José Ribeiro: Uma página da sua vida

Por Inês Oliveira e Ricardo Gonçalves 

Antes da entrada na livraria Ulmeiro, em Benfica, nada parece suspeito ou fora do comum. Alguns livros em promoção na parte exterior, uma vitrina com algumas relíquias literárias e o gato Salvador, que escolheu fazer da livraria o seu lar. Ao entrar, a sensação muda, é como se estivéssemos numa espécie de compartimento secreto repleto de histórias para contar.

Por entre livros amontoados, discos de vinil, inúmeras coleções de revistas, postais, quadros e prateleiras repletas de enciclopédias imponentes, está o homem por detrás desta aventura que já dura há cerca de 50 anos, mais precisamente desde 1969. José Antunes Ribeiro, de 73 anos, é o livreiro e editor que carrega às costas parte da herança cultural e literária portuguesa da segunda metade do século XX. Para além da mítica livraria, acabaria por criar também em 1970 uma editora com o mesmo nome, criação essa que possibilitasse “mais hipóteses de sobrevivência”.

À época, fruto do regime, “existia sobre a Ulmeiro, uma forte pressão por parte da PIDE”, o que, ainda assim, não o impedia de publicar alguns dos livros mais polémicos. Por variadas vezes foi levado pela polícia e ali mesmo assistiu a grandes apreensões. A reação era sempre “catastrófica” e o objetivo mais que claro – fechar a sua fonte de rendimento –, mas José sempre olhou para o livro como um “grande objeto de resistência”.

Ao todo foram cerca de 200 títulos publicados sobretudo em português, mas com espaço para algumas edições em língua castelhana de autores como Julio Cortázar, Gabriel García Marquez ou Mario Vargas Llosa. Era a constituição de uma tríade: livraria, editora e distribuidora. Quanto aos livros importados, sempre foi objetivo que se publicassem na sua língua original. “Em Portugal isso não havia. A Ulmeiro foi a primeira a fazer essa importação de livros literários na sua língua original”.

Sem um contacto direto com os livros na sua infância e juventude, nada fazia prever que fosse esse o caminho a seguir. Tal como conta, Júlio Verne terá sido o rastilho desta paixão que deflagrou a partir da escola, com o contributo da sua professora e com as bibliotecas itinerárias da Gulbenkian, que nessa época chegavam a vários pontos do país.

Anos mais tarde e um pouco mais desvanecida, a ligação ao livro e à escrita voltou a surgir durante o serviço militar. Nessa época e com um pouco de sorte acabaria por escapar à guerra colonial. Durante a recruta entrou nas Oficinas Gerais da Aeronáutica, onde esteve 4 anos a trabalhar. “Depois desses anos, saí exatamente no dia em que passei à disponibilidade, não fiquei nem mais um dia, coisa que me vedava para sempre a entrada ao serviço do Estado”. Curiosamente, entraria numa nova fase da sua vida, como empregado da propaganda médica, “essa horrorosa profissão, que apenas teve uma vantagem, que foi a de conhecer o Carlos Paredes, de quem me tornei amigo”.

DSC_1262

Finalmente, iniciaria o seu primeiro projeto com livros, quando ajuda a fundar uma das primeiras editoras da Amadora, a Obelisco. A partir daí, o seu percurso como livreiro e editor fluiria naturalmente. Ajudou a criar o departamento editorial do ITAU (Instituto Técnico de Alimentação Humana), fundado por Júlio Roberto, “no sentido de fazer umas edições, visto que tinha uns livros que gostava de ver editados”.

O passo seguinte foi natural: criar a sua própria livraria, que nem sempre se chamou Ulmeiro. “Primeiro isto chamava-se Livrarte, empresa que, entretanto, se extinguiu em 1980”.  Refletindo também aquilo que foi o êxodo urbano dessa época, o espaço escolhido foi óbvio, sendo que lhe pareceu interessante criar uma livraria na periferia.

Já o nome não releva nenhum simbolismo profundo, reflete apenas um dos traços caraterísticos da zona, repleta de ulmeiros, uma “árvore de folha perene, muito resistente e milenar”. Para além disso, nunca quis uma livraria tradicional, já que considera que esse modelo está desde logo condenado. “O pequeno editor não tem hipótese de sobreviver. E as pequenas livrarias também não, porque não há a possibilidade de escoamento daquilo que se publica”, a menos que façam parte daquela “grande autoestrada” onde circulam os bestsellers e esse tipo de livros.

Desde então a livraria tornou-se um marco na história da cidade de Lisboa, um espaço de grandes convívios, por onde passaram também grandes nomes da cultura portuguesa, como Eugénio de Andrade, Luiz Pacheco, Zeca Afonso, entre outros.

 

 

Submit a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.