Do ensino à ação: mais do que alunas, melhores voluntárias

2021. Mais um ano marcado pela Covid-19. Mais um ano que tenta roubar o tempo e o conforto do abraço àqueles que são os mais vulneráveis: os idosos. Entre isolamentos e confinamentos, talvez nos esqueçamos que a solidão também é uma pandemia e que, muitas vezes, as Instituições precisam de uma ajuda extra para chegar mais longe e conseguirem dar resposta. Mas Beatriz, Catarina e Rita, alunas voluntárias da Nova FCSH, lembraram-se de dar a mão ao centro de dia S. Sebastião da Pedreira.

Estavam prestes a começar o primeiro semestre do último ano de licenciatura quando descobriram que o voluntariado contava como uma unidade curricular. Depois de várias conversas no WhatsApp, em mesas de café e pesquisas no site da faculdade, Beatriz, Rita e Catarina não hesitaram. Escolheram ser voluntárias do Centro de dia S. Sebastião da Pedreira. Desde a promoção nas redes sociais à renovação do site da Instituição, as voluntárias da FCSH esforçaram-se na organização de eventos e atividades para acabar com a solidão, mesmo quando a pandemia as desafiava. Muitas ideias caíram por terra, mas ficou o registo de uma sessão fotográfica de Natal com os utentes.

Desde a Baixa, subindo o Marquês, dizemos adeus ao Saldanha e chegamos à Rua Latino Coelho, ao número 95. Estamos na Associação de Auxílio Social de São Sebastião da Pedreira. Numa esquina escondida, que a muitos passa despercebida, percebemos que a vida não se encontra apenas nas avenidas principais, mas em qualquer canto onde haja calçada portuguesa e vizinhos que ajudam vizinhos.

Chegam ao centro de dia com um sorriso na cara. Entre os “bons dias” e as curtas conversas com os funcionários, Beatriz, Catarina e Rita arregaçam as mangas e começam a delinear as tarefas que se propõem fazer. De mãos no computador, mas com atenção àquilo que as rodeia, as voluntárias aliam o seu espírito dinamizador à vontade de ajudar em qualquer outra tarefa que fosse necessária. Para a instituição, o desafio foi grande, mas para estas alunas ainda foi maior.

O primeiro plano era uma viagem no tempo. Desde os anos 20 aos anos 80, relembrando o Jazz e a era do Rock N Roll, Catarina, Beatriz e Rita pretendiam organizar quatro sessões temáticas, cada uma numa instituição diferente, de modo que os idosos do centro S. Sebastião da Pedreira expandissem os laços de amizade e se divertissem no meio de vestimentas, músicas e maneiras que coloriram estas épocas, algumas delas vividas pelos utentes. Num verdadeiro “brainstorming”, surgiu também a ideia daquele que seria o primeiro evento organizado pelas voluntárias na Instituição: trazer um Teatro Revista à sala da Associação.

Ficou por tocar o Rock N Roll. Faltou criarem-se as novas amizades ao relembrar os tempos do Jazz e não se chegaram a ouvir as gargalhadas que ecoariam pela sala após cada cena do Teatro em “palco”. Por motivos de segurança, e tendo em atenção a progressão da Covid-19, estas ideias não puderam ser postas em prática. Mas as voluntárias guiaram-se pelo improviso. “Vivemos, infelizmente, numa época em que os planos deixam de ser planos muito rapidamente. Acho que improvisámos muito bem”, conta Rita Coutinho.

Entre gorros de Natal, bandeletes festivas, uma mesa recheada e uma moldura de cartão enfeitada, as voluntárias conseguiram dar ao centro de dia, ainda que com poucos idosos, um momento de convívio e união, agora imortalizado pela sessão fotográfica natalícia, e que ficará, certamente, na memória de todos. “A sessão fotográfica foi um escape para, realmente, se realizar alguma coisa, para deixar marca, para deixar memórias. Até porque o Natal pede isso mesmo”, acrescenta Catarina Chefe.

Apesar dos tempos difíceis, a Instituição resiste e persiste. E mesmo atravessando o panorama mundial da pandemia Covid-19, os esforços continuam para que seja possível ir ao encontro de quem mais precisa. “Temos tido muita sorte nas cozinheiras e na equipa que temos por detrás de tudo. São pessoas impecáveis e são elas que permitem que tudo isto aconteça há tanto tempo”, conta orgulhosamente o Dr. Carlos Santos Silva. Quando lhe falamos de futuro, esse entusiasmo é ofuscado pela súbita desilusão. “As pessoas não estão para aparecer ou para se chatear. No entanto, jovens como as voluntárias hoje começam como vogais e daqui a 5 anos poderiam estar como presidentes da Associação”, refere esperançoso.  

Com os dedos cruzados, o Dr. Carlos para um pouco, quase como se refletisse naquilo que acabou de dizer. Para quem estava de fora, era a imagem de um senhor com uma missão e um projeto que não iria, de modo algum, deixar morrer. Assim que o questionámos sobre o que é que faltava à Instituição para “ir mais longe”, a resposta não tardou a chegar. “Precisamos de pessoas com disponibilidade e vontade de ajudar. Não somos uma mera Instituição que se preocupa em dar refeições, mas sim em dar mais de nós enquanto pessoas”, conclui convicto.

As voluntárias parecem fazer destas as suas palavras. Para elas, ser voluntária/o é isso mesmo – “dar de nós enquanto pessoas”. A verdade é que Catarina não conseguiu “dar-se” como gostaria. “Gostava de ter tido uma relação mais próxima com eles, ter desempenhado mais atividades com eles. Nós também tivemos a ideia de fazer uma atividade dos Cinco Sentidos, com uma animadora cultural, que acaba também por ser muito útil para os idosos. Eles estão muito sozinhos e esse tipo de atividades mais próximas, mais envolventes, foi o que ficou por fazer”, confessa.

Ficam as respostas das voluntárias, que refletem sobre o futuro do voluntariado e nos garantem que “vale sempre a pena dar tempo às outras pessoas” e que “o nosso tempo é mais rico se for dado aos outros”.

“O que é para ti ser voluntária?”

“Depois de toda esta experiência e atendendo à realidade que vivemos desde há 2 anos, como é que vês o futuro do voluntariado?”

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