Melodias em Espanhol: Histórias da Globalização

Reggaeton, a irreverência latina à escala global

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A fila dá a volta ao edifício. Apesar de estares à espera há algum tempo, ainda não perdeste o entusiasmo. As batidas que fazem o chão tremer vão se intensificando à medida que a fila vai avançando e tu vais chegando mais perto da porta. Tu e os teus amigos vestem roupas leves:  as raparigas estão de calças de ganga, crop tops decotados em cores garridas e salto alto, os rapazes de calções e t-shirts; mas o calor húmido de San Juan faz-se sentir mesmo assim. Pequenas gotas de suor já te começam a escorrer pela nuca e tu pensas na bebida cheia de gelo que vais pedir assim que entrares. Já consegues ver a entrada de onde estás. O edifício estilo colonial com as suas várias varandas e paredes rosa choque quase parece uma casa de bonecas tropical, ninguém diria que se tratava da maior discoteca da capital de Porto Rico. No entanto, as letras grandes que brilham em neon e que se encontram por cima da porta não enganam. Estás prestes a entrar no lendário “The Noise”. Assim que chegas ao fim da fila, dois homens grandes e com o ar intimidador pedem-te a ti e ao teu grupo que lhes mostrem os bilhetes de identidade e que abram as malas. A seguir, vem o detetor de metais. Reviras os olhos enquanto te pedem que te vires uma e outra vez, não sabes onde esconderias uma arma em tão pouca roupa, mas sabes que não seria a primeira vez que alguém entrava com uma. Finalmente deixam-te entrar.

Percorres um apertado corredor escuro. A música agora é quase ensurdecedora, ouves alguém a rappar por cima de uma mistura claramente de reggaeton, mas a voz é afundada pelos gritos das pessoas que sabem a letra de cor. No fim do corredor, uma sala aberta com um teto alto e arqueado coberto de balões prateados e dourados estende-se à tua frente. Os teus olhos rapidamente se habituam às luzes multicolores que rodopiam pelo espaço. Do lado direito consegues ver um palco onde se distinguem duas figuras aos saltos. Um jovem vestido com roupas largas e correntes de ouro à volta do pescoço grita entusiasmadamente para o microfone enquanto outro jovem o observa com um ar superior. A primeira batalha da noite já começou. Tu e os teus amigos movem-se com dificuldade pela multidão, procurando por um espaço vazio onde se possam instalar e dançar livremente. À tua volta, casais dançam perreo sem vergonha, à noite são livres. Raparigas à frente dos rapazes põem os braços à volta da sua cabeça enquanto descem sedutoramente ao som da batida, corpo contra corpo, movem-se em conjunto. Este é o espaço onde o reggaeton se revela em todas as suas formas.                  

Uma história feita em vários lugares

As origens do reggaeton (desde o início do século XX aos anos 80)

Como o reggae em espanhol se transformou em reggaeton

Apesar de as origens do reggaeton serem apontadas ao Panamá, foi nos anos 90 em Porto Rico que este som se solidificou e se nomeou.  DJs Jamaicanos começaram a passar dancehall reggae em várias discotecas e eventos. Foi nestes espaços noturnos que o estilo se começou a misturar com o hip hop, dembow e outras tradições latinas, e ganhou o nome oficial de reggaeton. Vários artistas do género começaram a aparecer e cada vez mais novos. O género rapidamente se tornou popular entre os jovens de classe baixa.

The Noisea lenda da origem do reggaeton

The Noise é a discoteca que muitos dizem ter sido o berço de nascimento do reggaeton em Porto Rico. Foi criada por DJ Negro em San Juan, a capital de Porto Rico, entre o fim da década de 90 e o início da de 2000. No entanto, a sua localização e características foram mudando ao longo dos anos, uma vez que o espaço era frequentemente fechado, apenas para mais tarde abrir noutro canto qualquer da capital. Mas tudo começou em  La Perla, um dos bairros mais problemáticos de San Juan, onde o tráfico de droga e atividade dos gangues eram constantes. Foi neste que DJ Negro, após ter passado algum tempo a trabalhar e a atuar com Vico C, um dos pioneiros do rap em espanhol, e a fazer algum trabalho como DJ,  decidiu abrir o seu próprio clube noturno. Este revelou-se um clube diferente daqueles habitualmente frequentados pela classe alta, com interiores modernos e chamativos. O primeiro The Noise era apenas um edifício abandonado, pintado de preto por fora, e decorado por dentro com luz da mesma cor. Mesmo assim, DJ Negro conseguiu enchê-lo logo nas primeiras semanas, com a promessa de que naquele espaço se poderiam ouvir os novos ritmos e dançar o perreo, dança que era proibida noutras discotecas. 

(Retirado de The Noise.El Documental/2013)

No The Noise ouvia-se principalmente música ao vivo. Faziam-se batalhas de rap espanhol e todos os dias apareciam cantores novos a querer pisar o palco. Quando DJ Negro ouviu as primeiras cassetes de Reggaeton (ainda sem esse nome), vindas do Panamá, decidiu perguntar se algum dos seus artistas queria fazer uma versão e apresentá-la em palco. Assim começou o Reggaeton em Porto Rico. Vários artistas desconhecidos começaram a ganhar nome quando se tornaram favoritos das multidões que iam para a discoteca dançar. Daddy Yankee, um dos maiores nomes da música latina a nível global, foi um deles. O artista estreou-se com 14 anos neste mesmo espaço. No entanto, o Reggaeton de Porto Rico apenas explodiu quando começaram a ser feitas mixtapes dos artistas mais populares que tocavam no The Noise. Estas eram feitas de forma amadora e eram vendidas na rua. A seguir ao sucesso do primeiro volume, os artistas começaram a batalhar em palco por um lugar na mixtape. Quem conseguia esse lugar tornava-se uma estrela para a cultura jovem. O The Noise chegou mesmo a fazer uma digressão com os vários artistas a quem dava palco.

Foto tirada de RedBull

Quando o reggaeton começou a ter sucesso, dentro e fora do país, deixou de ser mal visto e proibido, e passou ser algo do agrado das massas, tornando-se no estilo favorito para se ouvir nos espaços noturnos. Assim, as discotecas de classe alta começaram a fazer dele a banda sonora das suas pistas de dança e por terem mais capital, tinham maior capacidade para atrair clientes através de descontos e publicidade. Assim, o The Noise não conseguiu resistir à competição e acabou por fechar, desta vez definitivamente. Contudo, o seu legado não é esquecido e ainda hoje é conhecido como um dos espaços que criou o reggeaton como o conhecemos hoje.

Música que foi feita nas margens da lei 

Reggaeton foi durante muito tempo a música da classe mais baixa de Porto Rico, não só a nível dos consumidores, mas também nos próprios criadores e artistas. Não era um estilo feito por grandes empresas discográficas ou grandes estrelas com direito a campanhas de publicidade. As cassetes eram gravadas em marquesinas, estúdios amadores no meio dos bairros sociais e estas eram vendidas em stands na rua, com publicidade feita de boca em boca. Apenas os grupos com mais destaque chegavam a fazer videoclips, filmados com câmeras de telemóveis a preços acessíveis. Estes eram espalhados em cassetes e mais tarde chegaram à internet pelas plataformas de vídeo. 

(Retirado de The Noise.El Documental/2013)

Devido a esta ligação aos bairros sociais, este primeiro reggaeton estava muitas vezes ligado a artistas que faziam parte de gangues, sendo que alguns deles foram mesmo para a prisão. As letras deste estilo referiam-se muitas vezes à violência e vida dos gangues, bem como a conteúdo sexual explícito. Por estes motivos, este estilo musical começou a ser alvo de uma campanha de censura e proibição. Nos anos 90 era comum a polícia ir a lojas de música garantir que não havia reggaeton à venda, chegando mesmo a confiscar as cassetes que encontravam. Usavam o código penal contra as obscenidades como a razão para esta censura. No entanto, a campanha contra o reggeton ia mais longe, sendo que os órgãos de comunicação social retratavam os rappers e artistas do reggaeton como bandidos e “irresponsáveis corruptos da ordem pública”. O desagrado que o governo tinha pelo estilo musical levou a que em 2002, se fizessem audiências públicas contra este. No entanto, isto não parou a comunidade do reggaeton em Porto Rico, que continuou a sua arte de forma informal nos seus bairros. 

Porém, os ataques ao género continuaram a acontecer nos anos seguintes, um pouco por toda a América Latina. Em 2011, houve a tentativa de banir a venda e distribuição de reggaeton na Colômbia e em 2012, em Cuba, chegou-se mesmo a banir o género dos espaços públicos.

Os papel dos Bairros Pan-Latinos

Ao mesmo tempo que estes géneros musicais se iam espalhando e popularizando pela América Latina, também enchiam as ruas dos bairros pan-latinos das grandes metrópoles. Em Nova Iorque, no East Harlem e no Camden, em Londres, as diferentes comunidades latinas misturavam-se e trocavam tradições e influências, cozinhando a sua música como um refogado que misturava várias especiarias. Por isso, o reggaeton contemporâneo tem não só influência da música jamaicana, mas também da salsa, merengue e outras tradições musicais latinas, do hip hop e da musica tecno.

Como o reggaeton começou a chegar aos mercado internacionais

Nas cidades dos Estados Unidos com maior população latina, como Nova Iorque e Miami, a vontade de dançar reggaeton era cada vez maior. O género, que era imensamente popular entre a população jovem, começou a marcar presença em algumas discotecas, tendo mesmo surgido clubes noturnos dedicados apenas a este. A partir de 2010, o reggaeton teve um “boom”: as discotecas foram-se multiplicando, os cantores foram-se tornando cada vez mais populares e as músicas começaram a subir nas tabelas. O mesmo se passou um pouco por toda a Europa, especialmente em Espanha, onde o género sempre teve maior adesão devido ao património cultural comum que partilha com a América Latina.

O reggaeton nos dias de hoje

O papel das plataformas de streaming no desenvolvimento do reggaeton

 As plataformas de streaming desempenharam um papel importante no processo de globalização do reggaeton. Grande parte deste inegável sucesso deve-se à playlist Baila Reggaeton, no Spotify. Criada em 2013 por Rocio Guerrero, esta playlist reúne os grandes sucessos do género e é hoje uma das mais populares na plataforma. Os sistemas de sugestão de novos artistas e playlists desempenharam um papel igualmente importante para a divulgação do género.

Dados estatísticos relativos ao sucesso do reggaeton nas plataformas de streaming

A importância das colaborações

Para ouvir: Uma curta playlist com algumas das grandes colaborações no reggaeton

No reggaeton, a colaboração entre artistas é muito frequente, quer seja entre artistas do género, que se procuram catapultar, quer seja com as colaborações que partem para fora do estilo musical. Esse aspeto foi fundamental para o crescimento do género, que é considerado muito unido. Estas colaborações, logicamente, permitem a artistas de reggaeton ganhar uma maior popularidade a nível mainstream e mais global. Artistas como Luis Fonsi ou Daddy Yankee, por exemplo, ganharam ainda mais popularidade quando Justin Bieber participou na versão remix de Despacito.

Luis Fonsi e Justin Bieber numa performance ao vivo do remix de Despacito

Grandes Hits do reggaeton

O reggaeton é um género repleto de canções de grande sucesso. Nos últimos anos tornou-se comum ouvir músicas do género na rádio, em discotecas, nas plataformas de streaming e um pouco por todo o lado. Algumas dessas obras ganham mesmo um estatuto de culto e sobrevivem no tempo, acompanhadas de estatísticas demonstrativas do sucesso. Gasolina – Daddy Yankee (2004) é um exemplo de uma música marcante que ainda hoje é muito ouvida, recordada e discutida. Esta canção, muito bem sucedida nos tops de música desse ano, é considerada como a primeira chegada do reggaeton ao mainstream. Também não pode ser esquecido um dos maiores fenómenos musicais dos últimos tempos, Despacito – Luis Fonsi e Daddy Yankee (2017). O videoclip desta canção foi durante algum tempo o vídeo mais visualizado de sempre no YouTube, é a 30ª música mais tocada da década no Spotify e teve direito a um remix com a participação de Justin Bieber. Se Gasolina foi uma primeira chegada do género ao mainstream, Despacito catapultou o reggaeton para um novo patamar e deixou claro que este já não se limita ao underground.

Daddy Yankee e Luis Fonsi no videoclip do fenómeno musical Despacito (2017)

O reggaeton mais limpo

O reggaeton, como género musical vivo e bem sucedido, está a sofrer mutações. Um crescimento na popularidade de um género normalmente impõe restrições ao formato e às mensagens dos conteúdos. No caso do reggaeton, essas mutações sentem-se muito ao nível do estilo visual dos artistas, mas acima de tudo no conteúdo das letras. O reggaeton, numa fase inicial, adotou um estilo urbano muito bem delineado, em que temas mais violentos, sexuais e misóginos eram recorrentes. No entanto, com o seu crescimento, tem-se assistido a uma suavização na abordagem destes temas, sendo menos explícitos ou até esquecidos. O teor sexual, por exemplo, não se perdeu, mas é agora apresentado de forma mais subtil e menos polémica, num claro sinal de adaptação aos tempos. A chegada do género ao mainstream contribuiu claramente para um maior cuidado e estilização do reggaeton. Não se pode esquecer que este estilo musical garante a subsistência de muitos artistas, e por isso estes procuram adaptar-se à atualidade e à tendência de evitar potenciais polémicas, muito comuns em redes sociais. No fundo, o reggaeton está a acompanhar a evolução da sociedade, em que muitos hábitos outrora comuns também deixaram de ser aceites e se tornaram até bastante julgados e criticados.

J Balvin, uma das principais figuras do reggaeton e da música na atualidade

O aparecimento de movimentos políticos

Uma coisa parece certa, a visibilidade do reggaeton está a ser aproveitada por muitos artistas para criarem sub géneros ou novos movimentos musicais que permitam transmitir mensagens com impacto social e político. O reggaeton feminista é um desses fenómenos, em que muitas artistas procuram contrariar a tradicional predisposição misógina do género. As letras das canções ganham muita importância para esta mudança de paradigma e o papel da mulher nas mesmas altera-se (geralmente em relações sexuais). Ms Nina e o coletivo Tremenda Jauría são alguns artistas espanhóis que fazem parte deste movimento e que estão a procurar uma melhor representação feminina na música. As tradicionais objetificação e subjugação da mulher perante o homem são substituídas por momentos de libertação feminina, num movimento que mostra bem a evolução não só da própria música, mas também da sociedade e mentalidades dos dias de hoje.

Neste ano, Bad Bunny ,um dos artistas com mais sucesso a nível global da comunidade do reggaeton, começou a ser um aliado na causa LGBTQ+ e começou a falar, tanto nas suas músicas, como nas suas suas presenças públicas, de diversas causas feministas. Isto é especialmente importante na comunidade latina, onde existe ainda uma cultura machista e patriarcal, em que a heteronormatividade e os papéis tradicionais da mulher e do homem ainda estão muito enraizados.

(Bad Bunny usa uma T-Shirt em homenagem a uma mulher trans que foi assassinada em Porto Rico, quando atuou no programa americano The Tonight Show starring Jimmy Fallon)

Em abril de 2020, lançou o video da música Yo Perreo Sola. A letra, que foi considerado feminista, posiciona o cantor na perspetiva de uma mulher que quer dançar sozinha e está farta de atenção masculina que não pediu. No video, Bad Bunny aparece com roupas de mulher e uma aparência mais feminina. No fim deste, aparece ainda com adereços que são ligados ao BDSM. O vídeo acaba com a mensagem “Se ela não quer dançar contigo, respeita-a. Ela perrea (faz twerk) sozinha”. No entanto, esta mensagem final foi ofuscada pela controvérsia que se gerou na comunidade em volta do vídeo. Muitos questionaram como é que um homem heterossexual se pode comportar daquela maneira, associando ainda padrões de beleza mais femininos à comunidade LGBTQ.

Bad Bunny tem também uma forte ligação à política porto-riquenha, tendo mesmo interrompido a carreira musical durante algum tempo em 2019, para se dedicar ao ativismo. O artista chegou mesmo a participar em protestos que exigiam a demissão do governador porto-riquenho Ricardo Rosselló. O reggaeton já provou que, tal como muitos géneros musicais, pode ter um impacto muito mais profundo que o simples prazer na audição e não parecem existir sinais de um abrandamento nestes fenómenos.

(Foto de Eric Rojas) Bad Bunny em protestos no Porto Rico

Sons do Orgulho Latino

O reggaeton é hoje um motivo de orgulho das comunidades latinas. A globalização e popularidade do género fizeram com que a cultura destes povos fosse partilhada com todo o mundo. Um bom exemplo dessa partilha foi o espetáculo do intervalo da 54ª edição do Super Bowl, em que foi feita uma celebração da música e cultura latina. Nessa celebração, J Balvin e Bad Bunny juntaram-se aos astros da música, Shakira e Jennifer Lopez e levaram um pouco de reggaeton a todo o mundo. Numa época em que as comunidades latinas passam por muitas dificuldades nos Estados Unidos da América e não só, momentos como o do intervalo do Super Bowl são vistos como importantes celebrações culturais e manifestações políticas. E é justamente aí que o fenómeno de popularidade do reggaeton é uma vitória e um motivo de orgulho para estas comunidades. Contudo, o estilo musical ainda enfrenta muita adversidade, e o melhor exemplo disso é a intenção de Jonatan Tamayo Pérez, um dos senadores da Colômbia, de censurar algumas canções de reggaeton, devido ao conteúdo das letras. Esta proposta pretende a proibição de ouvir ou interpretar em espaços públicos as músicas consideradas ofensivas a abusivas . Ainda não é certo qual vai ser o desfecho desta proposta, mas não existem dúvidas de que, apesar de tudo o que já conquistou, o reggaeton ainda enfrenta muita adversidade, até mesmo na simples partilha de uma nova cultura com outros povos.

Se quiseres conhecer mais sobre o reggaeton, aqui fica a playlist completa.

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