UM CORPO NÃO É SÓ UM CORPO

As Modificações Corporais no rosto do século XXI: da body art à suspensão corporal

Por Catarina Carreira, Catarina Vieira da Silva e Maria Fernandes

Podem ir de uma pequena tatuagem ou furo na orelha a implantes subcutâneos ou até à mais extrema transição de humano para animal ou ser mítico. As modificações corporais consistem na alteração da anatomia humana e podem ser feitas de um ponto de vista estritamente estético e de expressão individual ou ter origens mais profundas, culturalmente enraizadas. Na sociedade atual, estas modificações podem ser vistas com alguma estranheza pela maioria da população e estar associadas a uma série de preconceitos e estereótipos.

Para desmistificar as modificações corporais estivemos à conversa com Fedra Ferreira, body piercer natural da Marinha Grande e residente na Alemanha, onde trabalha num estúdio. Embora não viva das modificações corporais, o seu corpo denuncia a proximidade que tem com elas e afirma já se ter aventurado, também, em operar algumas transformações noutros corpos. Relata-nos ainda a sua experiência com suspensão corporal, que, de forma meditativa, encara como um ritual de superação de dor, contribuindo para uma sensação de concretização pessoal.

A sua paixão por piercing nasceu quando tinha 16 anos. Nessa altura, chegou a fazer pesquisa e a encomendar alguns materiais que lhe permitiram fazer os seus primeiros trabalhos em amigos. Aos 18 anos, fez um curso para se especializar como body piercer. Teve, desde logo, um convite para trabalhar numa loja da Marinha Grande, a sua área de residência. Convite esse que aceitou, em 2012, quando terminou a sua formação.

No curso, lecionado por um amigo próximo que já estava ligado às modificações corporais, Fedra começou também a aprender técnicas nessa área e a fazer algumas modificações no seu próprio corpo.

Apesar deste interesse pelas modificações, revela-nos ter continuado a trabalhar apenas na área do piercing. Com o passar do tempo, a sua atenção foi englobando diferentes áreas e descobriu a suspensão corporal, que captou o interesse de Fedra. Contudo, o seu objetivo continua a centrar-se no desenvolvimento das técnicas de modificação das línguas, orelhas e implantes; áreas que vai desenvolvendo entre amigos e conhecidos.

Em 2019, Fedra foi para Inglaterra, onde aprendeu bastante sobre modificação corporal. Foi nessa altura que recebeu um convite para ir para a Alemanha, onde se encontra agora. Aí continua o seu trabalho em piercing, mantendo a atividade de modificação corporal como um projeto entre amigos.

O seu trabalho, revela-nos, necessita de uma constante formação. Neste sentido, Fedra procura ir desenvolvendo novas técnicas que permitam uma melhor cicatrização e alternativas cada vez mais seguras e higiénicas, de forma a proporcionar uma melhor experiência aos seus clientes. A jovem destaca os seminários e convenções que frequenta como fontes na sua aprendizagem contínua.

EM ESTÚDIO

Além de piercing, Fedra trabalha com scarification. É um tipo de modificação corporal que consiste em cortes na pele que, depois de cicatrizados, formam um desenho, figuras ou palavras, dependendo do que o cliente escolher. Apesar de este não ser o foco principal do seu trabalho, algumas pessoas procuram Fedra para este tipo de transformação. A jovem admite que o processo pode parecer um pouco “assustador” mas que após cicatrizado, compensa e os clientes ficam satisfeitos.

Estúdio onde Fedra trabalha em Hennef, Alemanha

Embora destaque o papel das redes sociais como forma de divulgação do seu trabalho, seguir uma carreira nas modificações corporais não se revela uma tarefa fácil. Esta situação justifica-se com a exigência em termos de responsabilidade e com a existência de vários perigos associados às modificações corporais. Todas as questões de higiene e de biossegurança assumem extrema importância.

Há clientes que aceitam os riscos e depois vêm-nos dizer que se passou isto ou aquilo, mesmo sabendo que isso poderia acontecer. Isso é complicado.

O CORPO-TELA

Em 2012, após o término do curso que frequentava, Fedra fez a primeira modificação no seu corpo: a língua bifurcada. Atualmente, conta com cerca de dez a doze modificações.

Foi ainda em Portugal que fez a coloração dos olhos. Confessa-nos, foi a modificação que mais lhe custou fazer. Não que se tenha destacado pela dor sentida, mas porque foi algo que teve de pensar antes de fazer. Além disso, por melhor que seja o profissional a executar, nunca há certezas acerca da reação dos olhos ou da pele que os envolve. Podem ser várias as complicações, havendo por isso sempre um risco associado a este processo. Conta que sempre optou por desenhos grandes nas scarifications, associado a uma questão de superação daquele momento e da dor que proporciona. Não realiza as modificações com um simbolismo associado e, por isso, as suas modificações não contam histórias. Todas as escolhas refletem uma preferência estética e a aparência que deseja ver no espelho. Para o futuro, quer modificar as orelhas para que fiquem com a aparência de orelhas de elfo. Diz que não faz planos a longo prazo e que as ideias para modificações futuras no seu corpo lhe chegam à medida que o tempo passa.

Conta que sempre optou por desenhos grandes nas scarifications, associado a uma questão de superação daquele momento e da dor que proporciona. Não realiza as modificações com um simbolismo associado e, por isso, as suas modificações não contam histórias. Todas as escolhas refletem uma preferência estética e a aparência que deseja ver no espelho. Para o futuro, quer modificar as orelhas para que fiquem com a aparência de orelhas de elfo. Diz que não faz planos a longo prazo e que as ideias para modificações futuras no seu corpo lhe chegam à medida que o tempo passa.

Na sua opinião, o corpo é uma tela que deve ser pintada ao gosto de cada um, como a body art. É nesse sentido que a modificação corporal serve as pessoas, por lhes permitir preencher a tela com elementos que acham visualmente interessantes. Fedra admite a possibilidade de uma relação com a atração física, mas destaca o seu trabalho como uma forma de arte.

Eu não gosto, nem tenho uma boa relação com a dor. Quanto menos dor eu puder sentir, melhor. Mas sei que há pessoas que vêm isto como um refúgio ou com alguma fobia social. Estas modificações podem dar alguma confiança ou quererem marcar diferença. Mas há outras que não, que são apenas arte: olhar no espelho e ver o que gostava de mudar.

A realização de modificações corporais em si e nos outros altera a sua forma de olhar o ser humano. Contudo, Fedra não sobrevaloriza esta questão. Destaca as modificações como processos simples, comparando-os a uma rinoplastia ou a implantes mamários. Destaca que há várias pessoas capazes de modificar o ser humano, à semelhança do cirurgião plástico também um dentista modifica o aspeto da pessoa.

Na sua opinião, as modificações prendem-se essencialmente com a questão estética, embora reconheça alguma importância na superação da dor e na ritualização do processo. Há uma passagem por vários estados, que podem ser de ansiedade ou de êxtase, que Fedra destaca como marcantes nesta ritualização. Muitas vezes este ritual passa por acender incensos e velas, de forma a criar um ambiente de relaxamento. Quando finalizada a modificação, Fedra vê-a como uma etapa ultrapassada com sucesso. Além disso, há uma espiritualidade associada a esta visão ritualizada e de superação.

Há aqueles estados da dor, mais em suspensão corporal, em que temos de nos abstrair da dor e entrar num estado mais acima para conseguir prosseguir. Porque se ficarmos ali estagnados vai sempre acontecer alguma coisa, a pessoa não se vai sentir bem. Eu vejo isso como um lado mais espiritual.

Para pessoas que estejam dentro do mundo das modificações, este pode mesmo ser um processo terapêutico. “Pode haver alturas da vida em que as pessoas não se sentem bem, se sintam inferiores” – é nessas situações que modificar o corpo pode funcionar como uma terapia. A ideia de superação associada às modificações corporais pode colaborar para que a pessoas recupere a sua autoestima por conseguir superar mais uma etapa a que se propõe.

NO OLHAR DO OUTRO

Atualmente, os modificadores corporais estão a ser cada vez mais conhecidos e, por isso, o assunto está a deixar, aos poucos, de ser um tabu. Mesmo assim, e dependendo do país, as pessoas com modificações corporais tendem a sofrer com olhares preconceituosos.

Há sempre aquelas senhoras mais religiosas que se benzem ao passar por nós. Ainda é um bocadinho [tabu], mas acho que está a melhorar e há cada vez mais pessoas com interesse na modificação.

Fedra destaca que as modificações continuam a não ser bem aceites na sociedade, principalmente quando chega a hora de encontrar trabalho. Embora nunca tenha sentido na pele, por trabalhar num estúdio de modificações, sabe que estas opções ainda estão a começar a ser aceites. Fedra admite que uma pessoa que trabalhe num escritório possa gostar de ter algumas modificações no seu corpo que não realiza pelo preconceito existente na sociedade onde se insere. Para que sigam a carreira que querem não podem fazer aquilo que mais gostariam no seu corpo.

Um dos mitos mais recorrentes, que serve de justificação ao preconceito face a estas modificações, afirma que esta prática tem origem num vício. Fedra nega esta afirmação. Na opinião da body piercer as pessoas que querem fazer mais modificações justificam-se com base da sensação que lhes foi proporcionada. Há uma experiência que é positiva e que leva as pessoas a querer repetir o sentimento. As pessoas tendem a repetir as modificações, mas não de forma compulsiva e descontrolada.

EXTREME BODY MOD

Apesar de estar dentro do mundo das modificações corporais, isso não impede Fedra de reconhecer que existem limites. Destaca que os limites dependem de cada pessoa e que já conheceu algumas modificações que não faria no seu corpo. Admite que a sua modificação nos olhos pode mesmo ser considerada uma modificação extrema por se encontrar na face. Toda a expressão facial é alterada pelas alterações ao nível dos olhos e isso influencia a forma como se comunica.

Contudo, Fedra destaca outros tipos de modificações que considera demasiado extremas e que seria incapaz de fazer. Afiar os dentes e retirar partes do corpo são processos que constam nessa lista.

Além de partes do corpo, há pessoas que se transformam por completo. Existe quem não se identifique como ser humano e, por isso, use as modificações corporais para ver no espelho a figura com quem se identifica. Podem ser pessoas-lagarto, pessoas-dragão, etc. Fedra não teve ainda clientes neste tipo de transição, mas tem conhecimento desta prática.

Não consigo colocar-me no lugar delas, mas elas realmente sentem que a sua essência não é humana. Um homem-tigre realmente sente que a sua essência seria olhar no espelho e ver um tigre e fez todo um percurso para ter esse aspeto. À semelhança de um homem que se pode olhar ao espelho e achar que devia ver-se como uma mulher e fazer todo o processo para a transição. Portanto acho que sim, que também podemos ter essa mudança para animais ou aliens.

Pode tornar-se complicado compreender o que levará uma pessoa a sentir a necessidade de uma tão grande transformação. Fedra destaca, uma vez mais, o sentido estético e espiritual inerente a estas transformações, não descartando a hipótese de um transtorno psicológico. “Cada caso é um caso” afirma e as razões que podem estar por detrás destes processos dependem de cada pessoa.

A SUSPENSÃO CORPORAL

Fedra fala da suspensão corporal como um ritual. Reconhece que algumas pessoas podem participar pelo prazer de sentir dor, mas esse não é o seu caso. Antes da sessão, cada pessoa prepara-se de forma que achar mais adequada. Depois disso, as pessoas são preparadas pelo profissional que as vai acompanhar. Colocam os ganchos e têm toda a “família” em volta pois acabam por estabelecer uma relação com quem está a meter os ganchos e com todos os membros do grupo.

Há várias posições pré-definidas, que determinam a posição do corpo e a localização dos ganchos no corpo. O primeiro passo é escolher qual a posição desejada. A partir daqui, a parte da pele em que os ganchos vão ser inseridos vai ser furada, sempre com a preocupação do profissional em procurar a área mais confortável. Fedra destaca os cuidados que garantem a máxima segurança de todos: “É tudo marcado e esterilizado”.

Além do profissional que cuida da pele e que executa a colocação dos ganchos, há uma outra pessoa que prepara a árvore ou o ringue (dependendo se a atividade decorre indoor ou outdoor), de onde a pessoa irá “voar”.

Embora Fedra não seja profissional e não tenha ainda estado envolvida na preparação de uma pessoa para esta atividade, conta-nos que cada local do corpo tem um tipo de pele específico e que, por isso, cada local do corpo deve ser tratado de diferente forma. O gancho é sempre inserido por baixo das duas camadas de pele, nunca na gordura nem no músculo.

Afirma que é certo que exista uma técnica, embora ela não a conheça e não a possa descrever. De qualquer forma, como em muitos outros procedimentos, há sempre coisas que podem correr menos bem e há sempre riscos a correr. A principal necessidade para esta prática é a confiança nos profissionais que a proporcionam.

Claro que já vi situações de rasgar um pouquinho, de levar uns pontos depois.

O tempo que cada pessoa passa na posição de suspensão depende da posição selecionada. Há algumas posições que são mais dolorosas, em que a pessoa pode passar dez a quinze minutos. “Às vezes pode mesmo só subir, estar um bocadinho e depois descer”, admite. A condição psicológica da pessoa pode ser uma determinante na duração da experiência, que pode ser mais curta se houver algum entrave à completa entrega por parte do participante. Na posição mais comum, a switch sides, o participante pode estar entre uma a duas horas, o tempo que conseguir.

No máximo, Fedra admite ter estado em suspensão durante trinta a quarenta minutos. Na sua opinião, não é necessário que a experiência seja longa para ser recompensadora. Revela-nos que os primeiros minutos são os mais difíceis de suportar e, para os ultrapassar, tenta abstrair-se e elevar-se a um outro nível.

Os primeiros cinco a dez minutos são bastante fortes, mas eu tento concentrar-me. Tento meditar e abstrair-me do sítio onde estou e de tudo o que está à minha volta. Tento abstrair-me da dor e visualizar que não tenho ganchos e que estou noutro nível de consciência. Nesta fase ainda sinto alguma dor. Depois, o que tento fazer é abstrair-me totalmente e seguir.

Revela-nos que da primeira vez que fez suspensão corporal se preparou com meditação algumas horas antes. Além disso, não sabia como o seu estômago poderia reagir e, por isso, fez também um jejum antes da sessão. A meditação acabou por ser um ritual que decidiu adotar e que agora realiza antes de cada reunião de suspensão corporal. 

A motivação para que a jovem queira passar por este ritual prende-se na questão da superação, da sensação de conseguir ultrapassar aquele momento. Saber que conseguiu mentalmente abstrair-se e superar a grande barreira que a dor proporciona. Esta parece uma tarefa complexa e Fedra admite que pode mesmo haver pessoas que não consigam ultrapassar a dor proporcionada.

 No final da experiência, ficam as cicatrizes e uma sensação de bem-estar e de superação e realização pessoal. A suspensão corporal funciona como uma forma de aumentar a autoestima do participante.

ENTRE PORTUGAL E A ALEMANHA

Fedra admite que, em Portugal, as pessoas são mais fechadas relativamente às modificações corporais. Têm mais tendência a “olhar de lado” e a comentar. Na Alemanha, a situação altera-se um pouco. Há mais curiosidade, há uma maior tendência a falar e perguntar e demonstrar interesse. A mentalidade é um pouco diferente.

Também acontece haver curiosidade em Portugal e preconceito na Alemanha, mas essas situações não definem a regra, mas antes a exceção. A regra aponta para uma maior abertura e maior interesse por parte dos germânicos. Esta pode ser justificada por uma maior adesão dos alemães à modificação corporal. Na Alemanha há mais pessoas a praticar e a fazer modificações.

Além disso, Fedra destaca que a faixa etária da adesão dos germânicos é mais ampla, agregando pessoas de quase todas as idades. Pelo contrário, em Portugal, há uma faixa etária que se encontra o seu limite entre os 18 e os 40 anos.

Aqui, no estúdio onde trabalho, vejo pessoas com 70 ou 80 anos a fazerem tatuagens. Acho que isso é aqui mais bem aceite, não havendo aquele preconceito de nos associar a “marginais”.

No que diz respeito à suspensão corporal, as diferenças entre Portugal e Alemanha não são muito acentuadas. Em Portugal as reuniões começaram por volta de 2016 e mantêm-se com alguma frequência. Na Alemanha, à semelhança das modificações, há mais pessoas a praticar suspensão e a proporcionar esta experiência. Contudo, no ponto de vista de Fedra, o desenvolvimento está equiparado em ambos os países.

No que toca a Portugal, Fedra explica-nos a privacidade requerida nestas sessões. Esta prende-se com a necessidade dos participantes se sentirem “à vontade” e “em família”. Há uma necessidade de união que não é garantida quando há um grande conjunto de pessoas a assistir. Contudo, há, também em Portugal, algumas sessões de suspensão corporal em festas e em convenções, como o Lisbon Tatoo & Rock.

A tinta corre, a agulha fura, o bisturi corta. As modificações corporais são uma prática com séculos de história que vê nas suas raízes rituais de passagem, crenças espirituais e religiosas e até simbologia mitológica. No entanto, cada vez mais são vistas como uma forma de expressão individual e realizadas por razões estéticas, contribuindo para a construção da identidade de cada um.

Fedra é uma body piercer que, como vários pelo mundo, renova o seu conhecimento e procura descobrir e compreender mais sobre aquela que considera ser uma forma de arte, através do corpo. A aproximação entre Portugal e a Alemanha revela a globalização do universo Body Mod e de uma comunidade que está em crescimento. Do simples ao extremo, as modificações estão cada vez mais presentes nas ruas e a desmistificação das mesmas é a prioridade.

Todas as imagens foram gentilmente cedidas por Fedra Ferreira

Para conhecer mais acerca das modificações corporais:

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