ESPAÇOS INCLUSIVOS PARA OS JOVENS LGBTI+ EM LISBOA

ILGA, Casa Qui, Rede Ex Aequo.

Estes são apenas três exemplos de associações que vêm trazer a Lisboa um espaço seguro para a comunidade LGBTI+.  Noah e João são testemunhos disso – e de como estes espaços inclusivos na capital podem mudar vidas. 

Por Beatriz Pereira e Marta Pereira

Marta Ramos, diretora executiva da associação ILGA Portugal, a maior e mais antiga associação que luta contra a discriminação das pessoas LGBTI+ e das suas famílias em Portugal, confessa que a pergunta que mais fazem na sua Linha de Apoio, que está prestes a fazer 25 anos, é: “Onde é que se pode conhecer outras pessoas da comunidade?”. É por aí que pretendemos começar, questionando:

Por onde andam os jovens LGBTI+ na cidade de Lisboa?

Para isso, seguimos até à porta nº40 da rua dos Fanqueiros, na baixa de Lisboa. Aqui, surge, em 1997, o primeiro centro comunitário LGBTI+ não só da capital, como do país, que se descreve como um espaço comunitário e cultural para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo e para as suas famílias. Com um programa que se alarga a atividades não só sociais, mas, também, culturais, lúdicas ou políticas, faz parte do Safe Space Alliance, uma organização que pretende ajudar a comunidade a encontrar espaços seguros por todo o mundo.

Processed with VSCO with dog2 preset
Processed with VSCO with dog2 preset
Processed with VSCO with dog2 preset

É precisamente neste centro que Noah Leão (ele/dele/neutros), jovem de 24 anos, se reúne com outros jovens da comunidade que fazem parte do Núcleo LGBTI+ de Lisboa da associação Rede Ex Aequeo. Fundada em 2005, e como conta Noah, Ex Aequeo significa igualdade em latim. Nesse sentido, a associação pretende ser uma rede de apoio, de quebra de isolamento e de ativismo para jovens LGBTI+ e apoiantes entre os 16 e os 30 anos. Coordenador do Núcleo de Lisboa, Noah, recorda onde ouviu falar pela primeira vez do projeto.

“Ex aequo significa IGUALDADE em latim”

Desta forma, Marta Ramos afirma ser fundamental existirem espaços inclusivos. “Para onde é que as pessoas vão para criar comunidades se não têm espaços onde possam socializar ou possam conhecer outras pessoas (da comunidade LGBTI+)? Muitas vezes, na escola onde andam ou, até mesmo, em casa não se fala sobre estas questões”, questiona.

Marta Ramos, Diretora Executiva da ILGA Portugal. Fonte: Idealista.
Marta Ramos, Diretora Executiva da ILGA Portugal. Fonte: Idealista.

UMA CASA QUE NÃO PROTEGE

João Páscoa tem 21 anos e está a tirar a licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Para ele, a família é a sua base e foi ela que o ajudou e o aceitou quando na escola não sentia esse apoio.

Sara Silva é psicóloga clínica da associação Casa Qui, uma associação que procura garantir que a comunidade LGBTI+ recebe respostas adequadas na área da saúde mental, da ação social e da educação. Como explica, se por um lado a família pode ser um grande fator protetor para a juventude LGBTI+, como o é para João, por outro, pode ser, também, um fator de risco. “Se não der apoio, se houver rejeição ou uma não aceitação, que pode chegar ao ponto de violência psicológica e física, isto tem um grande impacto negativo na vida destes jovens”, admite.

Por sua vez, de acordo com o último Relatório Anual da ILGA de 2019, a casa é o segundo espaço mais referido como local de ocorrência de situações de discriminação ou atos de violência. Marta Ramos admite que estas não se esgotam a relações de intimidade entre casais, indo maioritariamente para uma violência doméstica sobre descendentes, ou seja, dos pais para com os seus filhos. “Só que há um problema de base que é a maioria das pessoas tender a desvalorizar estas situações, não as reconhecendo como violência doméstica, incluindo as próprias pessoas, as suas famílias e, também, as autoridades públicas.”

 

 

Um porto seguro encontrado na ReaJo

Assim, Marta conclui que, ao contrário de outras comunidades específicas, as casas podem não ser um porto seguro para comunidade LGBTI+. É olhando para este problema que surge, na associação Casa Qui, o projeto ReaJo, que vem trazer a Lisboa e ao país o primeiro apartamento de autonomização para jovens lésbicas, gay, bissexuais, trans ou intersexo.

“A realidade é que a juventude LGBTI+ é mais vulnerável e tem uma maior probabilidade de se encontrar em situação sem abrigo, recorrendo, por vezes, a favores sexuais em troca de comida e alojamento”, conta Sara. A ReaJo surge, assim, em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, em 2019, para dar resposta aos pedidos de acolhimento, por parte de jovens, que chegavam ao Gabinete de Apoio à Vítima da Casa Qui. Estes encontravam-se em situação de sem-abrigo, por falta de suporte familiar ou violência familiar, apenas devido à sua orientação sexual e identidade ou expressão de género.

Com dois quartos individuais para permanência até seis meses e mais dois para permanência até dois anos, já 26 pessoas beneficiaram da ReaJo desde Janeiro de 2020. Esta associação opta por uma rotatividade uma vez que o seu objetivo final é alcançar a autonomização destes jovens. “O projeto pretende, através da equipa técnica especializada do Gabinete de Apoio à Vítima, apoiar ao nível da empregabilidade, ajudando os residentes a integrar o mercado de trabalho, para que se tornem autónomos”, explica Sara.

Contudo, Sara confessa que as vagas são poucas para o grande número de pedidos que chegam à associação: “Claro que não deixamos os jovens sem resposta. Tentamos sempre ao máximo arranjar um local onde possam passar a noite de forma segura, mas temos de ser realistas e gerir também essas expectativas. Nós trabalhamos com aquilo que temos”.

“Pode ser bastante desgastante (para a equipa técnica) porque é como se nós estivéssemos a combater contra a maré. Precisamos de apoios, de mais recursos humanos, supervisão, que muitas vezes falha”, reconhece.

 

 

E fora da capital?

Tal como Marta Ramos explica existem apenas três serviços de apoio a vítimas de violência doméstica LGBTI+, formalmente reconhecidos: a ILGA, a Casa Qui e o Centro Gis, os dois primeiros em Lisboa e o último no Porto. Apesar da associação ILGA dar uma resposta a nível nacional, Marta reconhece que, por vezes, essa resposta é insuficiente, uma vez que a sede da associação é em Lisboa. Por isso, todos os pedidos de ajuda que vêm de fora de Lisboa são tratados via telefone ou por videochamada, o que dificulta, ainda mais, uma proximidade com os jovens.

Dado o grande volume de casos que a associação ILGA recebe e não havendo meios suficientes para dar uma resposta eficaz, é crucial que, para além de um Plano Municipal LGBTI+ que existe em Lisboa, desde 2020, e mais recentemente, desde 2021, no Porto, haja mais políticas públicas locais. “Estas políticas públicas locais permitem um reconhecimento por parte das autarquias, do poder local, de que é fundamental que haja associações e redes de apoio descentralizadas das grandes cidades”, afirma.

João é testemunho disso. Nasceu e cresceu em Seia, antes de vir, há três anos, estudar para Lisboa. Define a sua vinda para a capital como “uma oportunidade para assumir a sua sexualidade de uma outra forma”. Como explica Sara, há quase como que um  “processo migratório da juventude LGBTI+” para Lisboa. Este fenómeno, deve-se, acima de tudo, ao facto destes jovens associarem a capital a uma cidade com mais diversidade, com espaços seguros e de abrigo, onde a própria diferença pode ser abraçada.

Processed with VSCO with dog2 preset

Mesmo assim e, como afirma Marta Ramos, até em Lisboa estes espaços são insuficientes. “Não deveria estar tudo centrado na baixa de Lisboa. Deveria estar polarizado pela cidade, mas da periferia a pessoa tem que migrar para o centro da cidade para conseguir encontrar essa oferta”, afirma. Ao vir da Margem Sul para a Rua dos Fanqueiros à procura de participar mais ativamente na comunidade, Noah é exemplo disso.

A exploração da sexualidade é outro dos temas que necessariamente devem ser abordados. Um jovem tem a necessidade de se descobrir, mas de se “descobrir” em segurança e com a confiança de que não será vítima de violência física ou psicológica por parte daqueles que o rodeiam. João menciona, precisamente, isso: as experiências que, se calhar, perdeu, por viver num meio mais pequeno, onde tudo é alvo de comentário, inclusive a forma como cada um se decide vestir.

 

 

UM Apoio específico aos jovens Lgbti+

Como Marta Ramos explica, isto tem muito a ver com a própria experiência da juventude. “É aí a altura da visibilidade e da afirmação da identidade, onde se começa o processo de construção identitário e, por isso, é normal que as pessoas corram mais riscos e daí serem mais vulneráveis”, afirma. Tanto a Casa Qui como a Rede Ex Aequo focam, por sua vez, o seu apoio nos jovens da comunidade. 

Por isso, e como conta Noah, o Núcleo da Rede Ex Aequo organiza várias atividades que, muitas vezes, podem ser experiências básicas que qualquer jovem, LGBTI+ ou não, gosta de fazer, mas que aqui o pode fazer com um grupo com o qual se sente seguro. Já João destaca os espaços de diversão noturna específicos à comunidade como os espaços onde se sente mais seguro a sair à noite.

Ambos reforçam a necessidade da faculdade ser, também, um espaço inclusivo por ser um espaço determinante na vida de um jovem-adulto. Por isso, Noah fez questão de fazer parte do Queer IST, o núcleo de estudantes queer do Instituto Superior Técnico. João relata, também, a sua experiência muito positiva na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

 

 

UMA PANDEMIA que veio realçar a discriminação

Nos últimos dois anos, a pandemia veio impossibilitar o encontro destes jovens nestes espaços. De acordo com um estudo da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e com base num inquérito feito a 632 jovens LGBT+, com idades entre os 16 e os 35 anos, a maioria não se sentiu confortável no seio familiar durante o confinamento. 

Esta foi uma realidade sentida tanto por Sara, na Casa Qui, como por Marta, na associação ILGA, sendo que as duas admitem que os pedidos de ajuda aumentaram muito no último ano. “Os nossos pedidos de ajuda triplicaram”, esclarece Marta. 

Com o novo confinamento em 2021, Marta afirma que as questões de saúde mental em vítimas LGBTI+ tornaram-se ainda mais visíveis. “Imaginem o que é voltarmos para a “terrinha” onde ninguém nos vai entender porque somos uma pessoa que é estranha, que é excêntrica ou por o que quer que seja. Eventualmente a pessoa evita regressar a casa, mas por uma questão económica tem que o fazer e, por isso, o nível de complexidade destes casos aumentou, em particular, em pessoas com problemas com consumo e com problemas mentais”, reconhece.

 

 

Associações que surgem para “um dia morrer”

Sara Silva esclarece que o propósito da Casa Qui é a reintegração da comunidade na sociedade e, por isso, a grande prioridade, atualmente, deveria ser implementar, em vários pontos do país, associações que possam acolher vítimas de violência, para que a ajuda chegue a todos de igual forma. No entanto, o desejo máximo da Casa Qui é que esta, um dia, deixe de existir. “Nós, por vezes, dizemos a brincar que a Casa Qui surgiu para um dia morrer, para desaparecer e isso deve ser sempre o grande objetivo de todas as IPSS. Trabalharem para um dia não serem necessárias.”

Este é, claramente, um desejo que, por agora, se encontra suspenso, uma utopia. Ainda há um longo caminho a percorrer numa luta que é de muitos, aliás, que é de todos. Uma luta para que o direito à vida com total liberdade e segurança seja alcançado. 

Até que isso seja uma realidade, e para responder à pergunta inicial, “Onde é que se pode conhecer outras pessoas da comunidade?”, Marta Ramos conclui: “É nesses espaços, é nos bares, é nos cafés, é nas peças de teatro, é nos concertos… Para esta comunidade, o acesso a tudo o que é específico ou direcionado para a comunidade LGBTI+ é fundamental”.

Submit a comment

O seu endereço de email não será publicado.

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.