Marília Moledo: um bocadinho de tudo

Marília sempre foi desigual. Seguir os rebanhos sociais que as modas ou que os tempos impõem não é para ela. De cabelo alaranjado, olhos verdes e sorriso esboçado num batom vermelho, Marília sabe, no entanto, que o desvio do padrão comum é muitas vezes incompreendido pelos demais. Mas é fiel à crença de que construir um mundo de iguais tira ao mundo a sua melhor característica: a pluralidade.

Entrou para Direito porque sim. Não havia uma demarcada convicção nessa decisão. Tão pouco havia uma intrínseca vocação naquela área de estudos. Foi porque sim. Havia todo um conjunto de licenciaturas pelas quais poderia ter enveredado. Não havia, no entanto, qualquer pretensão em sair especialista de uma delas. Marília gostava de poder ser, acima de tudo, uma especialista em generalidades. Mas o sistema não o permite.

O ensino superior está instituído e difundido de tal forma em Portugal que todos os alunos, melhores ou piores, mais espertos ou menos espertos, são motivados a integrá-lo. Quase que socialmente impostos, até. Não tendo bem a certeza de que aquele seria o rumo certo para a sua vida, sentiu-se rendida às expectativas sociais e entrou em Direito na Universidade do Minho.

Marília Moledo, hoje, com 26 anos, nos Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian
Marília Moledo, hoje, com 26 anos, nos Jardins da Fundação Calouste Gulbenkian

A Universidade do Minho, assim como todas as universidades públicas em Portugal, assume, através dos seus estudantes, uma cultura praxística fortemente instituída.

Originária na Universidade de Coimbra, pelo menos, desde a década de 1870, a Praxe refere-se às relações sociais hierárquicas da comunicade estudantil universitária. O código da praxe entende, então, que o novato – caloiro – deve respeito ao vetenaro – doutor – por este ser parte integrante daquela instituição há mais tempo.

Mais de 100 anos depois, a praxe está difundida por todas as instituições públicas e privadas de ensino superior.

Fica-se de quatro. Enche-se bastante. Não se olha de frente. Berra-se as músicas do curso. Satisfaz-se a vontade dos doutores.

Alguns defendem-na fortemente; uma minoria contesta-a; a grande maioria consente. Esta questão continua a dividir opiniões em Portugal. Há quem considere que são rituais de iniciação. E quem fale de atentados à dignidade.

Marília sabia que a Universidade do Minho não era excepção. Não gostava da praxe e sabia que fazia parte de uma minoria pouco representativa. Ao que todos chamavam integração, para Marília era apenas humilhação. Rapidamente sentiu que estava perante uma guerra difícil de combater. Mas, ainda assim, integrar o rebanho de capas pretas não era uma opção.

A desmotivação estava presente. Marília estava fora do rebanho; era contra os seus ideias acompanhá-lo e concordar com ele. Não percebia como é que futuros advogados, magistrados, juízes, não conheciam outra forma de pensar senão aquela; a que todos pensavam. Não questionavam o sistema. Toleravam-no sem transgressão.

Seria essa a derradeira realidade de um status quo profissional? Seria o mesmo em todo o lado? Seremos todos marionetas obedientes a um sistema meticulosamente montado?

A juntar à desilusão que sentia em relação aos colegas, havia o mau-estar generalizado naquele curso e naquela instituição. O que supostamente a faria integrar-se, revelou-se no seu principal entrave. E apesar das boas notas conseguidas, não havia ali nada que a prendesse. Se ser formada em Direito nunca foi algo que ambicionasse assim tanto, muito menos encontrou condições para se apaixonar pela profissão.

Durante todo este tempo, houve apenas um sítio onde se sentiu em casa: o Teatro. Tendo iniciado formação em teatro por altura do secundário, Marília sabia que ali acolhiam os outsiders, como ela. Era, no fundo, um espaço onde as pessoas se limitavam a ser quem realmente são. Esta realidade – a do teatro – contrastava com a da faculdade; cada uma em seu pólo. Nada tinham a ver uma com a outra. Enquanto o Teatro lhe dava liberdade, a faculdade fazia-a sentir presa a um regime, a um ideal social.

Sem querer, o Teatro revelou-se o antídoto de tudo aquilo. Um porto seguro. Lá, cabia toda a ânsia, raiva, frustração que carregava consigo. Lá, neutralizava os sentimentos e renovava-se para mais uma semana de aulas.

Marília, com a companhia de Teatro “Só Cenas”, no elenco da peça “Plim”
Marília, com a companhia de Teatro “Só Cenas”, no elenco da peça “Plim”

Com o terceiro ano, vieram as aulas práticas. O tempo começou a escassear e Marília deixou de frequentar as aulas de teatro com tanta regularidade. Aí, os sentimentos clarificaram-se. Tinha a certeza de que não queria exercer direito. Tinha a certeza de que a sua decisão não tinha sido feliz. A certeza de que aquele não era um ambiente saudável para se estar. A certeza de que estar ali a fazia infeliz.

Abandonou, então, o curso de Direito no seu último ano. Não se arrepende nada de o ter feito. Entretanto, voltou a ter tempo para o Teatro e diz que desde então se tornou muito mais feliz.

Atualmente, Marília encontra-se a frequentar o curso de Ciências Musicais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Mas assim como nesse, podia estar em Culinária. O Teatro, esse, nunca pensa abandonar. Dá aulas aos outsiders mais novos na escola onde se formou. Mais do que uma paixão, diz que é uma forma de estar na vida. Admite não saber o que o futuro lhe reserva. Mas que vai à descoberta do mundo, isso de certeza.

“Descobri montes de dimensões na vida e gosto da minha vida assim, dispersa. Está exatamente como eu quero: um bocadinho de tudo e não muito de uma coisa só. Quero tirar um curso por uma questão de pressão social, eu admito. Mas é só isso. E depois fazer outra coisa qualquer. Ir morar para Goa ou algo assim; não faço ideia. Logo veremos.”

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