Leonor Grácias: a coser uma realidade à medida da ficção

Por: Ana Rita Paciência, João Marcelino e Rui Casanova

Veste-se como uma personagem real ou fictícia e interpreta-a para um determinado público. Carnaval? Não. Falamos de cosplay, a arte que se tornou mais que um passatempo para Leonor Grácias. Por entre terras de anime e corredores de heróis fantásticos, a jovem tornou uma paixão no seu estilo de vida.

É domingo de manhã. Os desenhos animados são assistidos pela pequena Leonor, no sofá da sua sala. No ecrã, passam os seus desenhos animados preferidos. A menina absorve o que vê, entretida. Vê-se, nos seus olhos, o despertar de uma paixão.

O interesse pela animação japonesa cresceu. Até que, em 2004, Leonor começa a pesquisar, no computador da escola, sobre os seus personagens de anime preferidos. Descobre vários fatinhos, entre os quais da Sakura, de Sakura a Caçadora de Cartas, e acha giro, mas pensa que são para o Carnaval. No entanto, rapidamente descobre que não é bem assim: existem eventos onde as pessoas se vestem como as suas personagens preferidas, e até concursos que julgam qual é o fato mais bem conseguido. Foi assim que foi apresentada a uma das suas maiores paixões, o cosplay, e, a partir daí, tudo mudou.

Num mundo onde as fronteiras entre ficção e realidade são muito ténues, Leonor Gracias é mestre. Hoje, é no Barreiro, em sua casa, que pensa e constrói todos os seus fatos, até aos mínimos detalhes. Tal dedicação já lhe valeu diversos prémios, entre os quais o primeiro lugar no World Cosplay Summit 2014.

 

“O meu primeiro fato foi Sakura Hime de Tsubasa Chronicles

Leonor lembra-se como se fosse ontem do seu primeiro evento de cosplay. “Comecei a falar com as minhas amigas e começámos a tentar decidir um evento que fosse fácil todas irmos, que foi o Animepop”, conta. Atualmente, o Animepop já não existe mas, naquela altura, era a associação que tratava de todos os eventos do género em Portugal.

Ela ainda era nova, tinha uns 15 ou 16 anos e, para além disso, morava em Azeitão, onde não havia transporte direto para Lisboa. Por isso, obviamente, teve de pedir autorização aos pais. “Então eles disseram: ‘Está bem, vamos até a casa da tua avó para fazer o fato, mas nós também queremos ir ver o que é isso’”. E foi assim que aconteceu. Leonor escolheu o fato que queria vestir e pediu à avó, que era costureira, para o fazer. “Foi um fatinho simples, handmade. Foi a minha avó que fez, eu nem sequer tive lá para explicar muito bem as coisas, eu dei-lhe as imagens e ela estava lá a fazer”, explica.

A escolha do fato foi igualmente simples. “Nessa altura, começou a sair Tsubasa Reservoir Chronicles que é das Clamp também, que tem uma Sakura e um Syaoran mais velhos que, em Sakura Caçadora de Cartas, são as mesmas personagens, mas em universos diferentes. Então, eu decidi deixar a Sakura pequenina e fazer uma Sakura mais velha. Por isso, o meu primeiro fato foi Sakura Hime de Tsubasa Chronicles.”

Assim, com o fato feito e o evento marcado no calendário, Leonor lá foi para o Oriente, onde teve uma experiência inesquecível. “Eu gostei muito do meu primeiro evento, porque até às duas da manhã tivemos karaoke; quer dizer, eu, uma miúda de 15 anos, que nunca fui de ir a discotecas nem a bares, até porque no sitio onde vivia não havia disso, eu não saía, não apanhava um autocarro, ficar num sitio em Lisboa até as 2 da manhã a cantar as minhas músicas favoritas, com pessoal que estava vestido como eu, para mim foi um encanto!” As saudades dessa época preenchem as suas palavras, até porque, confessa, hoje em dia tudo se tornou mais comercial.

E os pais dela também adoraram. “Foi alí numa pousada da Juventude no Oriente, é um sitio fechado, que tem segurança, e onde as pessoas que estavam lá eram só fãs. Havia 2 lojinhas, havia o bar e nem saíamos do recinto, estávamos sempre lá”, explica. “Os meus pais acharam isso super saudável, eu estar em cima do palco, conseguir conviver com outras pessoas, porque eu era muito tímida nessa altura, acharam imensa piada eu conseguir fazer isso tudo naquele espaço. Pelos meus pais verem que era uma coisa tão saudável é que me incentivaram a ir sempre a mais e a fazer mais fatos.”

Na sua opinião, esse incentivo é fundamental para um cosplayer, pois, “se os pais não querem saber eles acabam por desistir”. “Aliás, os cosplayers mais velhos que existem, nós chamamos os de topo, porque têm mais de 10 anos de experiência, só continuam no cosplay porque os pais sabem o que é, vão e contribuem”, acrescenta. E é a experiência pessoal de Leonor que o dita, pois já lhe aconteceu ficar “extremamente desmotivada”, mas depois ter a avó e os pais a incentivar-lhe a construir outro fato e a continuar. “E é esse incentivo que nos motiva a seguir”, afirma, convicta.

“O cosplay modificou muito a minha personalidade”

Por vezes surge a pergunta: O que é a Leonor Grácias e o que é a Leonor Grácias no cosplay? “Não existe uma nem outra”, diz Leonor. O cosplay está entranhado na sua vida. Desde 2004/2005 que existe uma continuação do seu trabalho, e nesse percurso são poucos os momentos que considera desassociarem-se da profissão. Talvez dentro da comunidade de cosplay tenha de ser um pouco diferente, devido à sua função como presidente.

Quando começou no cosplay, Leonor estava numa fase peculiar da sua vida. Tinha acabado de se mudar do Barreiro para Azeitão e isso trouxe uma série de implicações: uma turma diferente, amigos diferentes, o que a fez não sair muito de casa. Quando entrou no básico, no quinto ano, achava-se sempre diferente das outras pessoas, dos outros miúdos. Os colegas gostavam de pop, hip-pop, gostavam de filmes tipo Fast and Furious e Triple X. Ela também gostava, mas gostava mais de outro mundo. Foi aí que a sua paixão tomou pés e cabeça. Começou a ouvir música chinesa e japonesa, a idolatrar os atores e as atrizes chineses, porque os achava mesmo bonitos. Já gostava de animação japonesa, lia manga em francês, lia fanfics em espanhol.

“O meu mundo era completamente diferente do dos outros e eu não tinha ninguém com quem falar”, refere a cosplayer. Apesar de ter vários amigos, Leonor afirma que era muito difícil arranjar conversa sobre assuntos que lhe despertassem interesse.

Começou a pesquisar na Internet e conheceu algumas pessoas nos Fotologs. Estávamos na altura do MSN. Foi no mundo online que Leonor fez amizade com diversa gente que partilhava dos mesmos gostos que ela. Isso permitiu-lhe descobrir mais sobre o cosplay e entrar mais no meio. “Esse foi o grande passo, a minha personalidade começou a desenvolver-se porque falas com mais gente da área”, diz. As ideias trocadas eram cada vez mais e Leonor deixou de se sentir outsider dos grupos. “As pessoas até podiam gozar comigo na escola que eu tinha um grupo por trás que gostava das coisas que eu gostava e eu não me sentia mal”, refere.

Depois, quando se iniciou a fazer os seus primeiros fatos, Leonor começou a ganhar alguns concursos. Nessa altura, como as possibilidades monetárias ainda eram sorridentes, a cosplayer ia de norte a sul do país a vários eventos. “Foi aí que conheci praticamente a comunidade inteira de cosplay” afirma Leonor. Quer quisessem ou não, ela estava em todo o lado. Depois do seu primeiro concurso em 2008 (onde recebeu o best FIBDA), ficou em 3º lugar no Eurocosplay, sendo essa a sua primeira eliminatória europeia portuguesa. Em 2010 esteve nos 10 primeiros do Anicomics. Mais tarde, em 2012, participou no ECG (European Cosplay Gathering) em Paris. Ficou em sexto lugar em mais de 20 países que lá estavam. De entre diversos prémios recebidos, destaca-se também a distinção em 2013, que lhe permitiu ir ao Japão representar Portugal, no WCS – World Cosplay Summit, em Nagoya.

“Na altura, quando comecei, entrava em muitos concursos e ganhava quase sempre o primeiro lugar ou o segundo lugar (…) depois comecei só a ir às eliminatórias.”, afirma Leonor. Hoje, para a cosplayer, esse é o standart – das eliminatórias só para cima. Continua a ir a concursos normais de cosplay, mas esses só mesmo para ir com os amigos. “Se invisto tanto dinheiro, tempo e paciência é para ganhar um bom prémio e ir lá fora representar Portugal”, expressa a cosplayer. Leonor também participou como vice-presidente da associação portuguesa de cosplay, em 2012. Atualmente, e desde 2016, é fundadora e presidente de uma nova associação de Cosplay.

 

Afirma que os momentos maiores da sua vida “normal” fazem parte da altura em que venceu vários concursos. Confessa que é uma vida engraçada, apesar de ser uma vida de investir e não ganhar nada. Tudo o que investiu no cosplay deu-lhe experiências bastante gratificantes, mas nunca vou conseguir ter o dinheiro de volta, ter lucro com aquilo que criou. “Em Portugal não dá para lucrar ainda, por isso é que a associação está aqui, para ajudar os cosplayers a ter algum dinheiro para continuarem no Cosplay”, declara.  Apesar disso, Leonor garante não se importar com retornos financeiros. São os momentos que vive, as viagens que realiza e as amizades que faz que a marcam e lhe dão motivação para continuar a trabalhar neste universo. “Em agosto vou ao Japão e, apesar de já ter ido, é sempre uma nova experiência e divirto-me sempre”, diz Leonor.

LINHA E AGULHA em duas dimensões

“O Photoshop e o cosplay entraram na minha vida ao mesmo tempo”, refere Leonor. A cosplayer é também freelancer de pós produção de imagem. Tirou vários cursos relacionados com o Photoshop para complementar o seu conhecimento na área, pois maior parte daquilo que aprendeu no mundo da edição foi fruto do seu trabalho autodidata. Utiliza muito o programa no cosplay, principalmente devido ao cargo de chefe de fotografia e edição de imagem que assume na única revista de cosplay portuguesa. 

O trabalho e o cosplay sempre andaram lado a lado.  Leonor trabalha muito as fotografias que lhe tiram, porque sente que é na edição que pode empregar os conhecimentos que tem e criar cenários como realmente quer. “Muitos fotógrafos são contra o Photoshop, mas não posso criar um ambiente muito mais fantasioso nas minhas fotos porquê? Sou uma personagem, não estou a fazer uma passagem de modelos” interroga-se.  Gosta de exagerar para que as suas fotografias se tornem imagens de fantasia, pois é isso que está a fazer: vestir-se de uma personagem que está num ambiente fantasioso. Por isso, a cosplayer considera que “o Photoshop e a edição de imagem são uma grande ajuda para transformar fotografias por vezes normais em pequenas obras de arte”. 

Hoje, a cosplayer já conta com mais de 50 prémios em concursos, mais de 100 fatos, mais de 20 idas à televisão e artigos feitos por jornais e revistas.

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