Em Cena

Infância na guerra

José Carlos Garcia nasceu em Moçambique, no ano de 1969. A instabilidade reinava no país que, desde 1961, se encontrava em guerra, tal como todas as ex-colónias portuguesas. “Vivi toda a minha infância na guerra”, contou José. Esteve lá até aos 8 anos de idade e, no pós-25 de Abril, teve a sorte que muitos não tiveram: conseguiu fugir do país e rumou a Portugal. .

“Vivi toda a minha infância na guerra”

José e o seu irmão, tal como todos aqueles que nasceram na colónia africana, eram pertença do governo Moçambicano. Este facto fez com que a sua fuga tivesse uma dificuldade muito acrescida e desde que chegou a Portugal “apenas com as roupas que tinha no corpo”, nunca mais regressou ao país que o viu nascer.



Uma nova realidade

Acabados de chegar a Lisboa, não foram poucas as dificuldades que encontraram. Do impacto cultural a serem mal recebidos, a realidade é que até hoje José Carlos Garcia não considera Portugal como o seu país.

Em criança, era o palhaço da família. Imitava o que via no cinema, vestia-se de diferentes personagens e contava histórias. Portanto, não é difícil acreditar quando afirma que a paixão pelo teatro vem desde sempre.

Foi um amor que transcendeu até à sua juventude. Primeiro ainda tentou a sua sorte na Faculdade de Letras, mas esta foi uma passagem de um ano durante a qual confessa não ter ido a disciplina nenhuma. A partir daí partiu para o Chapitô, onde iniciou a sua formação nas artes performativas. Quando terminou, foi aconselhado a não se matricular no Conservatório. Como alternativa e portanto decidiu criar a Companhia do Chapitô.

«Quando terminei aqui para ir para o conservatório (…) um professor de cá polaco que ficou um grande amigo disse: “Tu não vais para o conservatório porque não te vais lá dar bem.” E eu não fui. Formei uma companhia, pronto.»


O Chapitô, a segunda casa

O Chapitô é uma organização de coletividade cultural e recreativa situada na Costa do Castelo, em Lisboa. Desenvolveu-se no pós-25 de abril e tem como matriz o uso das artes ao serviço da inclusão e formação humana, pelo aprofundamento da vida social e solidária.

O projeto inicial foi a criação da primeira Escola de Circo – A Escola de Circo Mariano Franco, no Bairro Alto. Foi o primeiro passo para chegar ao que é atualmente a mais abrangente Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo (EPAOE). No entanto, o circo contemporâneo ainda hoje persiste como uma parte fulcral da identidade do Chapitô e é uma paixão partilhada por José Carlos Garcia.

A Casa do Chapitô

Por outro lado, a justiça social e o compromisso com os mais desfavorecidos também fazem parte do plano do Chapitô. É uma proposta humanista centrada na solidariedade e equidade, posta em ação por um programa de animações sociais a todas as faixas etárias, alojamento de jovens em risco e a criação de uma casa de apoio e animação aos mais novos.

A Companhia do Chapitô nasceu em 1996 e estabeleceu desde logo uma identidade artística muito própria. A sua fundação, liderada por José Carlos Garcia, procurou investir num teatro que vai além da linguagem verbal. Os espetáculos que apresenta são assim caracteristicamente multidisciplinares, assentes no gesto, na imagem e criados a partir de um processo coletivo que convida à imaginação do público.

“O nosso teatro é lúdico e joga com uma realidade que nós criamos do ponto de vista da história que queremos contar.”

Desde a sua formação produziu cerca de 40 peças originais, premiadas e apresentadas em Portugal e um pouco por todo o mundo.

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