Lisboa às Escuras: Quem são as luzes de presença que a iluminam?

Sol posto e Lisboa adormecida. A capital não é feita apenas de matéria diurna e André, Jorge, Luís, Benedito e João comprovam isso mesmo. O trabalho marcado pela escuridão da noite, que se deixa iluminar pela luz dos candeeiros de rua da cidade, e as horas da madrugada, são o que mais aproximam um condutor da TVDE, um bartender, dois cantoneiros de limpeza e um padeiro. Estes protagonistas retratam o trabalho de muitos outros que garantem o ritmo da capital mesmo quando a maioria dos lisboetas está a dormir.

André ao volante e atrás da camara

André Militão, natural de Brasília, no Brasil, faz da capital lisboeta sua casa há cerca de 30 anos. O sotaque é limado e já um pouco envergonhado. As histórias que tem para contar sobre as viagens que fez enquanto motorista TVDE são incontáveis. André é editor de vídeo, mas, com a pandemia, e por trabalhar como freelancer, aquilo que tinha um retorno financeiro mais rápido era o de ser motorista para a empresa Uber: “Não é o meu trabalho de sonho, mas tem sido uma boa experiência”, confessa num tom animado, até porque lidar e falar com pessoas é do que mais gosta. Mas André soube, rápida e facilmente, juntar o útil ao agradável. Tem uma conta no Instagram, @lisbonfrommycar, onde partilha fotografias que tira da cidade de Lisboa, nas horas vagas, dentro do seu carro.

Reforça ainda que o facto de ser freelancer numa altura em que as empresas se viram obrigadas a fechar portas não ajudou a sua carreira. A TVDE foi a resposta em tempos cheios de perguntas e incertezas. Mas percebeu que a capital podia ser a sua musa, era a melhor modelo para fotografar: “Quieta, não reclama, deixa-se fotografar”, rindo ainda salienta “depois de tirada a fotografia não pergunta se ficou bem”. Diz que a luz da cidade tem um toque especial – as calçadas juntamente com os mármores dos edifícios permitem criar sombras e texturas únicas, como uma fonte inesgotável de fotografias.

O motorista menciona que a mesma fotografia tirada de dia e de noite têm significados absolutamente distintos, mais que não seja por não existirem tantas sombras durante a noite. No entanto, e aludindo ao dito “Lisboa menina e moça”, André sente Lisboa, de dia, como uma menina, frágil e inocente, que se esconde entre os seus becos e travessas, mas, quando entra a noite, “torna-se moça”: deixa cair o véu e revela traços atrevidos nas ruas baixas da cidade.

“Não gosto de trabalhar à noite” – revela. “De noite, quando as pessoas saem dos bares, as tarifas são dinâmicas e nós costumamos ganhar um pouco mais de dinheiro, mas é perigoso. Nem sempre compensa”. A noite é palco de histórias burlescas, com álcool e euforia à mistura e, talvez por isso, André prefira as viagens diurnas, apesar destas também não estarem isentas de histórias caricatas. É um conversador nato, mas, por vezes, a paciência para conversas inusitadas é pouca. Enquanto desce a Avenida da Liberdade, recorda momentos que puxam a gargalhada e outros mais nefastos.

“Até hoje não entendi porque é que aquilo aconteceu”, conta com um tom mais retraído. Numa viagem, após ter comentado a estrada em mau estado, à saída do IC19, o passageiro riposta “pois, no seu país deve ter ruas muito melhores” e daí parte para um discurso xenófobo. André ficou visivelmente incomodado ao contar o episódio. “Este foi o meu chocolate amargo e foi realmente amargo”.

A viagem termina com um “chocolate bem mais doce” com o motorista a recordar histórias de amor – e simultaneamente de desamor – a que teve a oportunidade de assistir. “Fui buscar um casal à rua dos Fanqueiros para irem para o Aeroporto”. Entrementes, compraram um voo para a senhora também, durante a viagem. “Estava tudo bem, até que o senhor lhe trocou o nome”, confidencia.

Deu-se a discussão, só um é que embarcou. O outro voltou para a rua dos Fanqueiros.

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Reza o provérbio que “a descer todos os santos ajudam”. É na noite de Lisboa que a sabedoria popular mais do que se comprova. Assim que o jantar termina e o tilintar dos talheres cessa, as ruas bem inclinadas, como é típico na baixa lisboeta, vão empurrando turistas e residentes na busca de um bom sarau até à boémia do Cais do Sodré. A Rua do Alecrim é uma dessas ruas. Quanto mais a descemos, maior a probabilidade de encontrarmos nas ruelas, travessas e becos um bom sítio, com boa música e boa bebida para passar o resto da noite.

“Durante o dia, há muitas pessoas fora. Com o bom tempo as pessoas vão para a Ericeira, para a Costa da Caparica, procuram praia durante o dia. À noite, voltam”, conta Leonardo Oliveira, gerente do bar “O Bom, o Mau e o Vilão”.

O bar que gere desde 2019 fica a meio da Rua do Alecrim, entre outros bares, discotecas e restaurantes. Trabalha na noite do Cais do Sodré desde 2012 e garante que no “O Bom, o Mau e o Vilão” é “tudo mais calmo. O tipo de cliente é outro. O tempo é outro”. Recorda alguns clientes de sorriso na cara: “No outro dia, tínhamos aqui um cliente com quase dois metros de altura, estava super contente com a música que o DJ estava a passar, e a pista era dele, já ninguém dançava ao pé dele, e ele estava todo transpirado”.

Fotografia: Madalena Parafitas

Fotografia: Madalena Parafitas

Jorge Santos guarda o balcão deste bar. Dá indicações à equipa, ensina os empregados novatos e cria também cocktails. Já há vários anos que é bartender, trabalhou do centro ao sul do país e sabe por experiência própria que nem todas as noites são iguais. Dependem da hora, do estabelecimento e até da localização geográfica. “Em Castelo Branco, como é uma cidade pequena, mais local, toda a gente se conhece, toda a gente vai aos mesmos sítios. No Algarve, nós nem gostávamos de sair à noite. É mais só estrangeiros. Nós esperávamos até novembro para podermos sair à noite. Em Lisboa, parece que já é mais equilibrado, tens [noite] para todo o tipo de pessoas”, revela.

A noite ainda nem vai a meio… Pouco passa das 22h e Jorge já começou num frenesim para preparar as bebidas de quem chega. Embora o ambiente seja de descontração e diversão, Jorge tenta ter prudência. “As pessoas estão a beber álcool que é uma espécie de medicamente, embora, ingerido em demasia, faça mal. Se tomas só uma pequena dose, estás divertido. Então, acabo por ser uma espécie de farmacêutico, a administrar a dose certa para aquela pessoa. Nós também não queremos estar aqui a faturar e as pessoas estarem todas bêbadas a partir a loiça e a saltar para os sofás”.

Ser farmacêutico não é a única profissão que se mistura com a de bartender. Jorge corrobora a ideia de que também os profissionais da sua área são os melhores psicólogos – “É psicologia, sim, algumas pessoas vêm cá e desabafam. Acabas por ser também educador de infância dos adultos. Tem um pouco de tudo. É muito emocional a noite”, afirma.

Fotografia: Madalena Parafitas

Leonardo descreve o seu trabalho como sendo “imprevisível” e Jorge acha que “nunca é aborrecido”. Peripécias para contar não faltam: “Desde lutas, a fins de amizade… pessoas que quase morreram por acidentes estúpidos! Por exemplo, trabalhava num bar que tinha uma porta de vidro com três metros. Já estávamos fechados quando veio um inglês acelerado contra a porta fechada e começam a cair cacos de vidro… hoje, acontece outra”, conta Jorge ansioso por mais uma noite de trabalho. Lisboa nunca adormece realmente. Para quem trabalha na manhã seguinte poderá já ser tarde, mas ainda é cedo para aqueles que servem bebidas, conduzem táxis, recolhem o lixo ou fazem o pão. A noite guarda muita coisa e existem mais histórias para contar.

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À vigésima terceira badalada, a capital veste-se de preto. Numa noite de maio, não muito distinta de outras tantas, o cenário que saúda Luís Jesus de 31 anos e Benedito Oliveira de 35 anos, é o Departamento de Higiene Urbana e Resíduos Sólidos da Câmara Municipal de Lisboa. São uma das treze duplas encarregadas da recolha noturna do lixo no centro histórico lisboeta.

A verdadeira designação para quem trabalha neste ofício não é “senhores do lixo” como se dita na gíria, mas sim “cantoneiros de limpeza”, esclarece Nuno Bernardo, coordenador do departamento.


Juntamente com a encarregada pela formação das equipas e atribuição de circuitos, Maria Monteiro, gerem esta força de trabalhadores e para ambos as suas responsabilidades não se cingem ao acompanhamento profissional. O trabalho dos cantoneiros, física e emocionalmente desgastante, requer a manutenção de um ambiente saudável e o cultivo do sentimento de comunidade. Aos olhos de Nuno, a infalível boa disposição de “Dona” Maria, apelidada assim por todos, é um dos pilares que sustentam os ânimos na Divisão da Baixa: “Eu costumo dizer que, assim que eles entram por aquela porta, já sei se vêm chateados de casa ou não” – ri “Dona” Maria.

Fotografia: Madalena Parafitas

Maria Monteiro

Fotografia: Madalena Parafitas

Nuno Bernardo

Fotografia: Madalena Parafitas

O trabalho dos cantoneiros, física e emocionalmente desgastante, requer a manutenção de um ambiente saudável e o cultivo do sentimento de comunidade. Aos olhos de Nuno, a infalível boa disposição de Maria Monteiro é um dos pilares que sustentam os ânimos na Divisão da Baixa: “Eu costumo dizer que, assim que eles entram por aquela porta, já sei se vêm chateados de casa ou não”, ri Dona Maria.

Localizada no Cais do Sodré, esta Divisão de cantoneiros cobre sete percursos noturnos. Todas as noites, esperam recolher entre sessenta e setenta toneladas de lixo no centro histórico da capital. O camião em que Luís e Benedito entram está preparado para recolher entre dez e doze toneladas de lixo indiferenciado, que, como explica Nuno Bernardo, nesta zona da cidade, se deve, maioritariamente, “ao comércio turístico associado à restauração e à hotelaria”. 

Partem pouco depois das onze da noite. A primeira paragem da noite é à frente da Câmara Municipal. Atravessarão a Baixa-Chiado, o Cais do Sodré e o Martim Moniz. O turno de Luís e Benedito só terminará pelas cinco da manhã – “É um trabalho pesado”, conta Benedito Oliveira. “Exige rotinas, descanso e uma boa alimentação”, acrescenta Luís Jesus, e ressalva que um olhar atento é crucial neste ofício. Nas próximas horas, correrão pelas ruas, por vezes caracteristicamente estreitas, descarregando sacos e caixotes pesados para o camião. Trabalham mecanicamente, com a velocidade e destreza que a prática afina, sob o resguardo da noite. O paradoxo do seu trabalho é que, se for bem feito, ninguém dá por ele.

Luís Jesus confessa que prefere o turno da noite ao do dia, mas que conforme as temperaturas sobem, menos se distinguem. “A cidade vive especialmente no verão. Não se nota tanta diferença do dia para a noite”. Os cantoneiros contam que sextas e sábados são os dias mais difíceis da semana por acarretarem mais trânsito e mais lixo. Na visão de Benedito, Lisboa não é tão glamorosa como as canções em seu nome: “Vejo pessoas a atirar lixo para o chão, o que dificulta bastante o nosso trabalho. Eu acho que [Lisboa] é [uma cidade] suja.” Neste aspeto, Luís é um pouco mais benevolente: “É uma cidade que requer um esforço significativo para corresponder às suas exigências”.

O pior pagamento desta profissão não é o monetário, é a falta de apreciação social que recebem.

“É um trabalho pouco reconhecido pela sociedade”, afirma Benedito, com alguma tristeza, apesar de considerar que as gerações mais novas nutrem maior apreciação pelo trabalho dos cantoneiros: “Dão valor à reciclagem”. Luís partilha dessa opinião, mas discorda do colega sobre em quem atribuir a responsabilidade: “As gerações mais antigas eram mais cuidadosas com o pessoal operacional [e com] o seu esforço. As gerações mais novas não valorizam o nosso serviço, hoje em dia”. 

O trabalho de um cantoneiro é árduo, mas o seu apelo à sociedade é simples. É o quarto ‘R’ da Sustentabilidade: Respeito. “Respeito ao pessoal operacional, que está a prestar um serviço à sociedade. Mais cidadania”, pede Luís. “E respeito pelo lixo”, acrescenta Benedito: “É preciso respeitar o lixo”.

pd

Nas horas da madrugada, o fumo que sai da chaminé da casa número 14 é a única prova de vida. Esta casa de fachadas azuis claras na Avenida dos Combatentes, aldeia de Casais da Serra, é habitada por João Alexandre, de 38 anos. É, também, uma padaria. Ainda que localizada no concelho de Mafra, o pão que nela é feito, não só pelas mãos de João Alexandre, mas também do pai e do irmão mais novo, não é pão de Mafra, mas pão saloio: “Se fosse pão de Mafra, era pão de mistura, que leva trigo e centeio. Nós fazemos pão saloio.  Só trabalhamos com farinha de trigo”, explica João.

Confecionado segundo uma receita tradicional, este pão é calórico e inadequado para quem é intolerante ao glúten. “Nós fazíamos a nossa própria farinha. Mas deixou de compensar. Portugal deixou de produzir trigo e o preço disparou. Agora, [o trigo] vem da Ucrânia, Rússia, Estados Unidos, França”.

João continua a seguir as diretrizes que o avô, moleiro de ofício, lhe deixou. São as mesmas há 50 anos.

Para a família de padeiros, é verdade o ditado popular: “o trabalho do menino é pouco, mas quem o perde é louco”: “Nós [João e irmão Miguel] nascemos no meio, desde sempre ajudámos a fazer alguma coisa”. João tinha 12 anos quando entrou, pela primeira vez, na padaria para trabalhar. Desde então, dela só sai para ir “fazer a volta” na região: “Na primeira fase da volta, faço lojas, cafés e restaurantes. Depois, é que vou fazer o ‘porta a porta’”. É nesta tradição de ir a casa das pessoas deixar o pão que o trabalho de João se torna ainda mais prazeroso, uma vez que permite aos mais velhos, que vivem maioritariamente sozinhos, não só receber pão fresco, como também ter “dois dedos” de conversa, todas as manhãs. Além destes, a padaria serve, ainda, alguns pontos de venda da cidade de Lisboa, por exemplo, em Olaias ou em São Bento. Já por altura do carnaval, é de Torres Vedras que chegam, nas primeiras horas da madrugada, os foliões, que esperam, ansiosamente, o pão com chouriço.

Fotografia: Madalena Parafitas

Fotografia: Madalena Parafitas

Para a maioria das pessoas um horário das três às doze poderá causar estranheza, mas não para João, que demonstra tamanha naturalidade ao falar sobre isso – “Apenas fazemos a vida mais ou menos ao contrário das outras pessoas, mas não é assim tão mau trabalhar à noite. Como não fazemos rotativos é melhor”. Na vida de João, trabalhar de noite é só mais um dia. 

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Dita-se que o sol nasce para todos, mas nem para todos esse nascer significa o início do dia. É ao primeiro rasgo de luz que adormecem André, Jorge, Luís, Benedito, João e tantos outros, embalados pelo som do tumulto diurno de quem vai para o emprego ou para a escola. Vão dormir descansados, na certeza de que os lisboetas acordaram com o lixo recolhido, o pão distribuído e seguros para contar as aventuras da noite passada. Saem à rua e a cidade de Lisboa sorri-lhes, pronta para mais um dia de labuta.

Realizado por:

Salomé Rita

Salomé Rita

Madalena Parafitas

Madalena Parafitas

Patrícia Marques

Patrícia Marques

Joana Lopes Lourenço

Joana Lopes Lourenço

Mafalda Lisboa

Mafalda Lisboa

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