Joana Mendes: ‘Bora Lá Viajar?

Por Beatriz Cardoso Ferreira, Inês Isabel Pereira e Mariana Martins

Joana Mendes começou a fazer a mala e a pôr tudo lá para dentro. Não fechava e foi tirando coisas. Partiu e só descobriu o que é indispensável durante a viagem de cinco meses pela Europa. Com 500€ no bolso, foi à procura de pessoas.

Quando saiu de Portugal com a rota mais ou menos planeada, um amigo disse-lhe que se fizesse tudo “direitinho e certinho” como tinha pensado, alguma coisa iria correr mal. Para uma jovem de 18 anos, que passou de uma provável estudante de medicina para alguém que não queria entrar para a faculdade, ir foi uma decisão da qual não se arrepende.

Tinha-se espalhado nos exames do ensino secundário e escolher um curso de que não gostava era impensável. As pessoas da pequena cidade de Tomar diziam-lhe: “Mas que ideia maluca é essa? Mete lá as ideias no sítio e vai para a faculdade”. O pai só acreditou na ideia quando ela começou a viagem. Já a mãe e a irmã apoiaram-na desde o início. “Quando disse aos meus pais que levava tão pouco dinheiro, não sei se eu própria acreditava na ideia. Mas tinha de os convencer.”

Na fronteira entre França e Suíça.
Na fronteira entre França e Suíça.

Joana não tem medo do mundo. De espírito aventureiro e destemido, partiu de Portugal em Março de 2014 e apanhou 90 boleias. “No início não sabia como se pede boleia, depois com o ritmo da viagem fui aprendendo.” Escrevia o destino com marcadores num cartão e em baixo “Be Happy”, ou conforme a língua do país onde estava. Sempre com um sorriso, viajou pelos 11610 km de Espanha para França, Bélgica a Holanda, Luxemburgo, Suíça, Alemanha, República Checa, Áustria, Hungria, Eslováquia, Eslovénia, Croácia, Itália e, por fim, Vaticano.

Percebeu que apanhar boleia não é tarefa simples. É importante ter cuidado com o tipo de roupa, evitando “calções e grandes decotes” e, antes de entrar no carro, interagir com a pessoa para perceber se é ou não de confiança. Recusou duas ou três boleias. “Estar no centro da cidade não é boa estratégia: o melhor são as entradas das autoestradas, bombas de gasolina e estações de serviço.”

“Depois de tanto tempo em viagem, és tu que estás em desvantagem e se as pessoas chegam ao pé de ti, normalmente é para te ajudar.” Joana apercebeu-se de que o mundo não era tão mau como estava à espera. Descobriu cada pessoa como um mundo com que tinha de interagir. Na Eslovénia, quando abriu a porta da frente do carro de uma boleia, surpreendeu-se: o condutor estava nu. “Perguntou-me se me importava mas eu fui, e ele era uma pessoa fantástica.”

Muitas pessoas com quem se cruzou ao longo da viagem foram um contacto momentâneo, mas há quem ainda hoje esteja muito presente. Esta foi uma viagem completamente diferente, que contrasta com o conforto e a estabilidade de Portugal. Longe da chamada ao pai e à mãe para pedir ajuda, foi quem encontrou que a ajudou a ultrapassar os desafios. Cruzou-se com a família hippie do Nahnu, com quem aprendeu que as aparências não correspondem à realidade. “Se calhar seriam daquelas pessoas com quem eu não conviveria no dia-a-dia, mas foi uma experiência muito gratificante. Eles eram pessoas muito viajadas que me ensinaram muita coisa”.

Em França, Joana encontrou a família hippie do Nahnu
Em França, Joana encontrou a família hippie do Nahnu.

Gostou particularmente da Suíça e da costa da Croácia. As cidades de Berlim e de Budapeste também a marcaram, mas foi principalmente pelas pessoas com quem esteve. “Nesta viagem eu pude conhecer os sítios como um local os conhece, completamente fora dos roteiros turísticos.” Fazer couchsurfing possibilitou que quem não a conhecia de lado nenhum lhe abrisse as portas das suas casas e das suas vidas. A primeira experiência ajudou-a a não ter medo da seguinte, a continuar o caminho e a ter mais confiança.

Há uma Joana antes e uma Joana depois. Quando voltou a Portugal tinha os sonhos todos e parecia que eram todos realizáveis. “Quando estás a viajar durante tanto tempo com pouco dinheiro, passas a relativizar os problemas mínimos do dia-a-dia, passas a pensar mesmo em grande.” Percebeu que tinha muitas ideias que gostava de explorar, e que não valia a pena passar os dias a fazer o que toda a gente faz só porque dizem que esse é o caminho normal. Inspirada, decidiu prosseguir os estudos em Gestão.

“Creio que os portugueses têm mais medo destes conceitos inovadores, têm mais medo do desconhecido.” Mas foi com a bandeira do seu país às costas que Joana viajou. Como viajava com pouco dinheiro não comprou nenhum souvenir. Trouxe na bagagem a marca dos que encontrou. “Foi das melhores prendas que eu podia trazer do meu Gap Year.”

A bandeira portuguesa foi sendo assinada por quem Joana encontrava.
A bandeira portuguesa foi sendo assinada por quem Joana encontrava.

Com o ‘Bora Lá Viajar, Joana foi partilhando as suas experiências e o seu crescimento. A mala que levava às costas tornava-se mais leve mas a bagagem emocional maior. “Andei cinco meses a viajar sozinha porque gosto da liberdade que isso me dá”.

 

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