Paula Mexia: Um sorriso sem limites

Por Ana Rita Inácio, Fan Jingzi e Sofia Coelho

Teatro, dança, culinária e fotografia: estas são apenas algumas das paixões de Paula Mexia. Portadora de Trissomia 21, divide os seus dias entre as diversas actividades do Centro Ocupacional da Ajuda (CAO), como uma segunda casa onde encontrou aqueles que considera os seus melhores amigos, e o papel de cuidadora da sua mãe, já com 85 anos. Independente e activa, Paula é, acima de tudo, uma pessoa feliz e o seu sorriso é prova disso.

Paula Mexia tem 40 anos e 34 deles foram passados no CAO. Esta associação, que visa a inclusão de jovens com deficiência na sociedade, acolhe actualmente cerca de 90 jovens, a grande maioria com Trissomia 21. Paula frequenta este centro desde a creche e vê nos colaboradores e colegas uma segunda família. São as suas pessoas especiais: “Tenho aqui muitos amigos, como é o caso da Carina e da Natália, que são pessoas especiais para mim”, confessa. Contudo, não hesita em afirmar que Carina é a sua melhor amiga e fala dela com um brilho nos olhos. Carina confirma esta grande amizade e diz que “puxa muito” por Paula, sobretudo nas aulas de dança.

Desde os seis anos que Paula realiza várias actividades manuais e artísticas no CAO
Desde os seis anos que Paula realiza várias actividades manuais e artísticas no CAO

Se Paula tivesse que escolher uma profissão, gostaria de ser atriz e participar na sua novela preferida, A Única Mulher. Faz parte de um grupo de teatro, da Junta de Freguesia da Ajuda, e é um verdadeiro sucesso: “Ela é muito boa no teatro, mesmo muito!”, admite Natália Breia, uma das pessoas especiais de Paula e terapeuta ocupacional do CAO. Mas Paula não se fica por aqui. Na associação, participa também no programa de rádio “Clube da Maçã”, onde se fala de alimentação, e faz parte da equipa da cozinha, preparando os pequenos-almoços e lanches para os colegas e colaboradores. Paula revela que cozinhar é uma das coisas que mais gosta e que faz de tudo, desde doces a salgados.

Recentemente embarcou num novo projecto, agora nas escolas e junto dos mais novos. Um dia por semana, Paula desloca-se à creche ao lado do CAO onde ajuda os bebés a comer e toma conta deles, ou seja, está integrada no meio como se fosse uma funcionária. “Adoro trabalhar lá. Por vezes, os meninos fazem birras e discutem, mas eu digo-lhes para pararem e eles param. Respeitam-me e tenho autoridade”, garante Paula com orgulho. Natália Breia diz que “ela está muito bem integrada na unidade e tem capacidades, tanto a nível cognitivo como prático”, por isso tem esperança que este projecto evolua para um trabalho mais contínuo e apoiado.

Esta iniciativa surgiu porque Paula adora crianças e sempre teve o desejo de trabalhar directamente com elas. Ser mãe é outro dos seus grandes sonhos, tal como casar com o seu namorado, Filipe Daniel. Também portador de Trissomia 21, Filipe é apaixonado por Paula e faz-lhe as vontades todas, sendo esta uma relação com mais de 12 anos. Passeiam juntos e vão ao circo, mas Paula não mistura as coisas: “Quando estamos a trabalhar, nada de namoros!”.

Porém, nem sempre tudo foi fácil. Há pouco tempo, Paula decidiu terminar o namoro porque queria estar sozinha e Filipe Daniel acabou por encontrar outra namorada, que se tornou inimiga de Paula. Mas como ele é “um cavalheiro fiel”, como ela o descreve, quando Paula se arrependeu de terminar a relação, foi só estalar os dedos e Filipe Daniel estava novamente aos seus pés. Natália lembra que ela já teve outros namorados, mas que o Filipe Daniel é o amor da sua vida.

No entanto, as coisas não são tão simples como Paula faz parecer. Natália Breia diz que a razão pela qual a relação terminou foi a mãe de Paula, que quando descobriu este namoro pressionou a filha para o terminar. “Os pais têm muito medo destes namoros e quando a mãe da Paula soube que estavam juntos, foi um stress”, revela a terapeuta ocupacional.

A relação de Paula com a mãe é importante. Para além de viverem só as duas, a filha ocupa hoje o lugar que em tempos a mãe ocupou: hoje é Paula a cuidadora. É totalmente autónoma e faz grande parte das tarefas domésticas, desde cozinhar a passar a ferro, muito devido ao que aprendeu no CAO, na sala de Actividades de Vida Doméstica, que frequenta por iniciativa própria.

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Paula faz tudo em casa e cozinhar é uma das coisas que mais gosta

Esta relação próxima que mantêm fez com que Paula assumisse os medos da mãe. Segundo Natália Breia, isto é algo que acontece com muita frequência, com pessoas que vivem juntas e quando uma é cuidadora da outra. Exemplo disso foi a decisão de se deslocar ou não de transportes públicos. Os colaboradores do CAO acreditam que ela é capaz disso e que tal seria mais uma conquista para a sua autonomia, mas a mãe tinha muito receio e Paula optou por se deslocar, para o centro, num transporte adaptado.

Mas o que acontecerá a Paula quando a mãe falecer? Paula é bastante prática e diz que arranjará uma casa nova para viver com o namorado. No entanto, apesar de autónoma, Paula nunca poderá viver por sua conta. Natália Breia afirma que ela não tem capacidade para gerir o seu próprio dinheiro, por mais independente que hoje seja. Porém há outras opções: Paula tem irmãos, e por isso poderá ficar à guarda de um deles, ou pode ser acolhida por uma das residências do CAO.

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O Natal foi partilhado com as suas “pessoas especiais”, a mãe e os amigos do CAO

Paula é hoje uma pessoa muito activa e que não pára um segundo. Mas está a envelhecer e, em pessoas com Trissomia 21, o envelhecimento acontece de forma mais rápida e acentuada. Paula está a perder a audição e isso inibe-a muito. Natália Breia tem trabalhado consigo este problema, de modo a que Paula, quando não entende aquilo que lhe dizem, pergunte novamente, sem complexos. Mas apesar de sociável, Paula é tímida e esta perda de audição tem tendência para fazer com que se feche mais.

Outro dos interesses de Paula é a fotografia ou, como lhe chama, a “fotocópia”. Diz que prefere fotografar pessoas e os seus modelos são sempre os amigos e colaboradores do CAO. Sabe ler e escrever, por isso é comum ir à biblioteca e requisitar livros para ler em casa, tal como faz com os textos para o programa de rádio. É perfeccionista e, independentemente das suas limitações, afirma que é muito feliz e que faz aquilo que gosta.

Apontada pelos amigos e colegas como uma pessoa determinada, que sabe aquilo que quer, autónoma e sociável, esta apaixonada pelas artes e pela vida mostra como por mais cinzenta que a vida possa parecer, basta sorrir para torna-la mais colorida.

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