O Movimento Feminista Universitário

Catarina Valada, Lara Rocha, Madalena Carvalho e Susana Ramos

Quem foram as pioneiras feministas no Ensino Superior? Quais serão os maiores problemas de género na Universidade? Como é que a Academia se pode tornar mais igualitária? Para que é que serve o feminismo? Segue a nossa estória para descobrires.

MDM - O Movimento Democrático de Mulheres A luta organizada

O dia é 13 de março de 2021. O Movimento Democrático de Mulheres dinamiza uma concentração feminista nos Restauradores na semana do Dia Internacional das Mulheres. Esta concentração é uma ação de luta aberta, tanto a associações e organizações como pessoas singulares. Saímos à rua com os manifestantes para saber quais as opiniões dos estudantes universitários acerca deste tema.

Concentração MDM 13 de Março. Fotografia: Catarina Valada
Concentração MDM 13 de Março. Fotografia: Catarina Valada

A luta feminista não é de agora, vem de todas as mulheres ao longo da história que ousaram decidir os seus próprios destinos. Diz-se que já no séc. XIV a Universidade de Coimbra teve a primeira estudante mulher. Os rumores apontam que se tenha disfarçado de homem para assistir às aulas. Há outros dados de meados do séc. XIX que apontam para um número reduzido e não-oficial de mulheres que conseguiam entrar no Ensino Superior, mas não frequentavam os espaços dos estudantes homens. É só no final do século que a primeira mulher, Domitila de Carvalho, consegue inscrever-se oficialmente na Universidade de Coimbra.

Mesmo com estes feitos e pequenas conquistas, as manifestantes da concentração explicam que ainda não acabou a luta, ainda há muito a fazer. “Vejo que não existe uma igualdade de oportunidades entre a comunidade de investigação, entre homens e mulheres”, confessa Joana Ramos, aluna de História da FCSH. Já Madalena Marques, mestranda em História Moderna e dos Descobrimentos, abrange o seu discurso ao contexto social: “As mulheres especificamente são muito maltratadas pela sociedade, vivemos numa sociedade patriarcal que não quer que as mulheres tenham direitos e eu acho que é muito importante nós termos uma voz e dizermos ‘não, nós somos iguais a toda a gente e merecemos ter os nossos direitos também’.”

 

Filipa Brás, a acabar o mestrado de Geologia na Faculdade de Ciências, enumera algumas barreiras ao Ensino Superior como, por exemplo, as propinas. Ou seja, ainda existem desigualdades sociais, para além das de género: “Nós temos todo o direito de estudar até aos mais elevados graus de ensino, está na Constituição, [mas] depois não acontece”. Todas as entrevistadas consideram importante continuar a luta para no futuro haver mais possibilidades. “As estudantes têm um papel muito importante [na luta]”, afirma Madalena Marques. Já Joana Ramos confessa que: “Durante muitos anos vai continuar assim, são necessárias mais iniciativas destas para mudar algumas mentalidades”.

Feminismo na FCSH A luta universitária

A luta estudantil começa no seio das Faculdades. No caso da FCSH, o coração dos protestos está na Associação de Estudantes. À conversa com José Pinho, Presidente da Associação, percebemos que “a AEFCSH já tem um histórico de luta pelos direitos das mulheres, consideramos que é uma coisa essencial naquilo que é a própria emancipação das mulheres e daquilo que é a construção de uma igualdade, tanto no trabalho como na escola, principalmente, e na vida”. A Associação de Estudantes tem garantido há vários anos uma semana feminista dentro das celebrações do Dia Internacional da Mulher. Organizam debates, conferências, conversas e sessões de visionamento de documentários sobre feminismo. Através de um protocolo com o MDM (Movimento Democrático de Mulheres), marcam presença em todas as concentrações organizadas pela organização, “porque consideramos que é uma luta importante e que deve ser tida em conta e que temos todos que participar nela”.

Sendo esta luta feita de pessoas para pessoas, é importante conhecer algumas caras universitárias que não deixam estes temas passar despercebidos nas suas vidas e contribuem para a causa.

Entrevista a Rita Madeira

Rita Madeira é estudante finalista da licenciatura de Ciências da Comunicação na FCSH, fazendo parte do primeiro Núcleo Feminista de Évora e do Alentejo em geral. Desde pequena sentiu desigualdades na pele e sabia que teria de fazer algo acerca disso.

A tua atividade está maioritariamente ligada ao associativismo. Porque decidiste tomar uma posição efetiva na luta e o que te levou a integrar a Greve Feminista?

Desde muito nova que comecei a perceber que ser mulher significava um conjunto de coisas nesta sociedade e muitas vezes não eram coisas boas. Então, comecei a ter consciência de coisas que me aconteciam e percebia que era por ser mulher. Lembro-me de estar no oitavo ano, com 13 anos, e havia um rapaz na minha turma que decidiu que a brincadeira dele nos intervalos era andar a perseguir as raparigas e a apalpá-las ou a dar-lhes palmadas no rabo quando estavam distraídas. Um dia aconteceu-me e fiquei, além de humilhada e envergonhada, a sentir-me com muita raiva daquilo. A história teve um fecho interessante porque queixámo-nos a uma professora e ela, um dia em aula, disse: “Todas as raparigas que já foram apalpadas por este rapaz vão ao quadro e escrevam o vosso nome”. E obrigou-o a ficar ao lado do quadro em silêncio enquanto o quadro se enchia de nomes. Foi muito simbólico para mim, impactou-me. Senti uma indignação por ele me ter feito aquilo: não, tu não podes fazer isto, tu não podes tocar no meu corpo assim, não pode funcionar assim. […] Chegando ao núcleo feminista, fundámo-lo em finais de 2019. Até essa altura nunca tinha havido um movimento ativista direcionado aos direitos da mulher no Alentejo, pelo menos que soubéssemos. Não tinhas um núcleo como em Lisboa, no Porto, noutras cidades. No 8 de março nunca se fazia nada. Ok, recebiam-se flores e poemas, mas não havia uma manifestação. E o primeiro ano em que houve foi no início de 2020 por causa do nosso núcleo, percebemos que há uma lacuna no Alentejo no que toca ao movimento feminista.

 

O que significa para ti o feminismo?

Eu acredito mesmo que enquanto toda a gente não for livre, ninguém o é. Enquanto todas as desigualdades, opressões e violências contra as mulheres acontecerem, ninguém é livre, nem um homem é livre. O feminismo não é apenas um movimento de mulheres. É um movimento geral de todos os que querem uma sociedade mais justa, igualitária e menos violenta. É necessário que os homens vejam que a revolução também está neles, porque a opressão também atua sobre eles. A primeira coisa de base, seja qual for o género, é questionarmos as nossas próprias crenças e assumirmos a possibilidade de “se calhar o mundo não é exatamente como eu acredito que ele é”. Partindo daí, desconstruis-te a ti próprio ou a ti própria, é essencial pormo-nos um bocadinho no lugar uns dos outros. “Saber e não agir, é não saber”, quando sabemos mesmo e nos desconstruímos a nós próprios ouvindo as histórias das outras pessoas não dá para não agires, não te revoltares ou indignares. [O feminismo] é sobre histórias de vida de pessoas e é sobre seres humanos que sofrem das mais variadas formas por serem mulheres e não só. É sobre queremos viver com menos violência e menos sofrimento, não há nenhum ser humano que não queira viver de forma um bocadinho mais livre, leve e feliz.

Segue o resto da entrevista aqui:

A luta é feita de diversas formas e em diferentes contextos. Mas quais são alguns dos dados concretos sobre a realidade feminina no meio académico português?

Pôe-te à prova:

Se não te safaste com o quiz, não faz mal. Hoje em dia tens vários locais onde te podes informar sobre estes temas e enriquecer a tua luta pela igualdade de género. Apresentamos-te o Podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”, de acordo com as mesmas, trata-se de “2 feministas a falar do que as une: a vontade de fazer a diferença”. Conta com a participação de Beatriz Realinho, aluna de Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH, e Maria João Gomes, aluna de Ciências da Comunicação, também na FCSH. Vamos descobrir mais sobre elas e o que fazem.

Podcast "2 Feministas 1 Patriarcado" Com Maria João Gomes e Beatriz Realinho

O que começou com conversas entre duas amigas é agora um Podcast com episódios semanais (às quintas-feiras) em que falam sobre todos os tópicos pertinentes para ambas, desde a história do movimento feminista a arromantismo e ao mito da virgindade. Confessam que têm recebido um bom feedback dos ouvintes e que elas próprias, pela pesquisa que fazem na preparação, também conseguem aprender mais sobre o tema e arranjar novas formas de discutir sobre ele.

O Podcast encontra-se disponível em todas as plataformas e podem seguir o trabalho das duas estudantes feministas no Instagram em @2feministas1patriarcado. De que estás à espera para aprender mais e apoiar este projeto de duas feministas universitárias?

A praxe e o movimento feminista Com Maria João Falcão, Presidente do Tribunal de Praxe de Ciências da Comunicação

Ao falarmos de Ensino Superior, não podemos deixar de referir o elefante na sala: a praxe. Como será que os praxantes atuais lidam com uma tradição considerada opressora para as mulheres? Como funciona a integração de novos colegas no século XXI? Estivemos à conversa com Maria João Falcão, estudante de Ciências de Comunicação na Nova FCSH e presidente do Tribunal de Praxe do seu curso, para saber mais acerca do assunto.

E na prática, como estamos? Apelos dos estudantes da NOVA FCSH

Através de um inquérito ao corpo estudantil (amostra de 90 alunos) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa acerca de desigualdades de género e assédio no contexto da instituição, conseguimos retirar algumas conclusões sobre a situação atual, opiniões dos estudantes no que toca à defesa ou não dos mesmos contra docentes num cenário hipotético de assédio e ainda qual o papel que atribuem ao feminismo na Faculdade e na vida em geral.

Clica no (+) para informações mais detalhadas sobre os dados que obtivemos.

Estes dados e testemunhos reforçam a ideia que o feminismo é algo ainda necessário. O feminismo evoluiu e a presença das mulheres no Ensino Superior também aumentou e quebrou barreiras de género. Contudo, a luta continua por um mundo mais igual e passa pela desmistificação do próprio nome “Feminismo”. Na sua génese, feminismo é um movimento político, social, económico, ideológico e filosófico que visa à igualdade, não só de género, mas de classe e raça, de acordo com o feminismo intersecional; o feminismo acredita num mundo melhor para todes, tanto homens como mulheres e pessoas não-binárias.

A luta estudantil, que teve o seu clímax nos movimentos de maio de 1968, é percursora de mudanças na sociedade e é através do espírito jovem e aberto dos estudantes que se mudam mentalidades.

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