Futebol de Formação: refém da covid-19

Por Alexandre Ribeiro, Ana Rute e Simão Vitorino.


Confinados às paredes das suas casas, jogadores e treinadores viram-se obrigados a encontrar novos métodos de treino, físico e tático, por forma a manter o ritmo. Mas, acima de tudo, foram forçados a não se deixar consumir, psicologicamente, pela ausência do apito inicial.


Março de 2020

O mês em que todas as atividades desportivas foram suspensas

Após a declaração do estado de emergência a 18 de março de 2020, e implementação do dever de recolhimento domiciliário, apenas os estabelecimentos de bens essenciais mantiveram a atividade. Em Portugal, à semelhança de todo o globo, também o mundo do futebol parou. Competições profissionais foram suspensas e competições de formação canceladas, bem como os grandes eventos desportivos.

Longe dos relvados, os protagonistas encontravam-se por videochamada, na esperança de trazer aos seus dias alguma normalidade. Outros, nem essa pequena rotina tinham. Por forma a minimizar o efeito do isolamento, alguns atletas, de determinados clubes, seguiam planos de treino que, embora permitissem manter a atividade física, falhavam na satisfação das necessidades táticas e psicológicas.

Se esta é uma realidade assustadora quando aplicada ao mundo do futebol profissional, torna-se difícil conceber o impacto que teve no futebol de formação. A pandemia afetou os atletas integrantes dos escalões sub-15 aos sub-19, mais do que a quaisquer outros. Imaginar este cenário parece ser, por si só, evidente da dificuldade enfrentada. Mas os dados não deixam dúvidas: face à época anterior, houve uma redução de mais de 75% do número de atletas federados.

José Müller

Jogador do escalão júnior do Sport Lisboa e Benfica

Numa altura em que o mundo vivia momentos de grande incerteza, a esfera do futebol não foi exceção. Atleta do futebol de formação, José Müller conta-nos como foi ultrapassar este duro momento sob a alçada de um clube grande, o Sport Lisboa e Benfica.

Entre exercícios físicos e análise tática das equipas, os jogadores do SL Benfica procuravam manter-se em forma, recorrendo, na maioria das vezes, à plataforma Zoom. No entanto, o jogador não deixou de confessar que, apesar de estarem reunidos online e tentarem estar ativos, não era a mesma coisa.

«Psicologicamente foi bastante difícil. É chato quando é por Zoom e não tens o contacto real com as outras pessoas. Também é completamente diferente treinares futebol como deve ser, com a equipa toda junta, e treinares em casa. Acabava por ser muito monótono e, por vezes, mesmo muito difícil. Só queríamos que chegasse ao fim

Detentor de mais recursos que a maioria dos clubes portugueses, o SL Benfica nunca permitiu que nada faltasse aos seus jogadores. Para além do apoio providenciado por parte de toda a equipa técnica, de uma forma geral, Müller destacou, ainda, a constante disponibilidade do psicólogo e do nutricionista, que estavam contactáveis 24 horas por dia.

Mas as mudanças não ocorreram só no formato dos treinos. No regresso ao campo, meses mais tarde, os jogadores da formação encarnada não encontraram grandes vestígios de normalidade, deixando, entre outras coisas, de ter permissão para tomar o pequeno almoço no Campus do Seixal. Posteriormente, e aquando da permissão da DGS, puderam fazê-lo, mas sempre com acrílicos a separá-los.

Existiram, igualmente, mudanças na organização do balneário. Os assentos tinham, obrigatoriamente, um espaçamento de dois lugares entre si. Para além disso, era obrigatório respeitarem, igualmente, as medidas comuns a outras atividades, como o reforço da testagem, o uso de máscaras cirúrgicas e a desinfeção obrigatória das mãos.

Quando questionado acerca destas alterações no regresso aos treinos, Müller esclarece as principais dificuldades sentidas:

Esclarece, assim, que, se por um lado, voltar aos treinos trouxe aos jogadores alguma normalidade, por outro, o regresso tardio das competições não lhes permitiu manter a motivação necessária e trouxe consigo discrepâncias na competitividade entre clubes.

O atleta confessou ser, em certa parte, privilegiado por pertencer aos quadros encarnados num momento tão complicado como este. Para além de ter noção que o SL Benfica esteve, de forma constante, bastante próximo dos jogadores, prestando apoios no que fosse necessário, teme que, em clubes mais amadores e com menos recursos, a pandemia tenha tido efeitos irreversíveis.

«Muitos desistiram do futebol»

Flávio Ilhicas

Treinador principal dos Infantis do Sport Grupo Sacavenense

Apesar de os atletas serem os principais afetados com a paragem do futebol de formação, não foram os únicos a sentir o impacto da pandemia. Flávio Ilhicas, treinador principal dos Infantis do SG Sacavenense, relata como, tanto na altura do confinamento como no regresso ao campo, teve de adaptar os seus treinos, tarefa dificultada pela escassez de recursos do clube.

Aquando do dever de recolhimento, o plano de treinos prescrito consistia, essencialmente, em exercícios físicos como burpees, jumping jacks, abdominais e flexões, supervisionados pelo treinador através de videochamadas, com o objetivo de manter os jogadores em forma. Contudo, a falta de espaço nas habitações de boa parte dos jovens dificultou a aplicação deste método. 

Revela que, ainda durante este período, os seus futebolistas não tiveram a possibilidade de aceder, por exemplo, a psicólogos ou nutricionistas.

«Para clubes que não sejam Sporting, Benfica, Porto ou outros clubes melhor preparados, é difícil dar todos os apoios. O Sacavenense não foi exceção»

Com o regresso aos treinos presenciais, surgiram também novos costumes no SG Sacavenense, como a desinfeção constante das mãos dos frequentadores das instalações, bem como dos próprios materiais, a utilização de luvas e a impossibilidade de os atletas tomarem banho e se equiparem nos balneários. Num primeiro momento, os jogadores estavam limitados a um pequeno espaço, no campo, e não existia contacto entre os jovens, o que, para além de os descontentar, dificultava o trabalho dos treinadores.

Quando reflete a respeito das principais dificuldades sentidas, Ilhicas evidencia a questão da motivação:

Agora, findado o confinamento, o treinador recordou as principais diferenças – físicas, táticas e psicológicas – que sentiu nos seus jovens jogadores, assegurando que a pandemia veio afetar todas as componentes gerais do futebol.

«Fisicamente, é normal não estarem bem. Na nossa geração, se não jogássemos no campo, jogávamos na rua com amigos. Agora não. Há dez anos, não teria afetado tanto os níveis físicos. Psicologicamente, também não estavam iguais. O tempo parados trouxe-lhes inseguranças, tinham medo de ter a bola. A parte psicológica está aliada à técnica. Se não estiverem bem psicologicamente, não vão conseguir praticar as ações técnicas, táticas e não vão estar bem fisicamente

Passado algum tempo do retorno aos treinos, veio o retomar da competição. A perspetiva de Ilhicas revelou-se, nesta dimensão, distinta da apresentada por Müller – no que diz respeito às alterações na competitividade, o treinador afirma que tanto o Sacavenense como as restantes equipas acabaram por utilizar a mesma estratégia de treino, durante a pandemia.

Por isso, e ao contrário do que seria de esperar, não constatou uma maior discrepância evidente entre os diferentes emblemas. Apesar das inúmeras dificuldades sentidas, o treinador nunca equacionou desistir dos seus objetivos.

E sobre o futuro?

Será que afastamento dos campos pode trazer consequências?

A pandemia COVID-19 tem sido um dos maiores desafios enfrentados pelo mundo moderno e trará consequências duradouras, e a vários níveis, para a sociedade. O desporto será, então, apenas um dos domínios sociais altamente afetados.

Para além de ser um espelho da sociedade, o futebol de formação é a raiz do futebol profissional. Torna-se, portanto, fundamental refletir acerca das eventuais consequências negativas que o afastamento dos campos poderá trazer, no futuro, à modalidade.

Com as competições e os treinos colocados de lado, durante tanto tempo, Flávio Ilhicas considera que, no futuro, se poderão verificar desigualdades entre os países, consoante os diferentes períodos temporais de interrupção impostos pelos Governos.

Por sua vez, José Müller teme que esta paragem traga consequências devastadoras para a modalidade, a curto prazo, estando a falta de sociabilidade e de convívio entre as suas principais críticas.

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