João Antunes: Humanidade sem fronteiras

Francisco Carvalho, João Gama, Nuno Xarepe, Tânia Matos

Fome. Pobreza. Epidemias. Catástrofes naturais. João Antunes não escolheu uma vida normal e o choque com estas realidades marcou o seu dia-a-dia durante 11 anos. Nasceu em Lisboa, licenciou-se em Gestão, mas o seu lado mais humano levou-o a juntar a vontade de conhecer o mundo ao trabalho humanitário dos Médicos  Sem Fronteiras.

João Gonçalo de Ribeiro Antunes nasceu no dia 8 de agosto de 1978. Alfacinha de gema, nascido e criado em Lisboa, onde fez toda a sua educação. Chegado às 17 primaveras, João viu-se confrontado com a difícil decisão com que qualquer jovem de tão tenra idade se depara: que curso escolher? A decisão recaía entre Economia e Biologia, “coisas parecidas” graceja.

No final, os números prevaleceram, tendo este ingressado no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) entre 1996 e 2000. Chegado ao seu último ano de curso, João embarcou na sua primeira aventura fora de Portugal: Erasmus em Barcelona, tendo por lá ficado a trabalhar nos seis anos seguintes, numa empresa multinacional.

“Havia ainda um mundo para descobrir, não só como viajante mas como trabalhador, no meu caso como trabalhador humanitário”

De Barcelona a África foi um saltinho. E da gestão para o trabalho humanitário também. Afinal, não é todos os dias que alguém troca o fato e gravata pelo colete branco. João tinha mais vontade de conhecer o mundo e a sua primeira viagem sozinho a África, em 2004, mudou a sua vida. Esta viagem permitiu-lhe conhecer uma outra realidade e despertar (ainda mais) o seu lado humano. João desejava fazer algo mais da vida. A resposta que encontrou foi o trabalho humanitário dos Médicos sem Fronteiras.

João Antunes trocou o fato, a gravata e o trabalho em multinacionais pelo colete branco e a ajuda humanitária



Uma organização dedicada ao préstimo de cuidados de saúde

Médicos Sem Fronteiras é uma organização humanitária internacional criada em 1971, uma “Humanitarian Aid”, como João gosta de referir. Esta é uma organização que trabalha e leva cuidados de saúde a pessoas afetadas por “situações de conflito, epidemias, situações de desastres naturais, de refugiados, de deslocações de pessoas.

Desde a sua criação, os Médicos sem Fronteiras estiveram inseridos em várias situações de emergência extrema, onde num curto espaço de tempo se verificou uma mortalidade acentuada em certa zona. É de extrema relevância a existência de alguém treinado e preparado para agir em auxílio das populações nesse curto espaço de tempo. Esse alguém existe, são os Médicos sem Fronteiras. A velocidade de ação desta instituição demonstra a sua importância nestes cenários.

O maior reconhecimento de décadas de trabalho surgiu em 1999, na forma de Prémio Nobel da Paz.

“Todos estes anos estivemos sempre presentes nas principais crises humanitárias, temos um know how e uma responsabilidade com as populações em questões futuras”

O que 15 missões no estrangeiro têm para contar

O trabalho de João em causas humanitárias fê-lo entrar em contacto com algumas das maiores crises humanitárias da atualidade. “Tudo começou em 2006” quando foi contratado como coordenador financeiro para a sua primeira missão dos médicos sem fronteiras, em Angola.

Depois da sua primeira missão regressou a Barcelona, para voltar a viver com amigos e trabalhar em multinacionais. “Mas para trás não se caminha, caminha-se para a frente. E depois continuei com os Médicos Sem Fronteiras desde 2009 até agora”, conta-nos João.

Entre 2006 e 2017, João passou 10 anos em África, esteve envolvido em 13 missões e viu o continente africano tornar-se uma segunda casa. 2009 foi o ano em que isso mudou. Esse ano trouxe-lhe novos desafios e deu-lhe a conhecer uma nova realidade, novos países e um novo continente – Ásia.

Campos de refugiados, o perfeito exemplo “do espírito de resiliência de que é feita a Humanidade”

O trabalho humanitário de João desde cedo o fez entrar em contacto com as realidades mais duras que assolavam o mundo. Campos de refugiados não foram exceção. As verdadeiras “cidades improvisadas”, com 50, 70 ou 100 mil pessoas que se juntam no mesmo espaço e que só têm uma coisa em comum – “o sentimento de desespero”.

“Entrares num campo de refugiados, desde o primeiro dia… é arrebatador. Apercebes-te do que é feita a Humanidade. Do espírito de resiliência das pessoas que perderam tudo e que não têm nada, mas que em família se recuperam. Os pequenos que já no 2º ou 3º dia vão à escola e os adultos que já tentam fazer o seu ganha pão e juntos tentam andar com as suas vidas para a frente. É deste tipo de situações que tiras muitas lições de vida”

“Bom dia, como está? Como está a família?” O dia a dia de um médico sem fronteiras

João passou nove anos a trabalhar em campos de refugiados. Acordou às 6h da manhã, “como toda a gente em África”, com o nascer do sol. Viu as crianças a correr para ir para escola e os adultos a sair para ir “plantar nalgum lado”. Viu uma ‘cidade’ a formar-se, plena de vida e cheia de movimento. Todos os dias no caminho para o seu local de trabalho distribuiu imensos “Bom dia, como está? Como está a família?”, e por cada pessoa com que se cruzou tirou vinte segundos para saber como estava, para falar um pouco. E foram esses pequenos gestos as maiores lições de humanidade que aprendeu.

O lado humano de um médico sem fronteiras

O trabalho nos Médicos sem Fronteiras ensinou a João que só através da solidariedade se junta um mundo que atualmente parece dividido em dois – um em que se tem tudo e outro onde não se tem nada. A ajuda humanitária constrói uma ponte entre esses dois mundos, quando as pessoas que tudo têm estendem a sua mão às pessoas que nada têm, procurando “dar resposta àquilo que estão a passar, e que são questões de vida ou morte”.

A maior experiência que retira do que acabou por ver como um trabalho normal é poder sentir que faz parte de uma solução imediata ao sofrimento de tantas pessoas, naquele momento e naquele espaço, “o que é algo que é tremendo”.

“Num mundo em que cada vez mais temos fronteiras e dificuldades. Onde cada um tem de ficar nos seus sítios. É importante mostrarmo-nos solidários com determinadas situações e determinadas pessoas que estão a sofrer”

O regresso do “super-herói que vai salvar o mundo”

“A tua vida no terreno é 95% do que fazes. Faz com que tenhas de esquecer e deixar de lado as tuas relações familiares, afetivas e de amizade.” O regresso a casa do João é eufórico, onde a felicidade não deixa espaço para mais nada. Mas rapidamente, “numa ou duas semanas”, essa felicidade dá lugar a um invariável vazio.

Para o médico sem fronteiras, a ajuda humanitária é a sua causa. Algo tão enriquecedor que faz a sua vida rotineira em Portugal ou Espanha parecer insípida. “Todas as histórias que tinha para contar, as pessoas ou não tinham curiosidade ou não percebiam, e então a dificuldade de adaptação torna-se quase uma depressão pós-missão.”

No entanto aprendeu a viver com isso. O truque é manter os pés assentes no chão e não colocar-se “naquele papel de super-herói que vai salvar o mundo”. Os objetivos nobres do seu trabalho são evidentes, mas também são parte da sua pessoa e, por isso, normais.

“Oh meu Deus, onde é que te vais meter? Realmente não estás bom da cabeça”

“É normal que muitas destas missões acabem por ser em situações de alto risco, de conflito.” Assim, é normal que as pessoas reajam com um “Oh meu Deus, onde é que te vais meter? Realmente não estás bom da cabeça”.

A garantia de segurança de médicos sem fronteiras como João é indispensável. Sem essa garantia não lhes seria possível levar ajuda humanitária a países de onde “as pessoas estão a sair por não ser seguro e nós estamos a tentar entrar para ajudar as pessoas que lá estão”. O protocolo de segurança apertada, a análise de contexto quase diária extremamente regulada permite aos Médicos Sem Fronteiras decidir se há condições de segurança para trabalhar nesses países. Numa organização que se estende por 72 países, em quase 500 projetos onde trabalham mais de 40.000 pessoas, “talvez fosse de esperar que houvesse mais incidentes de segurança, o que não acontece”.

A vida pessoal que é deixada para trás

Quando a ajuda humanitária é “a tua causa principal” há sacrifícios que vêm com isso, sacrifícios como “sentir que há sempre uma vida pessoal que tem de ser deixada para trás”.

Desse sacrifício nasce o maior desafio de um trabalhador humanitário, que segundo João é “sentir que o trabalho é muito de ti, mas sem esqueceres as tuas próprias raízes, sob o risco de aterrares num sítio que antes era teu, mas que agora já não é”.

Porém, é um risco que “no fim do dia vale muito a pena”. A ajuda humanitária que João presta todos os dias tem um impacto direto e quase imediato no mundo em que vive. Consegue ver o resultado de um dia de trabalho na vida das pessoas que ajuda: o “grãozinho de areia” de que João nos fala, a nós pode-nos parecer minúsculo mas para as pessoas que ajuda é uma questão de vida ou morte.

“Sentes que o grãozinho de areia com que podes contribuir tem uma enorme abrangência e isso é muito enriquecedor. É quase uma experiência única”

“Como gostava de ser lembrado?” Como um exemplo do que deve ser a humanidade

“É o mundo que se está a construir com fronteiras, muros, ilhas e campos de refugiados à porta da Europa, sem ser dada uma oportunidade às pessoas de exercerem os seus próprios direitos. Faz falta alguns exemplos de que a humanidade é algo que já deveria estar mais instituída no século XXI e pelo menos que sejas um exemplo nesta perspetiva para as pessoas que te estão mais próximas. É o reconhecimento que preciso e é espetacular”

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