Gabriela Canavilhas: A arte da política

O formulário em branco fita-a. “Profissão”, exige o exemplo de burocracia. Deputada? Pianista? Gabriela Canavilhas, 55 anos, não sabe responder.

Por Bruno Rocha, Isabel Patrício e Tiago Santos

Na Assembleia da República, senta-se na bancada do Partido Socialista. Fora dela, no banco do instrumento musical pelo qual se apaixonou na adolescência. Em ambos, com o mesmo entusiasmo e à vontade… afinal, toda a arte é um ato político.

Estas são as faces de Gabriela Canavilhas: política, pianista, açoriana… uma cidadã do (e pelo) mundo.

'A política são fingimentos'

Na bancada parlamentar do partido socialista, Gabriela Canavilhas assiste atenta ao debate que toma conta do hemiciclo. Ocupa esse lugar há cinco anos, desde que deixou a pasta da Cultura do segundo Governo de José Sócrates (2009-2011).

Desses tempos, guarda a surpresa do convite do engenheiro e a memória da instabilidade de um dos períodos políticos mais difíceis de Portugal.

A açoriana nascida em Angola estreara-se, oficialmente, na cena política em 2008, na liderança da Direção Regional da Cultura do arquipélago que a viu crescer.

Canavilhas apostou, então, na dinamização de festivais como o MusicAtlântico, que, segundo a pianista, levaria a esta região autónoma compositores e sonoridades nunca antes ali ouvidas.

Gabriela orgulha-se, por isso, desses tempos na política regional, primeiro palco da sua assumida demanda pelo serviço público.

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Cap-I-A

Gabriela Canavilhas, em 2011, estava à frente da pasta da Cultura

Arquivo

Socialista desde sempre, é em 1999 que Canavilhas se liga, formalmente, ao PS. Gabriela justifica a escolha de tal vocação partidária pelo domínio que o socialismo tem e sempre teve na própria Região Autónoma dos Açores (em 2016, por exemplo, o PS conquistou a quinta maioria absoluta consecutiva no Governo regional.)

Ainda que empenhada na cultura do arquipélago ao qual hoje ainda está muito ligada, conta a deputada, foi somente enquanto ministra da Cultura que experimentou o verdadeiro sabor do poder.

Os avanços legislativos na área dos direitos de autor e a isenção fiscal da doação de livros são duas das medidas que Gabriela recorda com mais orgulho. Canavilhas ficaria, contudo, escassos meses nas rédeas da Cultura nacional.

À saída do comando do país, em 2011, Gabriela assistiria com pesar, confessa, à ânsia do Governo PSD-CDS em secundarizar a pasta que liderara.

O primeiro governo de Pedro Passos Coelho transformaria, então, esse ministério numa secretaria, um golpe que, ainda hoje, recorda como uma flagrante ameaça aos artistas e cidadãos portugueses.

Ao Governo da austeridade de Passos (2011-2015) suceder-se-ia, no entanto, defende a deputada, um raio de esperança: o regresso do PS ao poder com António Costa.

Em 2017, com mais 20 milhões no Orçamento do Estado para a Cultura, Canavilhas elogia um Governo que, progressivamente, tem vindo a apostar na recuperação desse património artístico.

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Canavilhas, pensativa, numa Comissão, em 2012

Lusa/ Miguel A. Lopes

A exercer, atualmente, a segunda legislatura na Assembleia da República, Gabriela fala com encanto das possibilidades encerradas na vida política nacional, mas não deixa de lhe reconhecer (e enfatizar) uma face escura.

'A arte é um ato político'

É ao Sistema Nacional de Educação que Gabriela Canavilhas agradece a dádiva de ter descoberto a vocação musical.

Perdida no Oceano Atlântico, a deputada pianista encontrou ainda em jovem um conforto ímpar nas teclas de marfim. Na cabeça, Canavilhas leva a política; na alma a arte.

Com sete discos editados, a açoriana concilia agora a política e a música, num equilíbrio precário. As duras exigências que reconhece em ambas as ocupações laborais dificultam-lhe o frágil, mas necessário, malabarismo… embora, na verdade, jamais possa dele abdicar.

Na música acredita haver mesmo um forte significado político, considerando, por isso, natural o duplo investimento a que dedicou a sua vida.

Ainda que totalmente empenhada no seu desempenho parlamentar, Gabriela guarda, irremediavelmente, um carinho especial pelo piano. Da música clássica, fala com um brilho nos olhos e o maior dos sorrisos nos lábios.

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Cap-II-A

Foi na juventude que Gabriela Canavilhas descobriu o amor ao piano

Arquivo

São as composições renascentistas aquelas que mais aprecia, mas recorda sem favoritismos todos os belos sons que já teve o privilégio de escutar em múltiplas salas de espetáculos: do primeiro ao último.

Em jovem, Canavilhas estudou Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa e Piano no Conservatório Nacional, onde é hoje, também, professora.

No futuro, Gabriela quer dedicar um disco aos fados para piano e voz do século XIX. Joana Amendoeira será, nessa ocasião, a artista com a qual quer partilhar essa aventura.

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Canavilhas mantém um piano em sua casa

Isabel Patrício

Por agora, Gabriela mata as saudades do piano com concertos ocasionais. Em 2016, regressou, finalmente, aos palcos (e as saudades já eram tantas!)

Um açoriano é do mundo

Já dizia John Donne, “nenhum homem é uma ilha”, mesmo que numa nasça ou sobretudo se assim acontecer, considera Gabriela Canavilhas.

Nasceu em Angola por mero acaso. De África, não guarda qualquer ligação. Em São Miguel e nas Flores, nos Açores, gastou a infância e a adolescência, embalada pelo rugir mansinho do constante temporal, do sotaque carregado e da dança suave das verdejantes Furnas, o seu refúgio predileto.

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Gabriela Canavilhas considera as Furnas, em São Miguel, um dos lugares mais bonitos do mundo

Arquivo

Fisicamente, enclausurada por um imenso oceano, Gabriela nunca sentiu o peso dos grilhões da insularidade.

Desculpe-lhe Daniel de Sá, mas, para Canavilhas, sair da ilha não é a pior maneira de ficar nela… nascer na ilha é estar constantemente ligado ao que está para além dela; é ser do mundo.

O azul-verde das lagoas corre-lhe no sangue. Volta ao arquipélago com frequência, do qual não esquece a tranquilidade, paz e a pronúncia.

Trá-la na algibeira, escondida pelo ouvido de pianista, mas pronta para se anunciar a cada chamada com origem nas distantes ilhas.

Canavilhas delicia-se com essas dissonâncias da vida: o piano e a política; a insularidade e a continentalidade. Tem um sorriso forte, um porte firme, a vontade de não terminar os seus dias: e quando o fizer, diz ela, este é o seu plano.

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