Francisco Évora: (re)correr à memória

André Nóbrega, Ana Valente e Sebastião Barata

Francisco Évora chegou tarde ao atletismo, mas nem por isso desenvolveu uma menor paixão pelo desporto. Quando julgava que era na pista que encontraria os maiores obstáculos, eis que, tal como havia acontecido com o seu pai duas décadas antes, é atropelado quando, no horizonte, vislumbrava novos planos para a sua vida. A corrida passou a ser outra: na cama de hospital, a recuperar a memória do último ano que lhe fugira após o acidente.

AOS SEUS LUGARES, PREPAREM-SE…

A primeira memória que Francisco tem é geral. Recorda, acima de tudo, uma infância saudável: foi um rapaz traquina na escola, mas com bons resultados; apesar de ter vivido o início da sua vida no então problemático Bairro da Biquinha, nunca sentiu a sua segurança em risco; e sentiu-se sempre amado pela mãe e pelo padastro, a quem sempre chamou pai.

Do seu pai biológico lembra-se somente de relatos de familiares. Faleceu na Holanda, tinha Francisco apenas dois anos, em circunstâncias que o filho só conheceria em concreto quando chegou ao quinto ano.

PRIMEIRO OBSTÁCULO

O quinto ano trouxe-lhe o primeiro turbilhão de emoções na vida. Foi nessa altura, com 10 anos de idade, que conheceu o irmão do seu pai biológico, que viera a Portugal conhecer o sobrinho. De um lado, perdeu um familiar querido e próximo; do outro, começou “a ter uma terceira família”, a do seu pai biológico, que até então era “’fictícia’”. Ficou também a conhecer os detalhes da morte do seu pai: atropelado numa passadeira na Holanda, “assim que saiu do exame de inglês”.

Com o passar dos anos, o pai biológico de Francisco passou a representar somente isso, “o pai biológico”, admitindo que “pai é quem cria e quem dá educação. Não somente quem o faz”. Por essa razão, o atual agente da PSP não consegue olhar para o pai afetivo como um «padrasto».

ALARGAR A PASSADA

Depois da tempestade, veio a bonança. Francisco recuperou o ano que reprovou e regressou às boas notas no sexto ano. A grande mudança, contudo, viria no ano seguinte, quando os pais o mudaram de escola, desta vez para uma zona menos problemática daquela onde até então vivia. Completou o ensino básico na nova escola com boas notas e confortável no ambiente que agora integrava.

Chegado ao secundário, desligou-se da escola e reprovou no 10.º. Mas se antes tinha reprovado “por faltas”, agora a única falta era o interesse. Tudo por um novo amor: o atletismo. “Era o rapaz mais rápido da turma, então ela convidou-me”. Esta ela é a sua grande amiga Márcia, então atleta do C+S de Lavra, que levou Francisco pela primeira vez para a pista de atletismo. O entusiasmo pelo desporto foi grande e foi lá que foi criando novos e insubstituíveis amigos. Não é por acaso que as melhores recordações que mantém desses tempos nem sequer são as suas vitórias em prova.

Durante os 15 dias de estágio, Francisco e os amigos “conviveram como uma família”, e foi esta nova (mais uma) família que o viu, durante a época 2012/2013, a “bater o recorde pessoal em tudo”. Desde os 100m aos 400m, passando pelos 200m e pela não-oficial prova de 300m.

Fora da pista, já se viam outras promissoras metas no horizonte. A fisioterapia chamava por ele, e para lá chegar planeava entrar, primeiro, na Faculdade de Desporto, para depois do primeiro ano pedir transferência para o curso desejado. Até já andava a assistir às aulas de biologia para repetir o exame com o objetivo de melhorar a média.

QUEDA A MEIO DA PISTA

Perspetiva das testemunhas oculares do acidente

Na noite do dia 10 de maio de 2013, Francisco é atropelado por um condutor que, alegadamente, ignora o sinal vermelho. O carro intrometeu-se não só no seu habitual caminho para casa, mas também nos planos que já tinha para o próximo ano, à semelhança do que havia acontecido ao seu pai biológico duas décadas antes.

Quando acordou do coma ao fim de 3 dias, reconheceu apenas o padrasto. Tinha dificuldades em reconhecer caras e associar-lhes nomes, e demorava ainda alguns minutos a perceber quem eram as visitas que iam passando pelo seu quarto de hospital. O ano anterior foi-lhe também apagado da memória e, ainda hoje, do acidente em si e das primeiras semanas de internamento, Francisco não se recorda de nada a não ser alguns flashes.

RECUPERAR O FÔLEGO

Ao fim de pouco mais de um mês, Francisco teve alta do Hospital de S. João. Os pais aconselharam-no a não fazer os exames para os quais se tinha inscrito, pois queriam que repousasse primeiro. “Borrifei-me para aquilo [os conselhos]” e lá foi, valendo-lhe reprimenda dos progenitores, que o chamaram “teimoso, casmurro, e outros nomes acerca disso…” A convicção não se traduziu, infelizmente, em resultados positivos, e não passou nem no exame de português, nem no exame de biologia.

Também na pista, onde voltou com menos 10kg, teve dificuldades em readaptar-se, dado o desequilíbrio. Valeram-lhe, sobretudo, os companheiros, que brincavam com ele sempre que trocava alguns dos nomes, e o pai, espectador atento nas bancadas e que, no resto do dia, se preocupava incansavelmente com a recuperação do filho afetivo, dando-lhe livros para ler ou ligando-lhe durante a tarde.

NOVAS METAS

O ingresso no ensino superior foi colocado de lado com o “medo de fazer exames, porque ia tirar negativa”, decidindo tomar um novo rumo: concorrer ao exército, ambição que tinha antes de entrar para o atletismo. Concorreu às operações especiais e aos comandos, tendo boas notas no concurso e terminado com uma média de 17. Mas um detalhe insólito declarou-o inapto nos testes médicos. No relatório dizia “montes de nomes específicos”, mas tudo se traduzia no seguinte fator de exclusão: colesterol alto.

Começou então uma dieta e esperou 90 dias para voltar a concorrer, acabando por entrar no exército, numa altura em que abriu também o concurso para a PSP e para a GNR, aos quais concorreu. “A GNR nunca me chamou a atenção, para a PSP concorri mais a sério”. Teve média final de 15,5. Dos 300 que entravam, ficou em 291º. Aí, tinha de optar: PSP ou exército. Desistiu do segundo e aventurou-se no primeiro: “já tinha a guia de marcha para me apresentar em Lamego no dia 13 de abril, mas uma semana antes desse dia saiu a lista final para agentes da PSP. Tomei a decisão de seguir a carreira policial, concorri em 2014 e comecei o curso em 2015”, tendo terminado no dia 18 de março de 2016.

Depois disso, veio para o sul. “Só tinha vaga para Beja ou Castelo Branco”. Optou pela primeira simplesmente por estar primeiro na ordem alfabética. Foi para o Alentejo durante um ano e três meses mas arrependeu-se, quer pelos benefícios que podia ter tido em Castelo Branco, quer pelo ambiente da sua nova cidade.

Ao fim desse ano e três meses, veio para Lisboa. Para ele, é um ambiente mais desafiante do que o do Porto e certamente mais aliciante do que o do Alentejo, apesar de manter o desejo de regressar à sua terra natal.

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