DAR VOZ aos Jovens

Por: Mariana Cristo, Mariana Furtado e Maria Inês Marques

De acordo com o Conselho Nacional de Juventude (CNJ), existem 45 associações juvenis portuguesas, dedicadas às mais diversas áreas de intervenção (sociais, culturais, ambientais e partidárias). É crescente a manifestação dos jovens em matérias políticas e sociais, quer em Portugal, quer um pouco por todo mundo.

Em Portugal, os jovens apresentam um perfil característico: 64% dos jovens mora com os pais; 40% são licenciados; e existem mais alunos no ensino superior, ainda que menos jovens estejam a trabalhar.

Entre várias organizações, com objetivos, dinâmicas e áreas de intervenção diferentes, mas iguais na sua premissa – grupos de jovens que tomaram uma posição e ação face a um problema – destacamos três. Geridas por jovens, estas associações, de cariz nacional ou internacional, deixam a sua marca na vida dos jovens que por elas passam e nas comunidades onde atuam. São elas a AIESEC, o Núcleo Feminista de Évora, e a World Youth Alliance.

WORLD YOUTH ALLIANCE, GLOBAL

Em 1999, a World Youth Alliance (também conhecida como WYA) foi fundada em Nova York, nas Nações Unidas. Numa conferência sobre População e Desenvolvimento, trinta e dois jovens, que tiveram a oportunidade de falar e participar nas negociações e declararam representar todos os jovens do mundo, exigiram o seguinte: aborto como um direito humano; direitos sexuais das crianças; exclusão dos direitos dos pais em matéria de sexualidade na vida das crianças.

Em reação de consciência, Anna Halpine (na altura estudante de 21 anos) e outros jovens voltaram à assembleia na manhã seguinte e distribuíram folhetos, afirmando que os trinta e dois jovens anteriores não representavam todos os jovens do mundo. Halpine pediu uma discussão sobre tópicos diferentes que incluissem direto à saúde, habitação, emprego, entre outros. A declaração foi bem recebida por muitas delegações, que a convidaram a manter uma presença permanente nas Nações Unidas, bem como a trabalhar com jovens dos países das delegacias.

(27/04/2015) Anna Halpine em palestra intitulada
“Crusading for Human Dignity” (Universidade da Malta)

Halpine, em entrevista a Jennifer Hickey para o Insight on the News, e a propósito da criação da organização, afirmou:

«No seio da Aliança Mundial da Juventude concentramos tudo o que fazemos na promoção da dignidade da pessoa humana. Este é o nosso princípio fundamental, e é muito convincente para as nações em desenvolvimento. Estou apenas de regresso de um mês em África onde nos encontrámos com muitos jovens, milhares deles de todo o continente, e o que eles diziam não era “Venham financiar os nossos abortos e controlo de natalidade”, mas sim, “Venham trabalhar connosco, ajudem-nos a construir as nossas nações, ajudem-nos a construir democracias sobre princípios morais sólidos”

Aparte da fundadora, a ONG conta um pequeno grupo de trabalhadores (dois a quatro membros fixos por escritório regional) – o WYA Staff – com a presença regular e rotativa de estagiários e voluntários (não renumerados). Para além dos escritórios regionais, a WYA conta com comités e escritórios nacionais, e clubes juvenis/universitários (os chapters).

Em Portugal, o escritório é gerido por Maria Inês Fraústo Moreira, 25 anos, albicastrense, estudante de Tradução pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em Portugal, a WYA foca-se na divulgação dos eventos internacionais, na captação de novos membros e nos Programas Certificados de Treino (ou CTP em inglês) para levar sempre um equipa portuguesa aos eventos internacionais e espalhar a menssagem da WYA pelos jovens portugueses.

O atual Presidente, Lord Leomer Pomperada, natural das Filipinas, exerce o cargo desde 2015 e encontra-se sediado em Nova York com a sua colega Anne Mimille Guzzman, Diretora de Operações Internacional.

Lord Leomer Pomperada (à esquerda) clarifica a definição de “dignidade humana” sobre a qual assenta a WYA.

Anne Mimille Guzzman (à direita) justifica a importância dos jovens enquanto público alvo da WYA.

Em 2010, a WYA deu as boas-vindas ao estabelecimento da Fundação WYA, e em 2012 a Fundação FEMM foi lançada. Com este crescimento, o trabalho da WYA passou a abranger não apenas o trabalho de advocacy em organizações internacionais como a ONU e a UE, mas também o acolhimento de programas culturais e eventos.

Entre os eventos regionais e internacionais, destacam-se eventos anuais que tomam o protagonismo, como o Certified Tranning Program (CTP), o International Solidarity Forum (ISF), Emerging Leaders Conference (ELC), Acampamentos de Verão e o Fóruns Regionais de Artes

Anne Mimille Guzzman destaca o caráter original da WYA através da sua abordagem distinta em relação à dignidade humana. Nas palavras da Diretora de Operações Internacional:

NÚCLEO FEMINISTA DE ÉVORA, PORTUGAL

O Núcleo Feminista de Évora é um projeto recente. Nascido e criado em Évora, durante os meses de outubro e novembro de 2019, começou pela organização, por alunas universitárias da cidade, de rodas de conversa onde se abordaram questões como a violência de género, a sexualidade, identidade de género, sororidade e outras temáticas ligadas à condição de ser mulher e a sua posição no mundo. É um núcleo anti-racista, antifascista, inclusivo, intersecional e não partidário. O grupo tornou-se legalmente uma associação no mês de outubro de 2020.

O Manifesto do Núcleo Feminista de Évora

A história de Rita

Rita Madeira tem 20 anos, estuda Ciências da Comunicação na NOVA FCSH e nasceu em Évora. É uma das fundadoras do núcleo. Conheceu, a dançar salsa, Adriana, espanhola e professora de Filologia, uma das mulheres na casa dos 30 que integra, apoia e está à frente do grupo. No início de 2020, Rita juntou-se ao núcleo e, juntas, começaram a falar sobre organizar alguma coisa para o 8 de março, Dia da Mulher. A ideia era trabalhar em conjunto com a rede 8 de março, que apoia organizações pelo país e já tinha um modo de organização estabelecido. Através de Adriana, Rita conheceu as outras mulheres e começou a ir às rodas de conversa. Ao falar sobre atividades para o 8 de março, perceberam que havia, “não só uma massa crítica, mas também uma vontade de agir e de ter algum tipo de intervenção político-social”, conta Rita. Perceberam que não fazia sentido cingirem-se ao 8 de março, mas estenderem-se em atividades no resto do ano. Uma coisa ficou clara para estas mulheres e para Rita: “existe uma lacuna no Alentejo ao nível do movimento feminista”. Não havia um lugar onde as mulheres se pudessem juntar para partilhar os seus problemas, as suas opiniões e discutir acerca do que tinham em comum.

A primeira ação

O 8 de março foi, então, a sua primeira ação. O feedback foi positivo. Antes desse dia, espalharam pelas casas de banho de espaços em Évora, cartazes em branco à espera que os habitantes da cidade completassem a frase “Ser mulher não me obriga a…”. Os cartazes encheram em dois dias. Recolheram-nos e colocaram-nos em exposição num ponto jovem da cidade, um lugar associado à Câmara Municipal. O dia continuou com uma performance organizada por um grupo de feministas chileno chamada “Um violador no teu caminho”. Depois da performance organizou-se um debate e uma conversa em torno das respostas nos cartazes. “Foi muito interessante porque tivemos pessoas que se juntaram depois ao ver-nos a fazer a performance e foram connosco até ao ponto jovem e estivemos a debater e foi importante”, recorda Rita. “Sinto que foi um momento em que nós dissemos às pessoas: “Estamos aqui, nós existimos”, porque nunca tivemos manifestação do 8 de março em Évora”, continua. Depois, tal como a todos, a pandemia pregou uma partida. As rodas de conversa passaram para o online e as outras atividades tiveram de ser suspensas. Durante a pandemia fizeram rodas de conversa online sobre a sexualidade, o corpo feminino, violência de género, abusos, mas o público deste núcleo, que os acompanha e segue nas redes sociais, não é só de Évora, por isso, Rita reconhece que um dos desafios tem sido aproximarem-se do público de Lisboa.

Instagram Núcleo Feminista de Évora; https://www.instagram.com/nucleofeministaevora/

Com menos oportunidades para se debruçarem sobre as atividades, dedicaram-se a outra premissa importante: parcerias. O Núcleo Feminista de Évora pretende fazer parcerias com entidades em Évora que façam sentido para o núcleo. Até agora, criaram parceira com a Fonte de Letras, a única livraria independente de Évora, gerida por duas mulheres. Para Rita, comprar em e ter livrarias independentes é em si um ato político. Esta parceira, a que chamaram Mulheres Fora da Prateleira, consiste na recomendação e desconto de livros que abordam a condição feminina ou que tenham sido escritos por mulheres, “são vozes de mulheres”. O objetivo é que as pessoas tenham uma “sugestão interessante e cuidada dos livros onde possam aprender e informar-se mais”, explica Rita.

Outra parceria mais recente é com um movimento de apoio ao parto e aos direitos das mulheres grávidas, “ainda para mais na pandemia, com questões de violência obstetrícia”, elucida.

O Núcleo

A Linda e a Ana

A Linda e a Ana são duas jovens mulheres e ativistas que constituem o Núcleo Feminista de Évora. As suas vivências e o seu presente são distintos, como será certamente o seu futuro. Em conversa com ambas, tentámos perceber como é que as experiências as moldaram e como olham para os jovens, o ativismo e os movimentos sociais.

Ana Clara Ferrarese (imagem da direita) tem 20 anos e nasceu na Argentina. Vive em Évora e estuda Relações Internacionais.

Linda (imagem da esquerda) tem 17 anos e é das mais jovens integrantes do núcleo. Nasceu em Évora e está no 11º ano, em Economia.

Qual foi o teu primeiro contacto com o ativismo?

“O meu primeiro contacto com o ativismo foi logo nos meus 16 anos, acabadinhos de fazer, quando fui para o Bloco de Esquerda, como militante do partido, vai fazer dois anos em janeiro. Entretanto juntei-me a mais alguns núcleos, como a Greve Climática e depois fiquei a conhecer o núcleo feminista, ao qual me juntei na altura em que ainda eram chamadas rodas de conversa sobre género, e acompanhei a formalização do núcleo.”

Qual foi a razão para te juntares ao núcleo e o que te atraiu nele?

“Juntei-me ao núcleo porque a causa feminista sempre foi a que mais me chamou. Mesmo a nível político e a nível partidário o que mais me interessou sempre foram as causas sociais, mas depois também me comecei a interessar pelas causas económicas e acho que faltava isso em Évora. Quando soube que existiam estas rodas de conversa, um espaço de debate aberto em Évora, onde podíamos falar de como o patriarcado nos afeta a todas, foi uma coisa fantástica que acabou por me chamar imenso para ele.”

Qual consideras o papel dos jovens nestes movimentos sociais?

“Acho que os jovens têm um papel muito importante nestes movimentos sociais devido ao facto de terem uma perspetiva muito diferente das coisas. Acho que em qualquer luta deve haver uma grande variedade de pessoas, porque passamos todos por coisas diferentes. Acho que os jovens estão cada vez mais interessados na sociedade. No entanto, acho que ainda são pouco ativos, a nível de organizações. Acho que já foi muito bom vermos agora manifestações mais recentes com jovens a aderir, mas mesmo assim, a nível de organizações e associações e núcleo, ainda há muito poucos jovens.”

Sendo que o Núcleo Feminista de Évora é um núcleo focado, não só, mas também no feminismo, como é que caracterizas a forma como o tipo de assuntos que se abordam no núcleo, como violência doméstica, violência de género, abusos sexuais, são abordados na sociedade portuguesa?

Sentiste que a população esteve e está aberta às vossas iniciativas?

Falando em Évora especificamente, acho que sim, embora ainda tenha uma mentalidade um pouco mais fechada. Por exemplo, no 8 de março, este ano, muitas mulheres e homens juntaram-se a nós nas manifestações e seguiram-nos nas rodas de conversa e seguiram-nos. Acho que a população já está a começar a ficar mais aberta às nossas iniciativas, embora ainda tenha algum medo de falar sobre certos temas.

As mulheres que fazem parte do núcleo, têm vidas, passados e presentes muito diferentes, mas uniram-se em torno desta luta comum.  Achas que há alguma mais-valia nisso? Visto que o mundo parece dividido, achas que essa mensagem de união numa luta comum, apesar das diferenças, é cada vez mais importante?

O futuro

AIESEC, GLOBAL

Apesar da definição variar em função do orgão, por jovem pode entender-se um indivíduo com idades entre os 10 e os 30 anos. Na AIESEC, por exemplo, os jovens, enquanto público-alvo, estão circunscritos à faixa etária entre os 18 e os 30 anos.

AIESEC: o seu nome, a sua história, propósitos e objetivos

O AIESEC WAY é uma espécie de código da AIESEC Internacional. Explica como surgiu a organização, o seu objetivo, a forma como deposita confiança nos jovens e o que faz para neles desenvolver as competências de liderança.

A relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (Sustainable Development Goals) incidem sobre vários parâmetros: diminuição da pobreza a nível mundial (SDG 1); erradicação da fome generalizada (SDG 2); fácil e rápido acesso a cuidados de saúde e garantia de boas condições de saneamento (SDGs 3 e 6); qualidade no acesso à educação (SDG 4); e igualdade de género (SDG5).

No âmbito da Ação Climática, são várias as linhas de intervenção relacionadas com o consumo e produção responsáveis (SDG 12), preferência pelo uso de energias renováveis (SDGs 7, 9, 11 e 13) e qualidade de vida marinha e terrestre (SDGs 14 e 15).

Porém, para além de assegurar a sustentabilidade dos ecossistemas, há que assegurar a Sustentabilidade das Parcerias. Para isso, a AIESEC segue as indicações das SDGs 8, 16 e 17, como forma de garantir qualidade de trabalho, crescimento económico, paz e justiça entre as suas instituições.

O que é ser um líder?

“Para mim, um líder é alguém que é capaz de dar o exemplo, de pôr uma equipa inteira a trabalhar e de a motivar! É alguém que tem gosto no que faz e que o transmite às pessoas à sua volta. Um líder tem em consideração as especificidades de cada um e os seus pontos fortes e fracos! É alguém que sabe elogiar, mas também apontar o que é preciso melhorar, sem nunca desencorajar. Um líder deve ser alguém que, acima de tudo, vemos como exemplo!

Laura Osório, 19 anos, estudante da Nova School of Business and Economics

Membro da equipa de Voluntariado do escritório AIESEC in Lisboa NOVA

“Para mim ser líder é muito aquilo que se faz na AIESEC, na verdade. Tentamos desenvolver as nossas competências e personalidades através de uma ação que pretende fazer isso mesmo com os outros. Ser líder é saber motivar e inspirar quem está connosco de uma forma não forçada, através do exemplo e da entreajuda, e acho que essa é muito a mensagem da AIESEC.”

Inês Freitas, 19 anos, estudante na NOVA School of Law

Membro da equipa de Estágios do escritório AIESEC in Lisboa NOVA

As Qualidades de Liderança que a AIESEC procura desenvolver nos jovens

Aqui estão designadas as quatro principais qualidades que um líder deve desenvolver ao longo do seu percurso. A nível da personalidade individual, estas características podem manifestar-se de diferentes formas.

Leonardo Cabana, de 21 anos, Vice-Presidente no escritório da AIESEC in Lisboa NOVA, na área de Gestão de Talentos e Recursos Humanos, conta como foi o seu percurso na organização, desde que entrou, há dois anos.

Sebastião Sousa, também de 21 anos, Vice-Presidente no escritório da AIESEC in Lisboa NOVA, na área de Voluntariado Internacional, explica como a AIESEC foi importante no seu percurso académico, como gere as suas equipas e quais as suas maiores aprendizagens a nível de gestão de tempo e stress.

A AIESEC e a COVID-19

Com a Pandemia COVID-19, e à semelhança de muitas outras organizações, empresas e instituições, a AIESEC teve de se adaptar.

Procurou garantir a segurança sanitária das suas experiências e esforçou-se para assegurar a qualidade dos seus estágios e voluntariado. Para isso, manteve um contacto estreito com os seus países parceiros, garantindo, desta forma, atualizações regulares sobre o estado da COVID-19. Os membros da AIESEC procuraram entrar em contacto com as embaixadas de cada país e falar diretamente com os escritórios parceiros.

As várias newsletters são apenas um exemplo da informação a circular entre vários países e escritórios.

Além do contacto regular com os vários países parceiros em busca de atualizações, a AIESEC procedeu à atribuição de vouchers aos voluntários e estagiários que tiveram a sua experiência cancelada devido à pandemia.

O futuro

No início do semestre passado, entrei como membro no escritório Lisboa NOVA e, desde então, tenho vindo a descobrir-me e a crescer pessoalmente como nunca pensei que pudesse. Assim que ingressei na minha equipa, ganhei grandes amigos em quem pude e vou sempre poder confiar. Sinto-me quase em casa.

Com a AIESEC espero vir ainda a crescer mais, ganhar competências para o meu futuro e tornar-me uma melhor pessoa. Isto é tão verdade que, apenas tendo a experiência de membro, sou agora eleito Vice Presidente de Talent Management [Gestão de Talentos].

Nuno Saraiva tem 19 anos, e é estudante de licenciatura em Bioquímica na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade NOVA. Foi membro da equipa de Voluntariado Internacional da AIESEC in Lisboa NOVA no mandato 2020/2021 e é o Vice Presidente de Gestão de Talentos e Recursos Humanos eleito para o próximo mandato.

Ser AIESECer em 2021 significa ser a voz para as e das novas gerações. Mostrar que os jovens têm ideias e uma palavra a ser dita sobre temas que usualmente se acha que aos jovens não interessam. Pelo contrário, o futuro é nosso, e somos os principais interessados em tornar esse futuro o melhor para nós.”

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