Maria do Rosário: A Vida num Azulejo

Por Beatriz Cardoso Ferreira, Inês Isabel Pereira e Mariana Martins

Num pequeno atelier com vista para o Tejo, no alto da Ajuda, Maria do Rosário tem pouco espaço para se movimentar. As paredes revestem-se de materiais de barro e porcelana, que acompanham a artista enquanto dá forma à sua criatividade. Maria do Rosário tem 69 anos e não gosta de estar parada: coisa de família.

O seu pai e a sua mãe revolucionaram o Cartaxo, terra onde aprendeu a pintar. Em pequena, a mãe só a deixava pintar aguarelas ou guaches e, quando tinham visitas, era Maria do Rosário que desenhava as ementas. No Natal fazia as figuras em barro para o presépio e pintava com as tintas de óleo sobre quadrados de madeira que arranjava para ter figuras de presépio diferentes. “Sempre tudo sozinha, sem grande técnica. A minha mãe achava que eu devia ter liberdade, tinha tempo de aprender.”

Maria do Rosário ainda faz Presépios.Maria do Rosário ainda faz Presépios.

A arte corria no sangue da família. Bisneta do artista Pereira Cão, cresceu entre o canto lírico da avó e as pinturas do avô. De pequenina, a mãe riscava os móveis a fazer desenhos e, mais tarde, começou a dar aulas de piano, canto, decoração, pintura e escultura e ensaiava peças de teatro. “Eu nasci nesse ambiente”.

Maria decidiu-se pelo Direito em vez das Artes. “As Belas Artes eram um meio muito pouco adequado a uma menina de boas famílias, que era o que eu era.” Gostava de química, mas não de matemática e a física tinha regras muito rígidas. Com jeito para falar e para argumentar, e apaixonada por um filme do Paul Newman, onde ele fazia de advogado, escolheu Direito. Casou aos 18 anos e teve o primeiro filho um ano depois. Ser mulher, esposa e mãe, com a ambição de ter uma carreira, trouxe-lhe dissabores. O exame oral de Direito, em época especial, levou-a em lágrimas a desistir da advocacia.

“Via as minhas antigas colegas ainda a estudar ou já a trabalhar e eu feita estúpida só a tratar de fraldas. Adorei ser mãe, mas fazia-me falta fazer mais.” Como sempre foi despachada, não se resignou. Aos 22 anos fez um curso de locução na Emissora Nacional com professores que a valorizaram. “Descobri que era bonita, inteligente e divertida.” Com uma voz agradável, fresca e cristalina, foi convidada a entrar para os quadros da Emissora Nacional. Pressionada pela família, teve de recusar. “Rádio e televisão eram um mundo que para a classe burguesa não era bem visto.”

Entrou para o curso de História na Faculdade de Letras e foi trabalhar para o Gabinete de Imprensa do Ministério da Educação. Estudava à noite em casa e, como não conseguia ir às aulas, comprava livros e tinha uma colega que lhe dava apontamentos. “Fui fazendo as cadeiras e os meus filhos foram crescendo.” Concorreu para uma bolsa de especialização em Arquivos. “Não havia arquivos em Portugal, só a Torre do Tombo, que era um aglomerado de papéis”. No meio de 400 candidaturas e 14 bolsas, foi uma das escolhidas.

Rumou para Madrid e foi a primeira aluna portuguesa na Biblioteca Nacional, na capital que lhe abriu os horizontes. “Perguntavam-me se era italiana, porque as pessoas achavam que as portuguesas eram baixinhas e gordinhas, e eu era jeitosa.” De visita a Portugal, divorciou-se após o 25 de Abril. O fulgor da independência do tempo foi uma porta aberta para o mundo. “Fartei-me de viajar, vi o mundo inteiro. Só não fui a África.” Foi convidada a gerir o arquivo histórico da Câmara Municipal de Lisboa. Fez trabalhos pioneiros no arquivo e investigação. Aí ficou até à reforma.

Habituada a viver no meio de coisas bonitas, Maria regressou às raízes. Quando não tinha nada para fazer, pegava em tudo o que tinha em casa e desenhava. “Achei que o pincel deslizava bem e, entretanto, comprei uma mufla.” O primeiro passo para moldar a sua arte estava dado. Procurou formação em vidrados, porcelana, roda e moldagem, e formou o seu atelier.

Para quem o mundo é uma janela aberta para a beleza, o olhar de Maria não tem limites. “Eu recuso-me a fazer um Santo António como as outras pessoas todas fazem, com o menino ao colo e um livro. Se ele era boa pessoa, também gostava de flores, de peixes, de macacos. Tenho um Santo António com um macaco às costas.”

Os azulejos, que ao refletir o sol fazem da luz de Lisboa diferente, são também uma das suas artes e das mais rentáveis. A paixão pela cidade é oferecida a quem compra. As feiras, manancial de cultura e “gente interessante” com quem Maria aprende imenso, são o local deste encontro. “Apesar de ter nascido num berço não de ouro mas dourado, não me ia fazer mal nenhum ser feirante.”

Maria depende agora só de si.

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