FRIBA FAQIRI

“O Afeganistão não está bom. Portugal é muito bom”: família afegã, refugiada, encontra a esperança 

Garantir a saída de todos os estrangeiros que se encontravam a trabalhar no Afeganistão e retirar, igualmente, do país os cidadãos afegãos em necessidade humanitária foi uma prioridade definida por todos os países europeus e pelos Estados Unidos (EUA). Uma tomada de decisão desde o momento da queda de Cabul nas mãos dos Talibãs, a 15 de agosto de 2021. 

Depois de duas décadas de missão no Afeganistão, Joe Biden decidiu abandonar o país e mandou retirar as tropas até setembro de 2021. O governo britânico seguiu o mesmo projeto de retirada. À medida que se aproximava o fim da ocupação americana, os talibãs iam intensificando uma campanha militar destruidora. Diante do cenário de violência e caos, foi acelerado o corredor de emergência. As imagens de milhares de pessoas vulneráveis a quererem abandonar o país, amontoadas no interior do aeroporto de Cabul e nos aviões ganharam repercussão internacional. Na lista prioritária de cidadãos com saída urgente constavam os colaboradores de países e de organizações internacionais como as Nações Unidas, a União Europeia ou a NATO, ativistas afegãos dos direitos humanos, funcionários da administração afegã, jornalistas, músicos, mulheres desportistas, juristas e engenheiras. 

Friba, 38 anos, foi um destes casos prioritários. Quando os talibãs ocuparam a capital afegã, esta mãe trabalhava como governanta para a embaixada Alemã em Cabul.  Friba chegou a Lisboa a 1 de setembro do ano passado. 

Para além dela, nos últimos quatro meses, já foram acolhidos mais de 750 pessoas dos 3,5 milhões de pessoas, 700.000 só no último ano, que conflito e a insegurança no Afeganistão forçaram a saída. Estes são dados revelados pelo Alto Comissariados das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e pelo Governo português. 

Emal e Sana, do lado esquerdo da imagem, Friba e Soman, do lado direito. Foto: Bárbara Véstia

Foi Friba que nos abriu a porta da casa onde reside em Portugal. Com uma saudação calorosa e um sorriso estampado no rosto, apresentou-nos o resto da família que com ela conseguiu chegar à capital portuguesa. Numa habitação pequena, emprestada provisoriamente por uma benemérita de Oeiras, vive, desde então, com três filhos: Emal, 18 anos, e as meninas, Soman, de 15, e Sana, de 7.  O marido e o quarto filho, o rapaz mais velho, não chegaram a tempo ao aeroporto de Cabul. Não conseguiram, por isso, entrar nesta ponte aérea de emergência que as tropas internacionais, sobretudo norte-americanas e britânicas, conseguiram tornar possível desde a capital afegã até a países mais seguros. 

… MAS até aqui chegarem não foi assim tão simples…

Friba perde, por momentos, o sorriso e o olhar mostra-se mais triste, ao recordar esse dia da separação da família. No final do último quente mês de agosto, viveu um dos momentos de maior terror da sua vida. Confessa-nos que estava acostumada a assistir a conflitos armados, violentos, nas ruas de Cabul, mas nenhum acontecimento foi tão grave como a última ocupação talibã. 

Em voz pausada, num inglês possível, porque ainda não teve tempo de aprender bem português, explica-nos na primeira pessoa os dramas daqueles dias: ”Os talibãs não gostavam de mim e da minha família por eu ser independente, por trabalhar como governanta para uma embaixada ocidental, europeia.  Achavam que eu era uma traidora.” Emal, o filho com um dom para a pintura, reforça as palavras da mãe e diz-nos ‘’ os talibãs não gostavam que a mãe fosse às compras. Os Talibãs querem as mulheres fechadas. Não podem ir à escola.  Mães e filhas só devem ficar em casa.’’ 

Nestas memórias de pesadelos a duas vozes, Friba lembra: “Foi por isto que os talibãs invadiram a minha casa gritando FRIBA!!! Viemos para te matar. Destruíram tudo! O meu marido foi agredido com uma Kalashnikov ao tentar salvar o que era nosso. Durante esta situação confusa, consegui fugir com os meus três filhos mais novos. O medo e o desespero tomaram conta de nós”. 

Durante esse percurso, entre casa e o aeroporto, Friba conta que viu crianças e mulheres, mães, a cair. Havia disparos das armas talibã para todo o lado. Soman e Sana, as mais pequenas, choravam. O desespero era tal, lembra, que “no meio de milhares de pessoas no aeroporto furei, empurrei. Queria chegar junto dos militares para que salvassem os meus filhos. A Sana, de 7 anos, chorava apavorada. Os americanos deixaram-nos entrar, porque eu tinha um cartão de trabalhadora de um país da União Europeia”. 

Os talibãs defendem a aplicação de uma interpretação radical da sharia, a lei islâmica. É, por isso, conhecido por promover açoitamentos, amputações em público e  execução de opositores. As mulheres são as que mais sofrem com a violência fundamentalista dos Talibãs. Estão proibidas de trabalhar e estudar. Não podem andar sozinhas nas ruas. São obrigadas a usar burca. As punições para as incumpridoras destas regras fundamentalistas são bastante severas, podendo chegar à morte.

Representa toda a tristeza que uma princesa, como a Soman, passou.

Friba, emocionada, recorda que ainda viu o marido, ensanguentado, a correr para tentar chegar ao aeroporto. Não conseguiu entrar e embarcar antes do final da operação de retirada. Para trás ficou, também, Roman. O filho mais velho não estava em casa, na altura do ataque talibã. Os fundamentalistas, agora no poder, não o deixaram, também, chegar ao aeroporto. Friba, confessa-nos que adormece, todas as noites, em lágrimas. Culpa-se por não ter conseguido, também, trazê-lo com ela. Desconhece-lhe, neste momento, o paradeiro. A última vez que conseguiram notícias de Cabul, o marido estava hospitalizado. Para trás ficaram, ainda, “a minha irmã, o meu irmão, a minha cunhada e a minha mãe, doente”.  

Esta nossa conversa com Friba é acompanhada por Dulce Machado. Dulcinha, para esta família. A Presidente da Associação EntreMundos, que os apoia e ajuda, também, nas traduções durante esta entrevista. Por vezes, o inglês mistura-se com a língua materna, Cari, que Dulce vai dominando.  A associação humanitária tenta, com a ajuda internacional, reunir a família. Os contactos legais com as autoridades em Cabul não têm sido fáceis, admite Dulce Machado. 

Friba prossegue a memória desta viagem. Conta-nos que no interior do aeroporto de Cabul estiveram apenas 24 horas. “Embarcámos no dia seguinte para Islamabad, capital do Paquistão, daí seguimos depois para Madrid.

by Emal

 

Foram dias confusos e muito duros. Emal não dormia para as irmãs e eu dormirmos. Tínhamos um olhar perdido, de preocupação, pelos que deixávamos para trás. Se, por um lado, sentíamos o alívio, por nos termos salvado de uma morte quase certa, por outro lado, estávamos a saltar para o desconhecido, para um mundo que não conhecíamos, sem saber como sobreviveríamos.”

Friba e os três filhos chegaram ao aeroporto de Lisboa a 1 de setembro de 2021. Num tom reconhecido, diz-nos “Portugal é bom, muito bom. As mulheres são iguais. Soman, Sana, Emal e eu vamos à escola”. Emal frequenta o 10º ano e Soman, na mesma escola, a secundária Luís Freitas Branco, o 7º ano. Sana, também, entrou para a escola primária, mal chegou a Portugal. A mãe, Friba, senta-se, alguns dias da semana, no banco da sala de aula de português. No dia 12 deste mês – altura em que ainda estávamos a editar esta reportagem digital – soubemos da excelente notícia de que a mesma fora aceite na Escola de Hotelaria que tanto desejava frequentar.

A dirigente da EntreMundos, uma associação sem fins lucrativos, vai participando nesta nossa conversa com a família afegã. Dulce Machado confessa: “todo o dinheiro que se ganha na associação é para usarmos com as famílias nos nossos projetos. Tudo o que tem a ver com o trabalho da associação tem também a ver com donativos”. 

A Associação EntreMundos, apoia, neste momento, sete famílias, refugiadas, vindas de diferentes países. Para além de Friba e dos seus três filhos, há auxílio, também, para pessoas do Sudão, Paquistão, Angola e Moçambique. 

A EntreMundos recebeu estas famílias da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) para acolhimento e acompanhamento. Antes disso, houve, como sempre acontece nestes processos, um envolvimento de várias organizações. Os refugiados ou requerentes de asilo chegam a Portugal ao abrigo dos programas europeus desenhados para o efeito e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR). São recebidos pelo Centro Português para os Refugiados (CPR), o representante português no ACNUR. Caberá à Plataforma de Apoio aos Refugiados a mediação com os organismos da Administração Pública responsáveis pelo tratamento administrativo do acolhimento, nomeadamente o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e o Alto Comissariado para as Migrações (ACM). 

Dulce e os voluntários da EntreMundos têm, também, projetos de apoio a cidadãos portugueses carenciados: ‘’ Somos cidadãos empenhados e comprometidos em intervir para a diminuição das desigualdades e na criação de oportunidades efetivas para todos aqueles que apoiamos”, remata Dulce Machado. Esta professora primária, de 40 anos, descobriu, na Grécia, esta vocação pelo auxílio humanitário. Durante alguns anos, passou as férias escolares de verão, como voluntária nas ilhas gregas. Em 2019 esteve em Lesbos, no campo de Moria. Trabalhando em várias associações internacionais aprendeu como apoiar psicologicamente e afetivamente homens, mulheres e crianças que, de um dia para o outro, se sentem obrigados a deixar as suas casas, as famílias, os seus países e a própria dignidade. 

Do campo de refugiados de Moria, entretanto destruído por um violento incêndio, trouxe muitas histórias. Uma, em particular, não lhe sai da memória. Dulce Machado colocou em livro a vida de um pai que, todas as noites, contava estrelas ao filho. Nesse livro, Dulce conta que Moria albergava milhares de pessoas, sete vezes mais a sua capacidade. Durante o dia aquele pai, por medo dos perigos, da ausência de higiene, não saía da tenda com o bebé já nascido no campo. A mãe atravessou o mar Egeu, entre a Turquia e a Ilha grega de Lesbos, já muito grávida. O pequeno olhava o sol através da exígua janela da tenda. À noite, o pai aproveitava o sossego, saía com o bebé no colo e contava as estrelas do céu, dizendo que elas estavam lá para o proteger. 

Com a venda deste livro baseado na vida real, Dulce Machado conta ajudar mais famílias com a de Friba. No dia de lançamento do livro estavam também à venda desenhos de Emal e Soman. Os dois irmãos expressam com a ajuda de desenhos os perigos e os traumas por que passaram em Cabul. O jovem de 18 anos admite mesmo que se tivesse ficado no seu país não tinha escolha: “Em Portugal é muito bom, posso ser ilustrador e jogar futsal. A minha irmã Sana já anda no Ballet e a Somam gosta da escola”. Destes meses em Portugal, para além dos momentos passados nas aulas, com novos amigos, recordam nesta nossa conversa o dia que mais gostaram. Foi o dia em que Dulce os levou à praia. Nunca tinham visto o mar. Emal, em sinal de reconhecimento, diz-nos olhando para Dulce: “quando saí do Afeganistão tinha uma só mãe, agora tenho duas”. 

A emoção das boas e más memórias preenche os dias desta família, de Dulce e de todos os voluntários da EntreMundos. 

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Dulce Machado, Presidente da Associação EntreMundos, e a Família de Friba. Foto: Bárbara Véstia

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