Na pista com o FST

Por Ana Catarina Soares, Maria Rodrigues, Miguel Laia e Sofia Batista

Durante 18 anos, a equipa da Formula Student do Instituto Superior Técnico (FST) foi-se adaptando à constante inovação tecnológica. Entre curvas e contracurvas, na pista, há uma atitude que permanece: a ambição de continuar a percorrer quilómetros. Das salas do Instituto Superior Técnico (IST) para o mundo, os carros construídos por esta equipa são fruto do conhecimento, aliado ao trabalho em equipa dos 40 membros.

O Laboratório de Vibrações do Pavilhão de Mecânica III tornou-se, no início de 2018, a casa dos elementos da equipa do Formula Student do Instituto Superior Técnico, o que potenciou os seus resultados. Prova disso é o 08e, o primeiro carro construído em apenas um ano de trabalho que, no verão do ano passado, percorreu estradas portuguesas, italianas, alemãs, checas e espanholas. Hoje, está parado na oficina da equipa, mas serve de modelo ao novo carro que está em construção desde novembro de 2018, o 09e.

Carro interativo com as diferentes áreas (Fonte: FST)

Após o sucesso do projeto universitário norte-americano Formula SAE, no Reino Unido criou-se o Formula Student, apoiado pela Sociedade de Engenheiros de Automóveis e pelo Instituto da Engenharia Mecânica. No final dos anos 90 esta competição automóvel popularizou-se por vários países da Europa. Desenvolver jovens engenheiros empreendedores e incentivar mais estudantes a seguir cursos de engenharia é o objetivo da prova que já conta com mais de 100 equipas universitárias.

“O regulamento da prova foi muito bem pensado, todos os anos é atualizado para impedir que as equipas estagnem no seu desenvolvimento, para lhes lançar desafios”, conta-nos o professor Luís Sousa, que acompanha a equipa do IST desde o seu começo. Inicialmente, a competição dividia-se em 3 classes: a primeira, tal como acontece hoje em dia, consistia na mostra do carro já construído e pronto para competir; a segunda classe, tratava-se da apresentação de um protótipo do que viria a ser o carro; e na terceira classe, apresentava-se o carro ainda enquanto conceito, no computador.

Entrevista ao Professor Luís Sousa

Hoje, a realidade é diferente. Henrique Karas, atual líder do FST, recorda o dia que a sua equipa dedicou a responder a quizzes para poder ser selecionada a competir nas provas deste ano. Os quizzes mundiais, com perguntas sobre engenharia e a própria FS, funcionam como meio para selecionar as equipas que vão a cada competição. A preparação para estes é quase como construir um mini-carro: “Nós dedicámos 4 meses, em que nos juntávamos 2 a 3 vezes por semana, para treinar a parte teórica e estratégica dos quizzes”. Tal como na corrida, a velocidade a que respondem, a par da assertividade, equivale a pontos para cada equipa. “Este ano fizemos cinco quizzes, todos num único dia. Às 2h da manhã, tivemos um, às 12h, outro, um terceiro às 14h, outro às 16h e o último às 18h. Todos com uma logística diferente, em salas diferentes e com estratégias de resposta diferentes. Foi um dia bastante stressante para garantir que, no verão, íamos às competições para as quais estávamos a trabalhar, desde o início do ano”, conta Henrique.

Embora seja uma competição, na Formula Student, a competitividade não é adversária. “Existe sempre alguma competitividade, mas, acima de tudo, existe muita troca de conhecimentos entre equipas, para que, a cada ano, consigamos fazer carros melhores e inovar cada vez mais”, explica o líder da equipa do IST. Nesta competição, não há segredos, as pits estão abertas para que o verdadeiro objetivo da competição seja atingido: aprender e evoluir com as outras equipas. No entanto, tal como em todas as competições há que ganhar pontos. Rodrigo Monteiro, piloto da equipa em 2018, conta que “há uma responsabilidade boa, porque se põe em pista o trabalho de toda a equipa”.

Entrevista ao líder da equipa, Henrique Karas

Se, em 2001, eram apenas 6 os alunos do IST que se entregavam a este projeto, hoje o FST conta com 40 membros. Oriundos das mais diversas áreas da engenharia, estes jovens consideram este projeto um complemento à formação teórica que recebem nas aulas. “Aqui têm de implementar, de arranjar soluções para construir. Deixam de ser trabalhos académicos, para ser um trabalho concreto, em que têm de projetar o que querem construir e arranjar os meios e o financiamento para tal”, explica o professor Luís, que vê no projeto uma mais-valia para os alunos.

Divididos em oito sub-equipas, desde a gestão à comunicação, passando pelas diversas partes do carro, cada um destes alunos tem consciência da importância do trabalho em equipa. “Temos deadlines e prazos fixos, para que o atraso de uma área não impeça o trabalho de outra”, explica Henrique. E quando se fala do segredo do sucesso da gestão de uma equipa tão grande a resposta é simples: “Tem de haver muita confiança, confiar que as pessoas vão fazer o trabalho que lhes é proposto”.

O desejo de inovar, a cada ano, foi passando de geração em geração. Prova disso é o 04e, o primeiro carro elétrico, que começou a ser construído em 2007. Até aí, todos os carros tinham sido a combustão. Os membros da equipa asseguram que, todos os anos, é possível inovar e fazer diferente. Por isso, já estão a trabalhar para que, no próximo ano, possam construir, na oficina, os seus próprios motores.

Cronologia dos carros construídos pela equipa (Fonte: FST)

Pela porta do Laboratório de Vibrações do IST entram diariamente dezenas de pessoas, desde membros, recrutas, alumni e professores, que vêm dar opiniões e conselhos de melhoria. Para o Henrique, todos são membros desta equipa do FST, porque todos dão o seu contributo. Mas como garantir que todos os anos há uma equipa capaz de construir um novo carro? No Instituto Superior Técnico, todas as partes da construção são pensadas e planeadas, incluindo a passagem de conhecimento. “Em novembro de 2018, começamos a preparar as pessoas que vão entrar em setembro de 2019, os recrutas”, explica Henrique. Estes recrutas não contam como membros efetivos, mas, durante um ano, aprendem através da observação, pesquisa e alguns casos práticos as tarefas que vão ter de desempenhar no futuro. Só assim se pode garantir a sustentabilidade de um projeto tão ambicioso.

“Nós não fazemos grande divisão pelos cursos, porque qualquer pessoa interessada e com vontade de aprender engenharia – que é o que se faz aqui – consegue triunfar e ser um elemento muito útil para a equipa”, explica o líder do FST. Projetar, construir e levar à competição um carro concebido de raiz põe os alunos à prova. Diariamente, a equipa é confrontada com diversos desafios, aprender a solucioná-los e a gerir o trabalho é o complemento aos conhecimentos teóricos que aprendem ao longo dos seus cursos.

No próximo dia 26 de junho, o Salão Nobre do Pavilhão Central do IST torna-se pista para o 09e – o mais recente carro da equipa, cuja construção teve início em novembro de 2018. Durante o verão, será nas provas de Espanha, Hungria e Alemanha que o FST verá consolidado o resultado de todo o seu esforço, dedicação e trabalho dos últimos oito meses.

Galeria de imagens da equipa nas competições (Fonte: FST)

Em novembro de 2019, as portas do Laboratório de Vibrações do Pavilhão de Mecânica III voltam a abrir e uma nova equipa estará pronta para construir um novo protótipo, o 10e.

Entra na corrida e, tal como a equipa do FST, testa aqui os teus conhecimentos. Será que estás pronto para competir?

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