Inês Pereira: era uma vez na Índia

Por Rita Mata-Seta Pereira e Stefanie Wacek

No exato momento em que está prestes a entrar no avião, o olhar de Inês encontra-o. Não está a mais do que 30 metros de distância. Acaba de aterrar, está a sair de um avião privado. Ele avista Inês e os restantes passageiros do avião, acena-lhes e começa a caminhar na sua direção. Chega junto a eles e dá-lhes a sua bênção. “Um olhar meigo, de criança profundamente sábia”, é assim que Inês o descreve.

Há três meses, quando aterrara pela primeira vez na Índia, Inês Pereira nunca imaginara que iria conhecer o Dalai Lama. O relógio marcava 0h30, no aeroporto de Deli. Era dia 3 de junho. Durante seis horas e meia, esperou que alguém a viesse buscar ao aeroporto. Como ninguém o fez, Inês decidiu fazer-se à estrada e procurar, sozinha, o sítio onde iria ficar.

Viajou até à Índia para fazer voluntariado. Durante o inverno, Inês tinha-se inscrito numa organização de jovens que promove estágios de voluntariado internacionais. O entusiasmo era muito e, assim que a Índia foi escolhida como destino, a jovem comprou de imediato os bilhetes. Inês iria dar aulas a crianças carenciadas, numa escola indiana.

Samarpan School era um estabelecimento de ensino gratuito, pertencente a uma fundação, localizada em Kishangarh, na região de Nova Deli. A escola acolhia crianças do bairro, entre os 2 e os 17 anos, providenciando-lhes tanto um espaço educativo como alimentação. Precisamente o que Inês procurava.

O dia-a-dia em Kishangarh

Inês e os voluntários de Kishangarh
Inês e os voluntários de Kishangarh

Durante dois meses, Inês viveu num edifício exclusivamente dedicado à residência de voluntários, que acolhia cerca de 25 jovens. México, Colômbia, Brasil, Egipto, Itália, China, Taiwan, Vietname – todos estavam representados neste grupo diversificado de voluntários, que acabaram por tornar-se “o grande suporte” de Inês, segundo a própria.

Inês recorda “as viagens à descoberta da cidade, as jantaradas no terraço, as conversas profundas e as grandes gargalhadas” que pautavam as noites na residência. Mas, durante o dia, era na Samarpan School que a jovem ocupava o seu tempo. O dia na escola começava às 8h da manhã. Diariamente, Inês caminhava até lá, desde o seu apartamento, por “entre as ruas estreitas e complexas do bairro, mergulhada nos sons, sujidade e confusão”.

O choque cultural fez-se sentir bastante, ao início. “Tudo é caótico e a primeira semana custa…”, Inês confessa, “sujidade, cheiros, ruído, más condições de higiene e falta de infraestruturas”. Nos transportes públicos, pessoas e animais viajam juntos, o caos é imanente, e aquilo que salta à vista é uma realidade bilateral.

“É um país cheio de contrastes: não só de paisagens (que vão desde as montanhas, ao deserto, às cidades caóticas, até às praias exóticas) mas também, daqueles que as habitam…”, afirma Inês, “há uma profunda desigualdade”. A ajuda social na Índia “é rara e frágil”, lamenta, “veem-se inúmeros mendigos, crianças a pedirem, barracas ao longo das estradas de terra, esgotos e lixeiras abertos”.

Na escola, Inês ensinava uma larga variedade de matérias às crianças, desde Inglês às Ciências Naturais, passando pelas Artes e pela Geografia, e ajudava na distribuição das refeições. Quando as aulas terminavam, acompanhava as crianças até casa, que a faziam “entrar e conhecer o espaço pequenino em que habitavam”. “Foi impressionante como, na simplicidade das suas vidas, encontrei uma fonte infinita de alegria e contentamento”, constata.

Embora as carências financeiras fossem evidentes, Inês sente que a maior insuficiência das crianças com que lidava era ao nível da “atenção e do amor” e de “uma compreensão mais consciente do mundo”. Acredita que a sua função foi “ajudá-las a conhecerem-se e a gostarem de si; abrir-lhes a visão para o mundo cheio de culturas e diferenças que existe e o mundo maravilhoso que cada uma delas tem dentro de si”.

Viajar pela Índia

Aos fins de semana, Inês e os outros voluntários aventuravam-se em viagens, para “conhecer e absorver” tudo o que pudessem. Foram até Amritsar, visitar o Templo Dourado, santuário do siquismo, e a fronteira entre a Índia e o Paquistão. “No lado indiano, via cores, do lado do Paquistão, a negritude das burcas das mulheres”, relembra Inês.

Passaram por Rishikesh, a cidade do Yoga, onde Inês acampou nas montanhas e tomou banho nas margens do rio. Daí, seguiram até Agra, para conhecer o Taj Mahal, e depois, para Jaipur, a “cidade cor de rosa”, onde andou de elefante. Uma viagem de 15 horas de comboio transportou-os até à “alma do deserto”, Jaisalmer, onde puderam andar de camelo, ver o pôr do sol sobre as dunas e passar a noite no deserto.

Inês viajou ainda até Bodhgaia, a vila onde Buda alcançou a iluminação, e Varanasi, a cidade mais antiga da Índia, que vive para o Ganges, o rio abençoado pelo deus Shiva e, como tal, dotado de poderes purificadores. Trata-se do local de peregrinação escolhido pelos hindus para a sua morte. Inês descreve o ar “pesado pelas cremações [o processo fúnebre adotado no hinduísmo]”, um “fogo nunca se apaga”. Inês diz que esta é “uma cidade que abala”. “É a cidade da morte, mas também da vida”, declara.

O período de voluntariado chegara ao fim e os amigos de Inês iam partindo, aos poucos. Relembra a última vez que visitou o apartamento dos voluntários: “estava vazio, eu era a última a partir…”. Ainda com um mês na Índia pela frente, Inês decide continuar a viajar sozinha: “Queria mais, queria aventurar-me, fazer caminho nessa nudez. E fui”.

Inês acaba por descobrir que viajar sozinha nunca é viajar só: “Vais sempre encontrando pessoas e há sempre algo que te espera, um lugar, uma paisagem. Há sempre um encontro”. A próxima paragem de Inês seria um retiro de meditação, nos Himalaias, onde aprendeu os ensinamentos budistas. “Foi intenso. Foi belo. Foi profundo”, resume.

O destino final de Inês foi uma colónia de refugiados, na vila de Bir. A jovem foi acolhida por uma família tibetana refugiada, durante aquela que seria a sua última semana na Índia. À despedida, Inês deixou a colónia sob um céu estrelado e uma lua cheia, enquanto, num terraço cheio de bandeiras, lhe era entoada uma oração de proteção tibetana. E a gratidão de Inês não cessava.

“O regresso a Portugal foi difícil” e continua a ser, para Inês. “Houve um choque mais intenso no regresso a casa, do que na Índia. A todo o consumo, materialismo, ritmo de vida acelerado…”, revela, “ainda tenho a Índia dentro de mim. Paisagens e pedaços dela que me vão preenchendo com cor e vida. A Índia transforma-nos, talvez por isso tenhamos tanto receio dela”.

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