Filipa Jales: No relvado quem apita é ela

Por Catarina Figueiredo, Rui Alves de Sousa e Ysamar Lobo.

Filipa Jales foi jogadora de Rugby profissional no Sport Lisboa e Benfica e, quando fez trinta anos, pendurou o equipamento vermelho e vestiu a camisola de árbitro.  Como praticante da modalidade, ao longo de mais de 10 anos de carreira, Filipa foi nove vezes internacional pela Seleção Portuguesa de Rugby Feminino.

Foi depois ter chegado ao pico da sua carreira de atleta, que sentiu que tinha chegado a hora de realizar uma retirada triunfal. No momento em que percebeu que, a partir desse ponto, “o seu percurso seria sempre a cair”, decidiu não voltar a praticar rugby, mesmo sabendo que, apesar de tudo, poderia ter continuado. “Há jogadoras excelentes já na casa dos 40 anos, mas fui eu quem decidiu seguir outro caminho”.

O seu encontro com a arbitragem foi fortuito: nunca chegou “a pensar, enquanto jogadora, que podia ser arbitra”. Foi Carlos Nobre, ex-director da Secção de Rugby feminino do SLB, o autor do empurrão que colocou Filipa dentro do mundo da arbitragem. Filipa conta que um dia este “pegou no telemóvel e ligou para a Federação Portuguesa de Rugby” informando que tinha “uma miúda com jeito para aquilo”.

Filipa iniciou o seu percurso num torneio Infantil de Sub-8, Sub-10 e Sub 12, mas rapidamente passou a integrar os quadros da federação portuguesa de árbitros, apitando torneios de Sub-16 e Sub-18, logo na sua primeira época. No início, olhava para a Liga de Honra a pensar “que nunca estaria a arbitrar aquilo”, na altura parecia-lhe “confusão a mais”. Mas “tudo teve uma evolução natural e as oportunidades foram aparecendo”, devido ao seu esforço e ao voto de confiança que lhe deram figuras como Ferdinando de Sousa, actual director técnico de arbitragem, e Manuel Barros, ex-presidente do conselho de arbitragem.

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No ano de 2014, Filipa Jales foi nomeada pela Federação Portuguesa de Rugby como o melhor árbitro do país, numa eleição sem distinção de géneros. Na atualidade, é o árbitro que menos cartões amarelos tira. Explica que isto pode ser interpretado de duas maneiras. “A primeira delas é eu ser demasiado permissiva, mas eu gosto de pensar que consigo manter o controlo durante o jogo”, diz entre risos.

Confessa que arbitrar homens pode ser duro, e que até já perdeu a conta de quantos dedos e ossos partiu no decorrer destes últimos anos. Contudo, não tem medo de correr ao lado “de homens com mais de um metro e oitenta, grandes como armários”. Afirma que, “o rugby requer muito sacrifício”, com um sorriso na cara, demonstração do amor que tem pela modalidade a que se dedica há mais de 15 anos.

No entanto, não se deixa levar por esse prestígio. Humildade e modéstia são os adjectivos que melhor se adequam àquela que é, sem sombra de dúvidas, a mulher mais bem-sucedida no mundo do rugby em Portugal. Filipa confessa que muitas vezes vê, com assombro, a importância que lhe é dada. “Muitas pessoas dão mais mérito ao que eu faço que eu própria”. Para ela tudo é natural, uma vez que faz “aquilo de que gosta” e que é a paixão da sua vida.

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Jales arbitra partidas de rugby de sete, de dez e de quinze jogadores, maioritariamente masculinas. “Tenho muita pena de não poder arbitrar mais jogos femininos, mas a verdade é que aqui em Portugal temos poucos árbitros”, admite. Na sua carreira, a prioridade é sempre dada à arbitragem, mas não dispensa a sua faceta de treinadora.  A direção técnica dos Dark Horses é mais um desafio para a Filipa. Trata-se de uma equipa masculina da Liga dos Emergentes, que se caracteriza por ser inclusiva: uma equipa aberta a todas as pessoas que queiram praticar rugby e entrar no espírito, independentemente da sua orientação sexual, estatura e ideologias.

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Quando questionada sobre o facto de o rugby ser um desporto mais associado à figura masculina, tal como a arbitragem, afirma que sempre foi tratada como igual e que nunca foi discriminada ou criticada por ser mulher e exercer estas tarefas na modalidade. Aqui, distingue um pouco o rugby do futebol, afirmando que são desportos muito diferentes, ao contrário do que se pensa. “No futebol há a tradição de insultar o árbitro. No rugby isto não acontece, até porque os próprios jogadores nos respeitam e estão sempre a favor as regras do jogo, o que me permite tirar um cartão amarelo sem que eles questionem as decisões da arbitragem”.

Filipa realça a particularidade do rugby em comparação com outras modalidades: “Este é um desporto de sangue, na medida em que uns cuidam dos outros” e é um desporto “onde as pessoas têm maneiras de ser e estar diferentes”. Admite considerar que “aquilo que faz seria muito mais difícil no mundo do futebol” e tem pena que não existam mais mulheres árbitros.

Quando esta etapa da sua vida terminar, quer passar os seus conhecimentos a outros apaixonados pelo rugby, para que consigam ter tanto ou mais sucesso que ela. Assim, Filipa deseja que o rubgy continue presente, e se possível, com mais força e relevância do que a que possui actualmente em Portugal.

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