ESTE SOU EU

Por Cláudia Patricia G.

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Mota, como gosta de ser chamado, é descendente de Cabo Verde, português nato, reside na margem sul do rio Tejo, em Almada com os seus pais e o seu irmão mais novo, Fábio. Tem como característica principal a sua organização metódica, a sua tranquilidade para resolver os imprevistos e a incrível coragem de virar costas ás máscaras que supostamente o comum ator social, como todos nós, usaria.

Aos 39 anos de idade assume a cem por cento a sua homossexualidade, sem pudores, e por isso mesmo decidiu partilhar a sua história que nem sempre foi simpática, para que a sua seja inspiração para tantos outros “Mota”. Acompanhámos um dia na sua pele: não são as unhas de gel ou as suas longas pestanas, mas sim todo o seu incrível á vontade sobre o mundo e sobre si mesmo, que fazem a diferença.

Carlos admite que nem sempre foi fácil se assumir. Conta-me que o mais fácil, por incrível que pareça, foi assumir a sua homossexualidade fora de casa. 

“Eu tinha duas vidas: uma fora de casa e outra dentro de casa”

Fora de casa, para além das festas em que organizava e participava, ainda tinha um pouco de receio de querer dizer a si próprio que havia qualquer coisa de errado com ele: que era gay. Os seus olhos iam sempre para os rapazes discretamente, tentando sempre de algum modo fugir de si mesmo, foi lentamente assumindo o compromisso consigo de não fugir aquele encontro inevitável. Conta que foi desde então que começou a aceitar a sua essência, e aos poucos foi-se envolvendo com outras pessoas do mesmo sexo, “tive alguns namorados, algumas brincadeiras na adolescência, mas nada de muito sério porque eramos novos. E foi aí que realmente percebi, Eu sou gay”.  

“Infelizmente eu tenho de fazer esta separação, cada um tem a sua maneira de viver e no meu caso foi mesmo assim, tive que ter duas facetas, quando estava fora ficava muito mais à vontade.” 

O mais complicado foi assumir perante a sua família de origem. Com olhar pensativo descreve essa decisão como uma das mais intimidantes que teve de tomar até agora, foi um processo longo mas que se veio a relevar, mais tarde, inesperadamente.

”Foi um dos melhores anos que eu tive”

Estava muito mais a vontade fora de casa, mas ainda assim não se assumia na totalidade. Compara a sua autodescoberta a uma barra de percentagem, onde claramente indica que cinquenta por cento estavam ainda ocultos – a percentagem que pertencia ao espaço familiar. Com entusiasmo e até alguma emoção, descreve estes cinquenta por cento como os melhores tempos da sua vida de adolescente. Recorda o seu baile de finalistas onde foi acompanhado pela primeira vez com o seu namorado da altura, onde foram aplaudidos e nomeados a Reis do baile: “Foi das coisas mais bonitas e ainda só tinha os cinquenta por cento”. Este foi o primeiro passo que deu em direção a uma revelação mais “publica”, embora em casa, mesmo a explodir de felicidade tivesse que ocultar os grandes pormenores. Recorda ainda os seus gostos femininos no que toca a parte de vestir e de se apresentar perante os outros, adorava malas e ainda hoje é uma das coisas de que gosta.

“Nós temos de ser nós próprios, isto fez-me muito mais forte e aprendi que tenho de seguir com a minha vida sem esconder absolutamente nada. As pessoas vão se desinteressar completamente, porque eu não tenho nada a esconder nem a apontar”

Decidiu depois do secundário deixar de estudar e iniciou a sua vida laboral para garantir, em parte, a sua independência. Fez alguns shows de drag queen em discotecas e teve vários trabalhos. Nas sinuosidades dessa fase foi tirando alguns cursos como o de modelo fotográfico, algo que admite ser algo que sempre o cativou. 

A palavra libertar encaixa perfeitamente nesta fase de vida de Carlos. Para que a sua barra de percentagem atingisse o máximo, precisava de se apresentar como era á sua família, em especial á sua mãe.

 
“Foi com 28 anos, eu encontrei alguém com quem realmente queria ficar, apaixonei-me loucamente”


Tanto em casa como na família, Carlos conseguiu o que tanto ansiava, libertar-se e finalmente ser ele mesmo. A sua presença mudou até aos dias de hoje, ergue a sorrir a sua mão dizendo que arranja as sobrancelhas, que põe as pestanas como sempre quis e que ama as suas grandes e vistosas unhas. Recorda de que não foi preciso conversar com Fábio, o seu irmão – na altura ainda menor de idade, sobre a sua orientação sexual. Foi algo que aconteceu naturalmente á medida que o irmão mais novo ia ganhando maturidade para compreender por si mesmo.

“Neste momento sou cem por cento, eu, Carlos. Tanto na família, em casa ou fora”


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