João Rocha: a mecânica da música

Por Ana Carina Gomes e Daniela Duarte

“Sou muito agarrado à música, a música é a minha droga de eleição”. João Rocha é um jovem algarvio, estudante de mecânica em Lisboa. Carateriza-se e distingue-se pela enorme paixão e dedicação que tem pela música. “É uma coisa que gosto de fazer. Dá-me prazer. Acabo por me descobrir a mim mesmo”.

“Eu simplesmente preciso de tocar, faz parte do meu ser”. E, é por isso, que mete um pouco de si em cada música que escreve. “Não são letras banais onde as palavras foram juntas à pressão, (…) procuro sempre que as letras tenham algum significado”. Uma forma que encontrou para libertar as suas emoções. Tudo o que não consegue tirar de “dentro” e transmitir por palavras, acaba por sair através da música.

“Simplesmente, queria criar o som. Em vez de estar a ouvir o que os outros fazem, queria ouvir aquilo que era capaz de fazer”. Ao ver o seu interesse, a sua mãe sugeriu-lhe que frequentasse aulas de música. Durante dois meses, aprendeu as noções básicas dos fundamentos da teoria musical. “A partir daí, segui o meu próprio caminho”.

Atualmente são vários os instrumentos que toca. “Guitarra acústica, elétrica, portuguesa. Estou a aprender a tocar piano. Dou uns toques na bateria”. Mas o jovem não quer parar por aqui, e revelou ter um enorme interesse em aprender a tocar gaita de foles, entre muitos outros. “Gostava de aprender a tocar saxofone, violino. Sou um sonhador e gostava de ter uma casa só de instrumentos. E me daria mais gosto se fossem construídos por mim”.

A sua curiosidade pela produção de som leva-o mais longe. Para além de fazer pequenos arranjos, o jovem constrói também os seus instrumentos musicais. “Gosto de aprender o que é cada instrumento. Ou seja, gosto de saber o que é, como foi construído, outras maneiras de o construir, o que o construir”.

Para além de pequenos instrumentos com material reciclável, o algarvio já fez o seu próprio cajón. O seu grande desejo é fabricar a sua “próxima guitarra”. “Todos os matérias usados, vão influenciar o som, para além do método de construção”. Por isso tem de ser tudo feito com calma e de uma forma bem pensada.

cajón
Fotografia do Cajón, construído por João

No final do 12º ano ainda ponderou em seguir um curso de música. Rapidamente, o jovem percebeu que se o fizesse “deixaria de fazer música por mim”. Como “gostava de carros”, decidiu ir para a capital tirar engenharia mecânica.

Aparentemente estas duas áreas são muito diferentes, porém João consegue conjugá-las. “A música faz parte de mim. A mecânica vai ser o complemento da música”. Uma vez que lhe permite analisar os instrumentos e perceber melhor como produzem o som.

O afinador automatizado é a concretização da união entre a música e a mecânica. “Foi uma ideia que surgiu através de um projeto de uma cadeira que eu tenho, que é de programação”. Uma disciplina com a qual não simpatizava. De forma a tentar ganhar motivação propôs ao professor fazer um projeto de um afinador de instrumentos programável. “Ele gostou da ideia”.

O projeto do afinador automatizado já está quase completo, falta passar para a fase da construção, a qual, segundo o João, está próxima.

Quando fala da música, sublinha que o seu objetivo não é fama. Quer inspirar os outros. “A parte da inspiração parte daquilo que os outros fizeram. Podemos ter muita motivação, mas se não tivermos inspiração ou, alguém que nos inspire, acabas por perder o rumo, não tens diretrizes para aquilo que queres fazer”.

O próprio jovem afirma ter milhões de pessoas que o inspiram. ”Alguns são famosos no Youtube, outros são só famosos na terrinha. Mas cada um teve a sua maneira de abordar aquilo que eu sentia, e através da música deles conseguirem chegar ao meu ser, à minha alma”.

João já participou em diversos projetos enquanto músico. Mas aquele que mais gostou foi o que lhe fez “ver que eu era capaz de estar em cima do palco e tocar”. Pedro Pinto, um amigo, lançou-lhe um dia o desafio de tocar, numa apresentação de um livro. “A parte de tocar música, tudo bem. Mas em cima do palco da Fnac é muita responsabilidade”. E foi sem tempo de ensaiar que João, sentindo-se apavorado, pisou o palco e começou a tocar. E sem olhar para o público concentrou-se. “Olhei para a guitarra, e para aquilo que a guitarra tinha para me dar (…) não me importei com aquilo que as pessoas estavam a fazer. Estava a fazer por mim e não pelos outros”.

Gosta de tocar ao vivo, porque sente maior proximidade com o público. Permite um maior contacto com as vidas de quem o ouve. Para além de tocar ao vivo, João quer lançar o seu primeiro álbum, mas “ainda estou a decidir se será só para mim, se também para os outros”. Vê um álbum “da mesma maneira que um atleta vê uma medalha (…) Não significa que sou melhor que os outros, ou que outros sejam melhores que eu. Significa que me esforcei para chegar a um objetivo”.

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