José Bettencourt: à descoberta do tesouro subaquático

Por Jéssica Blazek, Luís Eusébio, Margarida Marques e Raquel Lourenço

O oceano que separa os Açores do continente foi o mesmo que juntou José Bettencourt, de 38 anos, à Arqueologia Subaquática. Em 1997, quando decidiu ingressar no curso de História da FCSH/NOVA, o jovem açoriano trazia na bagagem as aventuras de Indiana Jones e o sonho da descoberta do tesouro. O contacto real com a profissão não o desapontou, pois julga ter encontrado a articulação perfeita entre o fascínio pelo património e a paixão pelo mar.

“A comunicação social costuma alimentar o imaginário da aventura e do tesouro, deixando um ‘bichinho’ nos jovens, que pode crescer ou não. O meu cresceu e evoluiu para a via científica”, conta o investigador da FCSH/NOVA. Hoje, José Bettencourt está prestes a tornar-se no primeiro português doutorado em Arqueologia Subaquática, numa universidade portuguesa.

Bettencourt defende que “o lixo de ontem é, em parte, o documento arqueológico de hoje”. Para o investigador, a realidade da profissão torna-se interessante quando descobre que os vestígios materiais podem trazer ao presente toda uma época histórica: “O registo arqueológico de um naufrágio permite-nos examinar a hierarquização social existente a bordo, que, no fundo, espelha toda a estrutura da sociedade dessa época”.

Acredita que “não podemos construir o futuro sem conhecer o nosso passado”. A família não levantou obstáculos à sua escolha profissional, mas, às pessoas que ainda dizem que a área é desnecessária e sem futuro, Bettencourt responde: “A Arqueologia não fica enterrada no passado, pode contribuir para discussões de hoje sobre a forma como foi feita a colonização, por exemplo. Há vestígios que indicam que a relação colonizador/colonizado nem sempre foi de conflito”. E não fica por aqui: “É uma das poucas ciências sociais e humanas que tem mercado. Não vou dizer que é um trabalho bem pago, mas quem tira o curso de Arqueologia tem boas perspetivas para conseguir trabalho”.

Curioso desde que se lembra, José Bettencourt quer aumentar o conhecimento que tem sobre o mundo e é este objetivo que o mantém feliz e realizado na investigação científica, há 16 anos. Revela que é o fascínio pelo momento em que a descoberta acontece que alimenta a paixão pela ciência que, a seu ver, por vezes deixa de seduzir tanto quando enfrenta o rigor e detalhe do tratamento dos dados.

     

  • 1997-2001

     Licenciatura em História, variante de Arqueologia, FCSH/NOVA.

  • 2002-2004

    Dirige o projeto de caracterização sítio de naufrágio da nau Nossa Senhora da Luz, desenvolvido pela associação Arqueonova e financiado pela Câmara Municipal da Horta.

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“Não conhecemos grande parte do património português submerso” – lamenta o investigador – “O que nos chega principalmente são achados ocasionais, às vezes até há mergulhadores que encontram coisas e nos dão”. Apesar dos esforços das universidades, constata que não tem sido possível colmatar a diminuição do financiamento por parte do Estado.

Defende, ainda, que existe pouco reconhecimento social da profissão de arqueólogo, que continua a ser encarada como um hobby de aventureiros e não como uma ciência, com um método preciso e um impacto significativo na sociedade: “Algumas pessoas perguntam onde está a ciência, dizem que o que fazemos é escavar coisas antigas”.

Para José Bettencourt, todos os vestígios são importantes, mesmo aqueles que, à partida, parecem insignificantes: “Eu não sei o que é, e, enquanto não sei, é interessante, pode responder a alguma questão”. Quando é surpreendido, a descoberta ganha outro significado: “Nunca me vou esquecer de uma presa de elefante que encontrei no Faial, no último mergulho. Estávamos no local há um mês e eu ia só tirar algumas fotografias. Foi completamente inesperado e aquela descoberta ainda nos chamou a atenção para um novo sítio arqueológico!”.

“Pessoalmente, nunca tive vontade de abandonar a arqueologia”, afirma convicto. “Sou um privilegiado porque comecei a trabalhar como técnico no último ano da faculdade e, depois de acabar a licenciatura, fiquei como arqueólogo sob tutela da universidade”. Porém, a necessidade de sair de casa durante meses para escavar obriga o arqueólogo a “andar com a casa às costas”. Ainda assim, José Bettencourt não se deixa afetar pelas dificuldades: “As oportunidades constroem-se. É preciso haver uma grande entrega e um enorme envolvimento pessoal”.

Exigente e curioso, Bettencourt quer “ver o que ninguém viu e descobrir o que ninguém descobriu”. Na sua tese de doutoramento estudou vários naufrágios que aconteceram nos Açores, com o objetivo de perceber o papel desses navios no seu tempo. Atualmente, concilia o trabalho de investigação com o de professor, na FCSH/NOVA, e assegura que continuará a apostar na defesa do imenso património submerso que permanece à espera de ser desvendado e preservado.

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