O trajeto de uma jovem atleta

Raquel Lourenço pratica atletismo duas horas por dia, excetuando os domingos e,por vezes, as quartas-feiras.  É a representante nas Barreiras da Casa do Povo de Corroios, local que se tornou quase a sua segunda casa. No entanto, esta jovem atleta não se dedica apenas ao desporto. Atualmente, está a estudar Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Será possível conciliar os dois mundos sem que nenhum seja prejudicado?

O desporto no ADN

Raquel fez ginástica dos 3 aos 10 anos, tendo chegado a experimentar trampolins durante um mês. Com 11 anos entrou no atletismo um pouco por acaso. Nessa altura, apareceu na sua escola básica um treinador que queria fazer um treino de captação, a fim de descobrir novos atletas. Porém, foi preciso a sua melhor amiga a convencer para ir ao treino com ela.  Quando começou, nem correr sabia, teve que aprender tudo. Mal sabia o que aí vinha.

Começou a competir assim que entrou no atletismo, mas nos primeiros anos este não era o único desporto a que se dedicava. Ao mesmo tempo, praticava natação e no seu 7º ano de escolaridade também fazia voleibol. A partir do 9º ano, decidiu dedicar-se apenas ao atletismo, para ter mais disponibilidade para a vida académica.

Uma estudante atleta

Estuda Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, mas não sente que o atletismo a prejudique muito a nível escolar porque já há muitos anos que está habituada a dedicar duas horas diárias ao atletismo. De tal maneira que é a melhor aluna do seu curso. Porém, Raquel não diz o mesmo relativamente ao impacto da vida académica no desporto. A atleta confessa que já podia ter obtido mais resultados enquanto desportista se lhe tivessem sido dados mais apoios. Quando frequentava o ensino secundário, alguns professores não apoiavam as provas de atletismo, desencorajando a participação dos alunos em corta-matos, caso houvesse um teste próximo da data da prova.

Ser atleta estudante traz alguns benefícios, como a isenção de propinas. Contudo, para Raquel seria mais importante ter outro tipo de apoios, como ter um prazo mais alargado para a entrega de trabalhos académicos.

Uma coisa de família

Em sua casa todos são atletas, tanto o pai, como a mãe e a irmã, e esse apoio é fundamental para Raquel.  O pai foi o primeiro, porém, aos 20 anos deixou de praticar este desporto. Quando soube que a sua filha queria entrar no atletismo, ficou surpreendido, mas deu-lhe todo o apoio e hoje considera que Raquel tem sido uma boa atleta e que tem conseguido aliar o desporto aos estudos, sempre com resultados de excelência. Também a sua mãe, Rute Lourenço, foi apanhada de surpresa. Estava convencida que a sua filha ia desistir do atletismo mal começasse, mas estava enganada.

O atletismo é um desporto que exige muitos sacrifícios e por vezes é complicado para a família. Entre provas e treinos, nem sempre é fácil ter tempo para tudo, especialmente porque Raquel não é a única a competir. A sua irmã, Andreia Sofia, pratica salto em comprimento e velocidade e também compete.  Porém, o facto de só haver atletas na sua casa faz com que haja um apoio e uma compreensão maior entre todos. Como se tudo isto não fosse suficiente, o seu namorado também é atleta.

Um desporto desvalorizado

Raquel quer continuar no atletismo, mas não pretende fazer deste desporto uma carreira. A atleta tem consciência de que alcançar isso em Portugal é muito complicado, devido à falta de apoios. A própria pista onde treina encontra-se degradada. Houve inclusive um ano em que os atletas do seu clube tiveram de vender rifas para ter dinheiro para alugar um autocarro que os transportasse até ao Campeonato Nacional de Juvenis. Só quando Raquel fez 19 anos é que o clube começou a pagar-lhe a sua estadia e as suas deslocações para as competições, ainda que o seu caso seja uma exceção.

De acordo com a atleta, o Vice-Campeão Nacional de atletismo paga a sua dormida e as suas deslocações para as competições e o Campeão Nacional de Corta-mato trabalha no Jumbo. Não há prémios monetários para estes atletas, pelo que ganhar títulos é sobretudo uma questão de reconhecimento pessoal e para o clube. Raquel considera que os media são uns dos responsáveis por esta desvalorização do atletismo: “Só se lembram do atletismo quando se ganham grandes prémios em grandes competições”, afirma.

Em 2015, a atleta ficou em primeiro lugar no ranking nacional dos 100 metros de barreiras. No entanto, não foi convidada para nenhum estágio. Raquel considera que esta teria sido uma boa ocasião para a Federação fazer alguma coisa: “Era importante que apoiassem os atletas que fazem parte do ranking. Essas pessoas podem não ter a marca para o campeonato da Europa, mas com algum apoio podiam lá chegar. A Federação podia investir mais nos atletas, em vez disso não pergunta nada, nem quer saber”, revela.

Por Alexandra Mendes, Mariana Cardoso e Pedro Fonseca

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