Loïc Foulon: Largar o porto e embarcar

Por Cristiana Borges, Maria João Monteiro, Rita Neves Costa

O pai disse-lhe que iria trabalhar pouco, que iria ser só diversão. Loïc Foulon e a irmã, ouviam atentamente. “Aderimos logo, não tendo noção de todo o procedimento, dos perigos e acidentes que implicaria”. Os próximos anos seriam passados dentro de um barco, com o objetivo de viajar em família, descobrir o mar e conhecer novos países e culturas.

De 2005 a 2010, com algumas interrupções, a família Foulon trocou a sua casa, no pacato Alentejo, pelo Tatajuba, um barco de 51 pés (15,54 metros de comprimento), batizado com o nome de uma vila submersa em Fortaleza, Brasil. A embarcação, na sua capacidade máxima, com tripulação, pertences e mantimentos, podia alcançar as 15 toneladas. O mastro tinha aproximadamente 18 metros. Nada faltava a esta casa. Havia três quartos, duas casas de banho, sala de estar e cozinha.

Viajar de barco implicava ajustes aos hábitos básicos, como usar um champô específico para o mar, de forma a poupar água doce. O dessalinizador era o melhor amigo dos Foulon, pois permitia filtrar a água salgada, usada posteriormente para a higiene diária e para o consumo. Por vezes, era necessário repor os minerais perdidos na filtragem, através da ingestão de água engarrafada. A luz era obtida por via de baterias, geradores, e do próprio motor do barco.

O pai de Loïc, Eric Foulon, conviveu desde criança com o gosto pelo mar. Costumava fazer pequenas viagens de barco com os amigos da família durante o verão. A vontade de largar as amarras ganhou uma outra dimensão com o passar dos anos. Foi uma questão de tempo até convencer a sua própria família a concretizar o seu sonho.

Era hábito, nos tempos que antecederam a viagem, haver uma votação ao jantar para ver quem queria fazer a viagem. Löic e o pai levantavam o braço imediatamente, a irmã, Clarisse, hesitava de início, mas ficava convencida depois de relembradas as vantagens. Já o receio da mãe, Sophie, foi desaparecendo com a preparação para a viagem.

A 13 de setembro de 2005, com 10 anos, Loïc partia na primeira aventura no mar. No cais de Lagos, estavam os avós paternos e maternos, para dizer o “até já”. O receio face ao desconhecido era inevitável. “Senti medo, mas confiava bastante no meu pai. Sabia que estava seguro”, recorda.

Uma década passou desde o primeiro capítulo desta história. Chegar a terra no Tatajuba significou uma vitória, que o diário de bordo ajuda a reconstruir.

O dia começava cedo. A rebentação das ondas no casco da embarcação servia de despertador à família. Depois de tomar o pequeno-almoço, Loïc e Clarisse dedicavam-se a cinco horas de estudo, através de um sistema de ensino por correspondência francês. Não havia professor, salas de aula ou corredores apinhados de alunos. “Fazíamos o nosso plano de estudo, só precisávamos de respeitar as entregas dos testes por correio”, conta o jovem.

O Centro Nacional de Educação à Distância (CNED) enviava, depois, as notas e observações por e-mail relativamente ao desempenho dos irmãos. Os “livros especiais” do CNED substituíam o docente, indicando tópicos a abordar e exercícios a fazer. A autonomia e a responsabilidade passavam por estudar sem ver as soluções, caraterísticas que ficaram com o jovem até hoje. “Hoje em dia continuo a apreciar mais ler os livros do que ir às aulas teóricas”, diz.

Filho de pais franceses, Loïc veio para Portugal com menos de um ano, no seguimento de uma proposta de trabalho feita ao pai, que viria a gerir um Intermarché. De terras lusas, pouco conheciam. Só a Praia do Guincho, em Cascais, era uma referência. Eric Foulon costumava deslocar-se até lá para praticar windsurf nas férias.

A língua portuguesa começou a fazer parte do dia-a-dia do jovem. Falava francês em casa, mas escrever no idioma materno não era habitual. Esta foi a maior dificuldade do ensino à distância. Gostar do sistema não bastava, tinha de compreender e interpretar textos escritos numa língua com que nunca tinha estudado.

A tarde estava reservada à diversão. Viver rodeado pelo mar significava ter outras possibilidades de hobbies que a maioria das pessoas só tem oportunidade de praticar ocasionalmente. Pesca, mergulho, kayaking, windsurf e banhos de sol constituíam o quotidiano da família. Quando atracavam em determinada cidade, aproveitavam para visitá-la e fazer compras. Durante as travessias, o tempo era passado a ler livros, a jogar e a ver filmes como forma de distração. “Tentávamos não pensar no enjoo constante quando o mar estava mais agitado”, diz Loïc. E acrescenta, “foram muitas as vezes em que se «alimentou os peixinhos»”.

Mas as indisposições não eram a principal preocupação. A habilidade nas manobras para as travessias e para a ancoragem era um ponto essencial que garantia a estabilidade do barco e a segurança da família. Houve momentos de susto que só o sangue frio do capitão e o trabalho em equipa podiam superar.

Na totalidade, existiram três momentos de viagem. Em 2006, regressaram a Portugal devido ao término do percurso, organizado por uma empresa francesa. A aventura recomeçou em 2008, para durar apenas um ano. Razões profissionais ditaram mais uma interrupção. Durante 2010, realizou-se a última viagem.

França, Espanha, Portugal, Cabo Verde, Senegal, Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Holanda, Colômbia, Panamá, Guatemala, Equador, Chile. Foram estes os destinos assinalados no mapa. “Não é possível dizer algum sítio que gostasse mais ou menos, todos foram diferentes e especiais”, reconhece Loïc. As viagens no mar não bastavam. O avião e a caravana eram outros meios para chegar onde o barco não conseguia. Em alguns anos, as épocas festivas, como o Natal e o Ano Novo, significavam também uma pausa na aventura da tripulação Foulon.

Percorrer todos estes países permitiu à família cruzar-se com gentes e culturas distintas, mas a receção era sempre positiva. Nos lugares mais isolados, as pessoas revelavam-se mais acessíveis e acolhedoras. “Ficavam felizes por terem visitas”, conta. Exemplo disso foram as Ilhas Pitcairn, na Polinésia Francesa, com apenas 56 habitantes e um cargueiro que os abastece duas vezes por ano.

Da camaradagem dos companheiros de viagem à simpatia dos residentes, ficou a família Magnard e o barco Bamako, a família Bourgnon e o barco Jumbo e o pescador que vivia com a família na Polinésia Francesa. Loïc recorda: “Quase nos mandou embora, mas acabámos por ser amigos e até fizemos um churrasco juntos”.

Os números e as estatísticas não fazem o sucesso da viagem. Porém, basta relembrá-los para perceber que este foi o momento mais inesquecível da vida de Löic.

Deseja voltar a fazer o mesmo, desta vez com a futura família. Trasmitir aos filhos os ensinamentos do mar. Soltar as amarras da zona de conforto foi o propósito de Tatajuba: largar o porto e embarcar.

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