FAKE NEWS E O VIÉS DA FAMILIARIDADE EM CIÊNCIA

Uma das descobertas mais antigas da história da psicologia é o “mero efeito de exposição”. Somos atraídos pelo que já conhecemos, e esse viés realmente importa quando se trata de media digital e o fenómeno das fake news. Uma vez que algo se torna memorável, tendemos a confundir familiaridade com  facto.

“Esta é uma das grandes razões pelas quais é difícil desfazer o mito na televisão ou o mito no jornalismo, porque às vezes a mera repetição desse mito influencia o público para pensar que é verdade”, diz Derek Thompson, autor do livro A Ciência da Popularidade na Idade da Distracção. A mera exposição das notícias, a nós, sugere-nos pensar que essa notícia é verdadeira. Não há algoritmo que resolva o problema das fake news distribuídas através do facebook, só mesmo um humano o poderá fazer. A resposta a um problema de falta de ética humana nos mercados de informação é a introdução de mais humanos e mais ética, defende o autor.

Um problema semelhante, não relacionado com fake news, mas com o viés da familiaridade, pode ser encontrado nos mitos da ciência de hoje – em particular na Física Teórica.  A tentativa de os desmistificar  – em que basta a palavra Física para aterrorizar a maior parte dos interlocutores –  é o equivalente a embater numa muralha de cepticismo, mesmo pelos mais inteligentes e éticos, numa forma que mima o exemplo e a explicação de Derek Thompson. Quando expostas a uma quantidade enorme de informação, vinda de todos os lados, muita dela com origem muito credível, o público forma uma opinião  enraizada e é muito difícil ultrapassar essa barreira.

Dá vontade de experimentar a mesma técnica – expôr a audiência a uma boa quantidade de informação em defesa de uma discussão ética e com alguma profundidade que adereça os mitos da ciência, vinda da mais credível ou mais sui generis fonte – e ver o que acontece.

Comecemos.

O PRIMEIRO MITO – A FÍSICA ESTÁ BEM E RECOMENDA-SE.

Não é verdade. A Física esteve bem durante 3 séculos, até meados do século XX e com todo esse tempo, que todos estudamos em História,  habituamo-nos a ver a Física como a fonte de descobertas e invenções que nos ofereceu as sofisticadas tecnologias hoje temos ao dispor da humanidade. Inegável.

A Física não está bem, hoje, no século XXI e o mundo ignora os sinais dessa crise. Vejamos alguns exemplos.

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Tal como na política, muitas vezes as verdades são divulgadas pelas vozes de comediantes e muito recentemente pudemos assistir, acompanhado de boas gargalhadas, à descrição da crise na Física num episódio da série televisiva A Teoria do Big Bang (T11-ep2).

Leonard é entrevistado numa radio nacional e a coisa não lhe corre bem.
[“Não é nossa obrigação como cientistas dizer a verdade?” pergunta ele quando confrontado com a desaprovação dos seus pares e a reprimenda da responsável pelo financiamento privado do Departamento de Física, que lhe pede uma retracção pública, sob a  ameaça de possível despedimento. Todo o episódio revela a realidade da redução do financiamento na Física, enquanto novos equipamentos chegam ao laboratório de neurociência da Amy e nenhuma crise existe na investigação dos laboratórios da industria farmacêutica, onde trabalha a Bernadette. Vale a pena ver todo o episódio. ]

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Curiosamente, a maior parte das críticas chega às redes sociais pela voz de estudantes, jovens cheios de hormonas, que partilham hilariantes memes em grupos de nerds do facebook.

Obviamente que estes memes não são piadas que o leigo consiga compreender à primeira, mas o tema é a crise na Física. Cinco anos após a descoberta do bosão de Higgs, que se limitou a “confirmar” uma previsão do modelo padrão das partículas, uma teoria  derivada da Mecânica Quântica, mais nada de interessante foi descoberto – principalmente nada foi descoberto que dê novas pistas sobre qual o caminho para ultrapassar a crise nesta Ciência. Uma crise, em ciência, acontece quando se acumulam “anomalias”, sejam elas previsões que não se confirmam – caso da Supersimetria na Física das Partículas,  ou previsões que não aderem aos resultados observáveis – caso da constante cosmológica, na Teoria Quântica de Campos. 

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Alguns desses jovens estudantes são tão talentosos que é quase uma pena vê-los desistirem de uma carreira em Física e para se tornarem youtubers de sucesso. Perde a Física, ganha a Comunicação de Ciência.

A letra original desta música do grupo Queen- Bohemian Rapsody, transformada em Bohemian Gravity, é um desabafo de Tim Blais, um estudante de mestrado em Física Teórica, que acabou de entregar a sua tese sobre Teorias das Cordas. A Teoria das Cordas, ou Theory of Everything, pretende juntar Teoria Quântica e Relatividade numa única e “bela” teoria. O que não é assim tão conhecido, e que Tim Blais maestralmente revela, é que estas duas teorias pilares da Física Moderna são incompatíveis entre si, e quando modeladas em conjunto, matematicamente, dão origem a termos de valor infinito, ou seja, becos sem saída, que desesperam os investigadores. As tentativas de solução do problema são inúmeras, mas sem grandes progressos. Para melhor compreender a letra, é preciso identificar os sinónimos de infinito: divergir, não-renormalizável, ∞ .

 

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Muitos físicos têm a consciência de que a sua ciência está a passar um mau período, mas poucos o revelam fora da comunidade. Na verdade, são raros os físicos o fazem publicamente e quando o fazem sofrem as consequências dessa ousadia.

Lee Smolin, físico teórico do prestigiado Perimeter Institute of Theoretical Physics, conta essa história numa linguagem acessível a leigos. Este livro de Lee Smolin é um dos raros exemplos, assinado por um membro ‘credível’ da comunidade científica, onde a crise da Física é explicada com detalhe. Oiça aqui o podcast do capítulo “Introdução”, um bom resumo do livro, lida por Laura Valadas, a partir da edição portuguesa ‘O Romper das Cordas – Ascensão e Queda de uma Teoria e o Futuro da Física’, Tradução de Daniel Tiago Alves Ribeiro e revisão científica de Carlos Fiolhais. [duração, 57 minutos].

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Às vezes a verdade é desvendada sem querer, por comunicadores de ciência, ou cientistas cuja área de especialidade é adjacente, que se sentem desresponsabilizados, limitando-se a um olhar de fora,  para a crise que afecta esta Ciência.

Numa sessão de perguntas do público, em 2014, Niel deGrasse Tyson, astrofísico, revela a posição mais comum da comunidade científica no que ao estado de crise da Física diz respeito – “Estou a perder a confiança, mas não desvendo voluntariamente a minha opinião. Tem de me ser perguntada”.

 

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Professores eméritos, laureados prémios nobel, ou que já não têm nada a perder, nem em termos de posição na Academia, estatuto social, nem de colocar o seu emprego em risco, mais facilmente  expõem as suas reservas, mas nem sempre directamente.

Uma excepção, é o caso de Steven Weinberg, prémio nobel da física, que desde finais de 2016 tem feito uma forte campanha para o público, cientistas e financiadores da ciência, que inclui palestras, vários artigos em jornais de grande difusão como o Que se passa com a Mecânica Quântica? no site do New York Review of Books, onde Winsberg se dá até o direito de responder publicamente aos que criticam a sua nova posição. Uma novidade que deve ser ressaltada.

Diz Steven Weinberg, na Patrusky Lecture, 2016, “What’s the matter with quantum mechanics?’: “Já não estou tão satisfeito com a mecânica quântica como costumava estar, nem tão arrogante com os que a criticam. É mau sinal quando aqueles físicos que satisfeitos com a mecânica quântica e não lhe veem qualquer problema, também não conseguem concordar entre eles no que ela significa.’ [17’30”]. [Palestra com a duração de uma hora]

 

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Alguns financiadores privados de ciência têm especialistas a estudar as áreas mais promissoras da ciência e não têm qualquer  problema em o expôr com muita frontalidade em canais de grande audiência, como o Big Think.

Eric Weinstein, matemático e economista, analisa o estado da Física e pergunta: “Foi Einstein que errou, ou terá o ‘groupthinking’ contribuído para nos levar pelo caminho errado nos últimos 40 anos?”

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A crise na Física está exposta, mas só para quem está atento e disposto a ultrapassar o viés da familiaridade. Os investigadores sentem na pele a redução do financiamento público, os estudantes repensam se valerá a pena uma carreira em investigação, os investidores privados diversificam para áreas mais promissoras e somente os acham que já nada têm a perder ousam evidenciar a grave situação nesta ciência.

A maior parte da comunidade científica espera que a crise se resolva sozinha, com um momento de serendipidade,  provavelmente de alguém desconhecido, possivelmente externo à actual comunidade de físicos.

[continua]
2ª parte: O segundo MITO: A MECÂNICA QUÃNTICA É O MELHOR QUE TEMOS E NÃO HÁ ALTERNATIVA.

 

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