Para além da cadeira

 

 

Por Ana Félix, Inês Canhão e Leonor Parente | Ilustrações por Inês Canhão

 

O que há para além da cadeira de rodas? A história de cada pessoa que nela se senta. Não uma história de desgraça ou inspiração, mas de luta diária contra o preconceito e a falta de acessibilidades. No fundo, há resiliência – da Catarina nas redes sociais, do Pedro no desporto e da Inês nas artes.

 CATARINA 
 OLIVEIRA 

Numa tarde, Catarina descontrai na casa de uma amiga. Na altura de voltar para casa, chama um carro para a vir buscar através de uma aplicação. Quando o carro chega, Catarina entra e a cadeira de rodas terá de ir no banco de trás, como não cabe no porta-bagagens, já sem as rodas. Com um ar sereno, o condutor recusa-se a levar a cadeira e Catarina no carro. O único desejo de Catarina naquele momento é sair dali e, de imediato, pede que lhe dêem a cadeira para se ir embora.

As situações de discriminação vividas por Catarina, de 32 anos, não são a exceção. Multiplicam-se no dia-a-dia e, por isso, a portuense tornou-se ativista dos direitos das pessoas com deficiência (PCD).

“Se ninguém falar, as coisas não vão mudar”

O Instagram é o palco de Catarina para a mudança. É o espaço onde pode usar a sua voz, expressar o que sente e vive. Assim, consegue que todos – pessoas com e sem deficiência – se aliem à sua causa: construir uma sociedade mais inclusiva e acessível.

A página já acumula 1800 publicações, mas o ativismo começou principalmente no ano passado. No início, partilhava conteúdo de uma forma espontânea ao mostrar o seu dia-a-dia. Hoje, ainda o faz, mas de uma forma mais trabalhada: estuda assuntos relacionados com a deficiência e partilha informação com a comunidade que criou.

Quando lhe perguntamos acerca da escolha do nome da página, “espécie rara sobre rodas”, Catarina ri-se. O nome começou como uma brincadeira, mas reflete a forma como a pessoa com deficiência é olhada.

O humor colocado no nome é o mesmo humor que se pode esperar das suas publicações.

O conteúdo de Catarina tanto educa como provoca o riso – uma combinação que faz chegar a mensagem ao público com sucesso. Se as pessoas se lembrarem de uma piada que ridiculariza uma situação discriminatória, mais facilmente acabarão por mudar as suas atitudes, explica Catarina. No fundo, trata-se de pôr o dedo na ferida “não com água oxigenada, mas betadine, porque assim arde menos”, acrescenta.

“O humor sempre foi a forma como eu lidei com as coisas”

Catarina rejeita o peso que é colocado na deficiência.

Catarina-Oliveira2

A história de Catarina nunca poderia ser uma “desgraça”. Conta-nos que estava no Brasil quando surgiu a inflamação na medula em 2015. Lá, ficou internada um mês e 17 dias. Depois, em Portugal, voltou ao internamento durante quatro meses. A ânsia de sair do hospital era maior do que as perguntas acerca do que aconteceria daí em diante. Chegado o momento, regressou a casa e começou o processo de adaptação.

Quando foi para o Brasil, fê-lo com a intenção de descobrir aquilo que queria. Na altura, sentia-se descontente com o curso de Medicina. A sua independência já estava garantida – teve vários trabalhos, desde hospedeira até promoção de eventos e marcas. Mas a incerteza em relação ao futuro mantinha-se. Por fim, decidiu mudar de rumo e enveredar pela Nutrição.

Uma profissão que ama. Mas nem por isso deixa o ativismo, que é necessário. Porque o maior obstáculo de Catarina não é a cadeira de rodas, que é o que lhe “dá liberdade e permite sair, trabalhar, viver”, como esclarece. O maior obstáculo continua a ser a discriminação.

 PEDRO
 BÁRTOLO

Em 2016, recém chegado ao país e inspirado pela experiência internacional enquanto jogador profissional, Pedro criou a 1ª equipa de Basquetebol em Cadeira de Rodas (BCR) vocacionada para a formação em Portugal, no Basket Clube de Gaia. O crowdfunding ajudou o projeto a “descolar”, apesar das dificuldades. 

O desporto adaptado é muitas vezes associado a uma maior autonomia dos atletas que treina. Pode torná-los mais capazes de fazer as rotinas no quotidiano, mais sociáveis e fazê-los encarar a deficiência de outra forma. Pedro confirma tudo isto, mas faz desde logo uma ressalva: o papel do desporto é transversal às pessoas com e sem deficiência.

Hoje, Pedro concilia a sua profissão de treinador e jogador com o trabalho que desenvolve para a Federação Portuguesa de Basquetebol. É no departamento de comunicação que ajuda a “abrir portas à integração das modalidades adaptadas nas federações convencionais”.

 

Não é a primeira vez que concilia a Comunicação com o Desporto. Com 18 anos, Pedro ingressou em Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e, ao mesmo tempo, dedicou-se ao desporto. A dedicação durante anos a fio permitiu-lhe aos 22 anos ter a possibilidade de jogar em Badajoz enquanto atleta profissional.

Mas a passagem de atleta amador a profissional não foi um processo simples. 

“É um choque de realidade e eu sofri esse choque na pele, de uma forma muito visível no meu primeiro ano, porque tinha muita dificuldade em acompanhar os atletas de fora.”

Foi aos 12 anos que teve o primeiro contacto com o BCR. Os pais estavam apreensivos. Achavam que era um desporto demasiado violento. A ideia ficou “em banho maria”, até que 4 anos depois, e com a ajuda do tio, procurou um sítio onde pudesse jogar. Foi na Associação Portuguesa de Deficientes do Porto que pôde experimentar o desporto que se tornaria o seu futuro.

 

Pedro conta-nos que aos 3 anos teve uma lesão medular incompleta, por isso, preserva bastante mobilidade nos membros inferiores. 

A cadeira sempre fez parte da sua vida e impulsionou a sua independência. Aos 18 anos tirou a carta para poder ter autonomia e escapar à falta de acessibilidades no país. Pedro recorda a forma como a mãe e o tio sempre fizeram questão de o incentivar a fazer as coisas sozinho.

Quando lhe perguntamos como foi a integração em Educação Física, o atleta suspira e responde “errática”. Mesmo mostrando gosto pelo desporto, a sua integração era fruto da sua iniciativa e persistência junto dos professores. Alguns dividiam a aula em duas modalidades, outros simplesmente não mostravam qualquer sensibilidade em relação ao assunto. Pedro recorda um exemplo ímpar.

INÊS 
MARTO 

Inês Marto é escritora, artista e ativista LGBT+. Escreveu dois livros, Combustão e Metamorfose. O último espelha o seu percurso – a sua própria transformação.

Mergulha-se em água gelada de súbito, e uma vez à tona, respira-se como se da primeira vez se trata-se… tornando-se fénix, renasce-se, acredita-se, luta-se, uma e outra vez… deixa-se para trás a pele, lava-se a alma, passo a passo… recicla-se, renova-se, revive-se, “reama-se”… 

Excerto de Ópio, retirado do blogue de Inês

Inês já renasceu inúmeras vezes. Afinal, faz parte da sua maneira de ser: “Sou uma pessoa que está sempre a mudar”, confidencia. Nunca tem um só projeto em mãos, mas vários. Está numa descoberta constante de coisas novas. No final, é difícil para os amigos descrevê-la em palavras.

A versatilidade de Inês explica-se pela sua natureza filosófica – como diz, quanto mais nos debruçamos sobre nós mesmos, mais mudanças encontramos. É um processo que a tem acompanhado desde criança, quando a paralisia cerebral a levou ao encontro da escrita e das artes.

Hoje, os projetos de Inês nas artes multiplicam-se, mas nem todos acabam por ser concretizados. Gostava de ter sido atriz. Ou de conseguir encenar espetáculos. Desejos que (ainda) não se concretizaram – não por falta de vontade, pelo contrário; é apenas resultado das cicatrizes do passado.

“A escola foi das piores fases para mim”

Quando se mudou para Lisboa, já não sentia que a viam como um “extraterrestre”. Na grande cidade, ver uma pessoa com deficiência na rua está mais normalizado do que em Fátima, onde cresceu. Depara-se com menos “episódios caricatos” em Lisboa – o que não a impede de, agora com um sorriso que revela confiança, deixar uma mensagem muito clara.

As atitudes capacitistas infiltram-se no dia-a-dia de uma pessoa com deficiência. Quando não consegue entrar num local. Quando lhe dizem algo como se fosse uma criança. Ou, ainda, quando não se dirigem diretamente à PCD, mas à pessoa que a acompanha.

Também há quem discrimine sem intenção. Catarina relembra as vezes que assumiram que precisava de ajuda, sem antes perguntar. Ou quando lhe disseram: “És tão bonita que nem reparo na cadeira de rodas” – um elogio aparentemente inofensivo. Mas Catarina não quer esconder a cadeira, pelo contrário, quer que reparem nela para que haja mais acessibilidade.

Viver 27 anos sem uma deficiência numa sociedade capacitista levou Catarina a discriminar.

O espanto é a reação de quem é acusado de ter uma atitude capacitista.

 

De todas as vezes que Catarina tolerou e aceitou a discriminação enquanto “normal”, foi capacitista perante si mesma. Inês diz também ser capacitista perante si mesma, ainda que de forma diferente.

“Estava muito internalizado que se eu não conseguisse fazer certas coisas a andar ou de pé ou sentada… então eu não era suficiente ou não ia ser aceite, tinha que fazer por obrigação”

É reflexo da forma como a fizeram sentir – como se fosse uma “máquina” que precisa de arranjo.

Inês – tal como Catarina – sugere a conversa com o outro como forma de lidar com a discriminação. Mas frisa que ainda é algo sobre o qual não se fala suficientemente.

Quando se fala sobre a deficiência, o foco é outro, como nota Pedro.

“A forma como somos representados é sempre naquele prisma caritativo do desgraçado”.

O desporto, para a pessoa com deficiência, é sempre visto como uma ferramenta de inclusão e não como carreira de competição. Por isso, Pedro diz que Portugal está “profundamente atrasado” na área.

Quando as pessoas falam com Pedro, repetem a ideia de que os paralímpicos ganham constantemente medalhas. Estão enganados: “Somos dos piores países paralímpicos do mundo”, remata. Só que a perceção de que os atletas são os “coitadinhos que ganharam”, que se tornaram em “heróis”, costuma enviesar a perceção do público.

“Nota-se uma cultura desportiva muito diferente noutros países, logo uma sensibilidade geral para o desporto paralímpico”.

Com a ideia de que a pessoa com deficiência sofreu uma tragédia ao estar “presa” ou “condenada” à cadeira, vem a inspiração. Os três jovens rejeitam, sem hesitar, que a sua história seja transformada numa de superação. Catarina fá-lo com especial indignação.

Inês deixa um alerta: se a imagem que é passada é a de que há um final feliz porque as pessoas com deficiência conseguem superar os obstáculos, então a sociedade nunca perceberá onde está a falhar.

Como nos contam os três, os programas de televisão nacionais contribuem para o ciclo: as pessoas com deficiência são convidadas a falar nos programas, mas não para passar a sua mensagem.

De todas as barreiras que a sociedade coloca às pessoas com deficiência, há umas que as impedem, literalmente, de percorrer o seu caminho: as físicas.

Portugal é um país maioritariamente inacessível. Desde ser necessário planear viagens minuciosamente para poder ir à casa de banho, não conseguir chegar a um café ou até não encontrar condições nos estabelecimentos de ensino – a falta de acessibilidades físicas limita as PCD. “De todas as formas possíveis e imaginárias”, admite Inês.

A limitação leva ao isolamento das pessoas com deficiência, que ou ficam encerradas nas suas casas ou se concentram nos mesmos locais. Não é preciso percorrer as memórias de Inês para o provar – o momento em que falamos com ela é suficiente.

As PCD não querem ajuda, querem acessibilidade para poder ter independência.

Pedro partilha uma frase que Rui Corredeira, professor da Faculdade de Desporto, lhe dizia: “Uma rampa faz mais pela inclusão das pessoas com deficiência do que mil discursos”.

“Ninguém está a pedir que as montanhas se tornem acessíveis. Estamos a pedir que as ruas da cidade, da Vila e da aldeia o sejam. Porque o que é público tem que ser acessível!”

 

Com a falta de sensibilidade e formação dos técnicos para as acessibilidades, muitas vezes são cometidos erros inesperados. Quando Inês chegou à Cidade Universitária, nenhuma residência estava adaptada. Depois de dois anos à espera que colocassem uma rampa e barras na casa-de-banho, a arquiteta contratada colocou as barras ao contrário.

Há dois meses, Catarina partilhou um vídeo onde mostrava uma rampa que dava diretamente para a estrada.

Ambos são sinais da ausência das pessoas com deficiência nas equipas de adaptação dos locais.

É resultado da falta de PCD nos lugares de poder e da falta de representação dos seus interesses.

Apesar destes dados, a presença de PCD em cargos políticos ainda é escassa. Pedro dá o exemplo das deputadas Ana Sofia Antunes e Diana Santos.

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Catarina e Pedro estão de acordo: a educação tem o poder de integrar as PCD na sociedade. Mesmo não existindo tantas pessoas com deficiência como sem deficiência, é essencial naturalizar a diferença entre elas desde cedo, começando pelas crianças. 

O papel dos pais é determinante para mostrar a diversidade às crianças.

Integrar colegas com deficiência nas turmas e sensibilizar para a deficiência em disciplinas como Formação Cívica são algumas das formas de combate à discriminação sugeridas por Catarina e Pedro.

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Para Catarina, o primeiro passo para desconstruir o preconceito é abrir espaço para as PCD, dando-lhes representatividade em todos espaços para que possam perceber que podem pertencer a todos os espaços. O mais importante, no final, é a cooperação.

Olhar para além da cadeira sem a negar.

Fazê-lo seria negar as adversidades. Não próprias da deficiência.

Mas próprias de uma sociedade “deficiente”, como diria Pedro.

Que vê a “cadeira na pessoa e não a pessoa na cadeira”, como já é habito Inês afirmar.

E que ainda tem um caminho “longo” a percorrer, conclui Catarina.

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