazia parte a música clássica e o jazz, do lado da mãe ouviam-se discos dos The Strokes e dos Radiohead. “Foi a minha mãe e o meu padrasto, mas principalmente a minha mãe que me incutiram a cena indie“, diz. Eles mostraram-lhe também os “cantautores da geração antiga portuguesa”, como lhes chama ao referir-se a nomes como Zeca Afonso, Zé Mário e Sérgio Godinho.

No oitavo ano desistiu do Conservatório por “estar meio chateado” ao perceber que não era aquilo que queria fazer. “Não queria fazer nem música clássica nem jazz mas também não sabia o que queria fazer, parei só de estudar e achei que não ia fazer música”, revela.

Anos mais tarde, mudou de opinião e apercebeu-se que gostava de voltar à música. Música que esta que apesar de ter estado sempre presente na sua vida, não era a música do seu pai, explica. As influências indie que teve durante a infância  por parte da sua mãe e do seu padrasto levaram a melhor. Fez as pazes com a música por volta dos 15 anos e criou a sua banda indie, os Shads, que manteve até perto dos 17 anos – uma das músicas da banda faz parte do EP da Xita Records lançado em 2016. Depois disso foi “fazendo coisas” e conhecendo pessoas até chegar à Primeira Dama que conhecemos hoje.

Manel diz ter tido uma infância diferente. Aos dois anos mudou-se para Boston com a sua mãe quando ela foi fazer o doutoramento. Estas são as primeiras memórias que tem de si próprio, algo que diz ser “mais desconcertante do que parece” porque as primeiras memórias que tem da sua vida não correspondem ao país onde viveu a maior parte dela. Estas mudanças fizeram-no crescer mais depressa, revela. “Sou uma pessoa que desde puto se habitou a mudanças e para uma criança é algo brutal e acho que isso moldou a minha personalidade”, explica ao dizer que isso o tornou uma “pessoa mais afectuosa e apegada às pessoas” uma vez que entre ir para os EUA com dois anos e voltar para Portugal com quase cinco algumas pessoas foram desaparecendo da sua vida.

Foi obrigado a crescer depressa e afirma que durante alguns anos sentiu-se mais velho do que a idade que tinha. “Só comecei a ser mais parvalhão e a ter a idade que tinha por volta dos 18. Foi aí que comecei a sentir-me bem com as pessoas da minha idade”, relata. Antes não compreendia as pessoas da sua geração e dava-se com pessoas mais velhas porque o entendiam ou com mais novos porque o ouviam.

Não jogava Counter-Strike, não passava horas no computador, não via as novelas nem os “Morangos com Açúcar”. Em vez disso, a sua mãe cientista dava-lhe protocolos para ler, ensinava-lhe experiências e lia-lhe livros porque “felizmente não gostava que visse televisão”, conta. Manel afirma que também fez “coisas de criança” e que de vez em quando via “aqueles desenhos animados de porrada” mas que ao mesmo tempo convivia com os amigos da mãe e via programas mais adultos. Diz que lhe foi “imposto um raciocínio mais crescido” mas que apesar de ter perdido coisas típicas da sua geração que gostava de ter vivido, acabou por ganhar outras.

Capítulo III – O Processo Criativo

Tudo se resume à ideia de tu fazeres as tuas próprias canções, de cultivares isso, de ouvires muita música cantada em português e não só, de fazeres as tuas próprias canções e de teres essa vontade de construir de cantar o que está à tua volta. 
Manel Lourenço

Manel começou a escrever as primeiras letras em inglês. No entanto, foi quando começou a fazer canções em português que encontrou a sua identidade. Cresceu rodeados de livros, a ler poesia e ouvir música portuguesa e por isso a questão da língua é importante. “Ouço muita música em português e é nessa língua que penso, que comunico, que sofro e que sou feliz”, diz, acrescentando que acha ser “importante cultivar a língua portuguesa” para que não nos esqueçamos dela.

Ao início foi “fazendo coisas”, experimentando, “escrevendo e voltando atrás”, deitando umas coisas para o lixo e aproveitando outras, relata. Ao olhar para trás, confessa que, apesar de existirem boas ideias e boas letras, acha que algumas não estão bem escritas. O seu objectivo é sempre escrever melhor, diz que é para isso que “estuda, lê e faz”.

Mesmo que a letra seja trabalhada e que Manel passe muito tempo a retocar o texto, conta que normalmente as ideias partem de uma frase de que se lembra num momento aleatório. Não sabe como é que as ideias lhe vão surgindo mas defende que “as melhores letras são as mais espontâneas”.

Os seus primeiros discos nasceram “de uma tesão inicial por nunca ter feito canções assim”. Agora, está mais exigente consigo próprio e admite que nada o satisfaz de forma imediata. Precisa de criar a sua fórmula mas esse é um processo mais duro. “Envolve uma introspecção muito maior de ti próprio, é um processo lento mas com calma chega-se lá”, reflete, acrescentando que “é algo que se trabalha de disco para disco”.

Ensaia duas horas por dia, cinco dias por semana. O estúdio onde costuma ensaiar fica no mesmo prédio do estúdio do Filipe Sambado, no epicentro do Bairro Alto. É neste estúdio da editora lisboeta Cafetra – e que é partilhado com a Xita Records – que Manel ensaia as suas canções que diz serem maioritariamente sobre amor.

Conta que o seu amigo Filipe Sambado lhe disse uma vez que só se escreviam músicas sobre uma coisa e que essa coisa era o amor.  Para Manel é verdade. Diz ser uma pessoa politicamente activa – tem “o romantismo do 25 de Abril, da Grande Marcha e do Maio de 68” – e que por isso não sente necessidade de dar às suas canções essa componente interventiva. São dois campos de pensamento separados, explica, “o Manel que fala da Rita não é o mesmo Manel que vai para o Facebook quando sai a notícia da aprovação da nova lei do trabalho”. No entanto, afirma que essa componente possa estar lá indirectamente.

A sua componente política está “composta e definida” e por isso acaba por escrever sobre as suas vivências e as pessoas que estão à sua volta. “Eu até hoje só escrevi música sobre pessoas, sobre o amor aos amigos ou o amor a uma pessoa com quem eu tenha estado”, confessa. As suas letras e mais especificamente as canções “Rita” e “Mariana” são prova disso.

Enganou-me com calma e no final fez-me dizer que esta coisa do amor nunca pode acontecer.

Primeira Dama, Casa na Praia

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