EDGARDO CECCHINI

A população imigrante em Portugal aumentou cerca de 40% desde 2011. Mas o que motiva as pessoas a escolher Portugal? Como foi a sua integração? Será que as suas expectativas se concretizaram? E quais os seus projetos?

Edgardo Cecchini é italiano, tem 44 anos, é licenciado em Arquitetura e mora em Lisboa há dez anos. Cresceu na cidade italiana de Pádua e a sua primeira viagem a Portugal remonta ao ano de 1998, quando veio visitar a Expo ‘98. Este primeiro contacto com o país foi determinante para Edgardo, pois, três anos depois, em 2001, optou por realizar Erasmus na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP).

O primeiro trabalho de Edgardo foi vender jornais do jornal local “Il Mattino di Padova”

O reconhecimento e a admiração não só pela faculdade, como também pela arquitetura portuguesa, foram determinantes na escolha pelo Porto, confessa Edgardo. Guarda da sua passagem “uma faculdade que tinha um esquema muito rígido, mas que deixava os alunos seguirem o seu próprio percurso em comparação com os seus colegas portugueses”, descreve. Um Portugal que, segundo Edgardo, era “menos exigente em comparação com o que existe atualmente”.

O REGRESSO A PORTUGAL

Em 2012, a Itália atravessava uma crise sem precedentes ao nível socioeconómico e Edgardo aproveitou a oportunidade para se mudar para Portugal, um país onde “existia alguma esperança”. Desta vez, a decisão recaiu sobre a capital Lisboa, pelo facto de ser a maior cidade portuguesa. Edgardo compara a sua cidade natal com a capital portuguesa: “Pádua é uma cidade mais pequena e menos internacional do que Lisboa”.

A integração na cidade foi bastante rápida e natural, a que contribuiu, descreve Edgardo, o “carinho [dos portugueses] pelos italianos e o gosto pela língua”. Contudo, não deixa de reparar em alguns pontos negativos em relação aos portugueses e na sua negatividade em relação aos outros países.

Ao longo destes anos, Edgardo esteve ligado ao contact center, descrevendo Lisboa como “a capital europeia dos call center”, devido ao baixo custo de trabalho que as empresas têm. Neste setor, exerceu funções associadas ao mercado italiano, nomeadamente na prestação de serviços.

Isto não o impediu de manter a sua ligação com a Arquitetura. Neste momento, encontra-se a terminar um doutoramento no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa com o tema “Os Pequenos e Médios Ateliers de Arquitetura em Lisboa”, onde investiga “o modus operandi do atelier e a prática diária, bem como as mudanças que a pandemia trouxe nesta área”. Edgardo tenciona terminar o seu doutoramento em junho deste ano.

Edgardo vive num dos bairros mais populares de Lisboa, Campolide.
Foto: João Freitas

UM NOVO PROJETO CULTURAL

Em 2019, decidiu criar um projeto, a Calboni Edições. Um desafio que tem uma forte ligação com todo o seu percurso académico e profissional, particularmente nos call center.

Como surgiu a Calboni Edições

Inicialmente, Edgardo entrava em contacto com os artistas para fazer propostas sobre projetos. Com o crescimento da Calboni Edições, esse cenário alterou-se. As pessoas passaram a ter conhecimento da existência da editora e as propostas começaram a surgir em maior número.

Ao mesmo tempo, a reação das pessoas tem sido bastante positiva e entusiasta, ao ponto de “as pessoas esperarem ainda mais material publicado”. Assim, o balanço que faz de todo o projeto é positivo.

Um dos artistas com que a Calboni Edições estabeleceu uma parceria foi Simone Faresin. O artista italiano, de 41 anos, encontra-se a residir em Portugal desde 2010 e descreve Lisboa como “uma paixão à primeira vista”, tendo feito um interregno entre 2015 e 2017, período em que viveu em Moçambique. Conheceu Edgardo enquanto colega de trabalho em 2012 e, ao longo dos anos, desenvolveram vários projetos. 

Anos mais tarde, tomou conhecimento da ideia de Edgardo em criar uma editora. Assim, a parceria entre a dupla intensificou-se com a criação de vários eventos, desde leituras de poemas e textos relacionados entre Moçambique e Portugal, exposições fotográficas, vídeos, entre muitos outros.


Mas aquele que mais o marcou foi o lançamento do livro “Fora do Ar. Contos Breves”, editado tanto na língua portuguesa, que se encontra neste momento na segunda edição, como na italiana. Lançado em 2021, o livro conta várias histórias breves inspiradas na sua passagem por Moçambique.

Livro de Simone Faresin "Fora do Ar.4 Contos Breves
Livro de Simone Faresin “Fora do Ar. Contos Breves”

Este livro começou a ser escrito em Maputo, em 2016, com a intenção de ser composto por contos curtos e diretos. Foi inspirado no famoso escritor norte-americano Henry Miller, que Simone descreve como um autor “sem filtros”, e nas suas obras “Trópico de Câncer” e “Trópico de Capricórnio”.

Das quatro histórias presentes no livro, aquela que mais marcou Simone foi a última. Descreve este conto como “a história de um moçambicano ativo politicamente e que retrata a realidade daquele país mergulhado na corrupção”. Quando o releu, depois de ter sido publicado, entendeu o peso daquele conto. “Não se pode acusar de maneira tão aberta, em Moçambique, o partido do poder, a FRELIMO”, confessa.

Ao abordar as pessoas que leram o seu livro, a reação foi bastante boa e de total imersão nas histórias relatadas por Faresin. Contudo, já tem em mente mais um livro de contos, desta vez sobre a cidade que o acolheu, Lisboa. 

Se puder escolher o trabalho que lhe deu mais prazer em desenvolver, Edgardo não hesita em referir “o trabalho burocrático na câmara para o registo da editora”, na medida em que significou, não apenas a seriedade, mas um novo caminho que estava naquele momento a iniciar-se.

Neste momento, ainda não se consegue dedicar a tempo inteiro ao projeto, pois ainda não é financeiramente sustentável. Não tem dúvidas em referir o que falta: “Programas que apoiem o setor editorial, algo que é deixado de lado”. 

Ao contrário do que acontece em Itália, lamenta a falta de aposta por parte de Portugal no ramo da Cultura. Considera que Portugal tem “um grande património histórico e que merece ser reconhecido internacionalmente”, mas que não tem o devido mérito por razões que se prendem ao facto de “não se considerar a História verdadeiramente atrativa, e à falta de visão e de planeamento [de Portugal]”, considera Edgardo.

Quando olha para os dez anos que passaram desde a sua chegada a Lisboa, refere que acompanhou todas as mudanças que alteraram a cidade e dificultaram a sua vida, desde a intensificação do turismo, nomeadamente através dos alojamentos locais e do mercado imobiliário, até à chegada da pandemia. Lembra que a aposta na cidade “tem também que passar por outras áreas, como, por exemplo, a saúde e a educação”.

Todavia, faz um balanço positivo, realçando as ideias que tem colocado em prática de forma “a tornar a cidade um lugar mais interessante”. Vê-se a viver em Portugal nos próximos anos e tem esperança que o país marque o seu próprio caminho e se torne um polo de agregação em termos culturais de várias realidades. Mas ainda tem um grande sonho por realizar: “lançar, através da Calboni, um ensaio sobre cultura que possa alterar o pensamento crítico das pessoas”.

Acompanha a Calboni Edições nas redes sociais.

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