EUBRITE: UM OLHAR SOBRE A DIFERENÇA

 

Jarbas Krull, conhecido como Eubrite, veio do Brasil da cidade da Bahia, e, chegado a Portugal, se encontrou com a vontade de dar a conhecer uma forma irreverente de arte nas ruas de Lisboa, descobrindo, consequentemente, uma parte de si mesmo. Eubrite considera-se uma personagem “fora da caixa”, tencionando fazer da sua passagem algo de excecional e inesquecível, através de uma patinagem ousada e performativa. Nas ruas lisboetas, dança, exibindo uma variedade de movimentos, passos e saltos desafiantes que, sobre patins, ganham uma notoriedade incontornável, sendo efetuados com grande precisão, agilidade e elegância. A calçada portuguesa é o seu palco de eleição e a música de Britney Spears é o som basilar das suas coreografias, o artista facilmente se percebe como atípico e inconveniente é a calçada portuguesa para esta prática, desafiando o patinador a aperfeiçoar a sua técnica.

“Quando eu falo de Eubrite, eu sinto a liberdade para todo o mundo conhecer parte do Jarbas, que é inteiro”.

 

Eubrite não se apresenta separada de Jarbas. Não edifica uma cisão. Ao invés, dá corpo a um Jarbas diferente, que não é ele, nem ela – um Jarbas especial. “Desde que me entendo como pessoa, o que não faz muito tempo, a Eubrite sempre existiu e sempre existirá”. Comparando-a a um diamante, Jarbas admite uma filosofia lapidar na relação que assume com Eubrite, que todos os dias lhe dá uma lição de vida. Jarbas confessa que stressa com muita facilidade e que Eubrite lhe traz calma e serenidade. Ao mesmo tempo, identifica Eubrite como detentora de uma individualidade mais interessante e carismática. Eubrite conta que, durante as 24 horas de um dia, ela tenta equilibrar as suas particularidades, para que o seu público disfrute de “uma sensação de perfume agradável e marcante”. Apesar de não estabelecer uma divisão entre Jarbas e Eubrite e, aliás, de aceitar a última como peça do primeiro, Jarbas também lhes reconhece singularidade. A essência de Jarbas é uma, a de Eubrite é outra. No entanto, ambas se complementam. A manifestação de Eubrite é, agora, celebrada no empréstimo que Jarbas faz do seu corpo. Jarbas diz que, se tivesse de escolher entre ele e Eubrite, preferia morrer, sendo que nenhum vive de forma independente do outro.

Eubrite pode ser anunciada numa palavra: atitude. Mas, não se concebendo numa só definição, entrega-se como a possibilidade de vários caminhos, de vários olhares, de várias necessidades. Consagra-se assim a quem se dispõe a senti-la. Figurando a qualidade feminina de Jarbas, parte do seu empoderamento prende-se com esta personificação, que compreende uma força de resistência aos padrões e tendências estéticos, físicos, sociais, que, muitas vezes, carece em Jarbas. Desta forma, Eubrite pretende ser a imagem da abertura para novas oportunidades de encontro com a felicidade, da possibilidade de abrir caminhos alternativos àqueles que são sistematicamente percorridos e conservados. O retorno ao “eu, Jarbas” é um movimento complicado. Jarbas descreve-o como “descompondo um diamante”, retratando cada “retirada” daquilo que Eubrite representa. Mesmo assim, não desvaloriza a sua existência enquanto Jarbas, uma vez que ele é fundamental para a fulguração de Eubrite.

“Eu não sou a bagunça, nem a desordem. Eu sou um corpo que representa a arte. Eu sou a princesa que a Disney não tem”.

 

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Eubrite emergiu, também, como resposta à mitigação de uma outra personagem de Jarbas – a Nega Maluca, uma boneca “que representa, também, o estado de onde eu sou”. Esta não era acarinhada, ou desejada, sendo motivo de agressões e insultos que acusavam Jarbas, também afrodescendente, de desrespeitar a comunidade negra. “Os meus próprios diziam que eu estava brincando com a etnia deles”. Jarbas abstém-se de qualquer tentativa de diminuição ou enaltecimento, afirmando que, “na visão artística”, ele é só um corpo. “Eu sou um corpo emprestado para a arte.” Parte do aparecimento de Eubrite é uma reação à frustração da sua antecessora e Jarbas questiona a aceitação de Eubrite por parte da generalidade do público. Ainda não descobriu se foi uma resposta pessoal ou social. “Então, ela surgiu loira e pop… Engraçado que ela foi aceite”. Há quem o acuse de se “americanizar”, mas Jarbas explica que esse não é o seu verbo e que a circunstância fê-lo entrar e fortalecer um outro perfil. Eubrite surge, então, da necessidade de reencontro e de transformação, mas Jarbas aplica a ideia de necessidade como sendo indissociável à ideia de capacidade. A primeira dá força à segunda e a segunda despe a primeira. “Eu aprendi que tinha essa capacidade, não só necessidade”. A confluência das duas trouxe-lhe uma pessoa que Jarbas defende ser melhor e melhorada. Aliás, Jarbas acredita que todos têm essa capacidade de desconstrução e de transformação. Porém, nem todos a utilizam.

 

 

A adversidade que, até aos dias de hoje, Eubrite identifica como sendo a mais significativa é referente à sua própria aceitação enquanto artista, independentemente da sua sexualidade, que reserva na sua privacidade. Refere que sofreu discriminação, mesmo “em frente ao espelho”, uma vez que aceitar algo de novo e distinto é sempre um processo difícil, até quando é concernente ao próprio. Este bloqueio é frequentemente encontrado nos outros, mas, tal como fez consigo mesma, não deixa de considerar cuidadosamente essa posição de relutância. Eubrite admite-se como a promessa de uma viagem, de um
voo. O seu espaço é a pista de descolagem de um avião onde podem caber todos os transeuntes. Porém, sabe bem que há quem não goste de levantar os pés do chão, ou pelo menos, quem ainda não madurou essa sensibilidade. Apesar de o reconhecer, não acha que deva ser incisiva na sua imposição. Gostaria de que todas as pessoas estivessem dispostas à diferença da sua presença, mas recebe, com respeito, a estranheza que os outros sentem. É isso que pede, também – respeito. “A atenção é voltada para esses olhares com respeito. Ninguém deve ser obrigado a voar”. Contudo, constatar o incómodo naqueles que com ela se cruzam não deixa de afetá-la. O desconforto da sua assistência atinge-a, inevitavelmente. Para contrariar esta resistência, Eubrite pinta-se e veste-se “dando cor à sua alma”, assumindo-se como uma representante das pessoas que não têm coragem para se “libertarem das correntes”, acreditando que a empatia é decisiva para a rotura dessas amarras. A necessidade de se manifestar artisticamente deu expressão a uma personagem que acredita poder ser um estímulo para outros suplantarem os obstáculos que os constrangem.

 

 

 

 

Quando questionada sobre o pior momento que já viveu durante as suas atuações, Eubrite diz que “premiar um momento como o pior é um troféu desnecessário”, mas, aqui, entra numa divisão muito sensível da sua vivência – aquela da intimidade e da sensualidade. Aponta para um episódio despudorado de um homem que a “viu nua no seu pensamento”. Esta sexualização implica-lhe um grande desgaste emocional. O desejo sexual que lhe impõe uma nudez indesejada coloca-a num angustiante desconforto, contaminando, igualmente, a visão com que os outros espetadores experienciam a sua performance. Eubrite afasta as suas atuações do campo da sensualidade quando atada à atração física e vontade sexual. Não é isso que pretende trazer. “A parte íntima da Eubrite pertence ao Jarbas”. Diz que se esforça para fugir dessas situações, mas que nunca sabe quais os olhares que a vão receber. ”Quando alguém te despe sem autorização, é o cúmulo do absurdo para um artista e para um ser humano.” Eubrite conta que estas situações a arrastam para uma guerra com ela mesma, fragilizando a sua existência, a sua moral e todo “o contexto de respeito que criou na sua trajetória”. “Uma pessoa, por um segundo, tira tudo de você e faz você ficar sem roupa”. O seu figurino é pensado segundo esta reserva, que Eubrite protege e reivindica. Os trajes torneadores que veste servem para assinar as curvas de “uma beleza natural”, mas não para arrancar o desejo da nudez que os fatos escondem. Todo o seu corpo é revestido, porque a pele nua poderia representar aquilo que Eubrite não quer. Sobre os melhores momentos, elege todos aqueles em que consegue arrancar um olhar aos olhos que lhe resistiam. A abertura, o apoio e elogio daqueles que a seguem e celebram são a maior motivação de Eubrite, que persiste devido, em parte, a esse carinho e recetividade.

 

 

Se pudesse desenhar o futuro, mesmo acusando o futuro de ser uma dúvida universal, desenharia um mundo com mais aceitação e tolerância, onde a paz não dependesse de uma busca constante e o amor e respeito pudessem instituir-se numa tal constância. Pensa no futuro como “uma semente que está para virar uma árvore, que está para ser a sombra de alguém, o alimento de alguém”.

 

Espera que a sua passagem faça florescer as “personas” que acredita habitarem em cada um. “Todo o mundo consegue ser mais do que si mesmo, mas as pessoas se perdem no egoísmo de ser uma pessoa só”. Deseja que essas personas se possam libertar e que, através dessa libertação, consigam encontrar algo de bom e produtivo para acrescentar ao mundo. Fala de uma humanização do mundo que advenha da criação de forças que solidifiquem alianças e que confirmem a solidez das relações. E que essa possa ser apreciada pela sua construção, com um olhar cuidado para o crescimento, para esse processo, que deve ser apreciado. Convergindo com esta manifestação, em relação a si, apesar de dar mais força ao “agora”, deseja levar-se para um futuro onde possam vê-la como um sonho que se realizou, podendo contribuir para a consolidação dos sonhos de outros. E, em matéria de sonhos, confidencia que um dos seus é ter uma música própria, que seja dela e que a represente.

Eubrite apresenta-se assim, como reflexo do vislumbre penetrante do escárnio, da voracidade, do preconceito. Uma discriminação natural com a qual o status quo lhe retiraria força, impondo sobre ela a inconveniência de ousar romper o padrão. Mas ela própria, tal reflexo, oferece ao mundo que a rodeia não o que o mundo lhe impôs à nascença, mas sim a sua remodelação artística e empática, sendo “somente” alguém tentando tornar os dias de Lisboa mais belos. A Lição de Eubrite é essa: um olhar sobre a diferença.

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