Costa Santos: Um toque para a vida

Por Ana Camponês, Daniela Santos e David Agostinho

Com o cigarro numa mão, e o pincel na outra, Costa Santos pinta o retrato da neta Catarina. Tem sete anos, mais um do que o avô tinha naquela noite de 1949. Tinha seis anos quando adoeceu. Os pais levaram-no ao médico, e os inúmeros exames que fizera detetavam-lhe uma mancha no pulmão: tinha tuberculose.

Naquela altura, período pós II Guerra Mundial, aquela doença previa um fim praticamente certo: a morte. Os médicos prepararam a família para o pior, tanto que própria mãe já havia comprado aquilo que seriam as roupas para vestir ao pequeno Costa Santos no dia do enterro.

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Costa Santos com os pais [Arquivo fotográfico pessoal de Costa Santos]

Os dias passavam e o estado de saúde de Costa Santos piorava. Certa noite, toda família se reuniu em casa dele, pensado ser a última vez que o viam. Eram 13 pessoas: “Bonito número. É dia de Nossa Senhora”, disse, na altura, a avó de Costa Santos. Depois de jantar, o pai fez-lhe sinal de que estava na hora de ir dormir, e foi deitá-lo. É então que o destino, já dado como certo, muda.

Costa Santos dedicou-se durante 40 anos ao jornalismo. Tudo começou no liceu. Sempre foi mau aluno a inglês e a matemática, razoável a francês e o melhor da turma a português. O Cónego Urbano Duarte, reitor do Liceu que frequentava, pediu-lhe que fizesse uma reportagem sobre o encontro da juventude no Estádio de Alvalade (casa do seu Sporting). Apesar de não saber ao certo como isso se fazia, aceitou, e todos o parabenizaram pelo fantástico trabalho. E foi esta reportagem que lhe abriu as portas para uma carreira de quatro décadas no mundo do jornalismo. A primeira colaboração foi no Jornal “O Pátio”, e até à redação do “Correio de Coimbra” foi um salto. Em 1966 assumiu a direção de um outro jornal da cidade dos estudantes: o “Gazeta de Coimbra”. Dois anos depois é convidado para ser correspondente em Coimbra do Jornal “A Bola” e, nesse mesmo ano, Artur Agostinho oferece-lhe um lugar no jornal “Record”, no qual esteve até 2003.

Em paralelo, Costa Santos escreveu também para o jornal Diário Popular, e foi aqui que acompanhou o mediático caso de Vítor Jorge, o na altura conhecido como o “mata sete”: matou sete pessoas na praia do Osso da Baleia, entre as quais a mulher e a filha. Durante julgamentos, foi em Costa Santos que o homicida viu o único jornalista em quem podia confiar. Por ser o “único que escreveria a verdade”, Costa Santos ouviu na primeira pessoa as histórias de lutas interiores que o perturbado Vítor Jorge mantinha com ele próprio.

Em 2003 deixa o jornalismo. Mas o futebol, o centro de toda uma carreira, ainda precisava de Costa Santos. Uma notícia do jornal “A Bola”  associava-o ao cargo de diretor desportivo União de Leiria. Foi tudo uma manobra de João Bartolomeu, presidente do clube, que viu nesta a forma ideal de convidar Costa Santos a assumir o cargo para a época de 2002/2003. Um ano depois abandonou o clube por questões de incompatibilidade: coisas a que assistiu que iam contra aquilo que eram, e continuam a ser, os princípios de Costa Santos.

Os tempos livres do antigo jornalista não eram apenas ocupados pela escrita: a pintura tinha, e continua a ter, um lugar muito especial no coração de Costa Santos. Chegado o momento da reforma, afirma que não queria ser “um cliente do sofá”. Frequentou um curso de desenho na Faculdade Vasco da Gama, em Coimbra, onde aprendeu técnicas de pintura. Pinta, com tinta acrílica, sobretudo paisagens: inspira-se no mar, na brilhante luz noturna projetada sobre a densa fachada de prédios em Coimbra, e nas casas de xisto do Piódão. Costa Santos já protagonizou várias exposições nacionais e internacionais.

Diz ter noites em que não vê as horas passar. Passa-as relaxado, empenhado a pintar mais um quadro, ou a escrever mais um poema. Considera a escrita e a pintura um porto de abrigo, onde encontra a tranquilidade de que precisa.

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“Contrastes” [Aldeia de Xisto do Piódão – por Costa Santos]

 Uma vida tão preenchida não lhe possibilitou passar tanto como como desejaria com a família. É pai de cinco rapazes e de uma rapariga, resultado de dois casamentos. Do último relacionamento, guarda apenas boas memórias. Um dos filhos tem vida em Macau, todos os outros em Portugal. Dois deles ainda seguiram as pisadas do pai e entraram para o mundo do Jornalismo, mas apenas um continua até hoje esse caminho, dando aulas de jornalismo em Macau. O outro, o Luís, apesar de ter iniciado carreira no jornalismo, a certa altura foi aliciado pelo agente de futebol Jorge Mendes e atualmente trabalha no mundo do futebol.

Costa Santos admite que as relações com os descendentes nem sempre foram pacíficas. A vida atribulada entre viagens pelo mundo, obrigada pelo jornalismo, trouxe consequências irreversíveis nos laços familiares. Hoje, afirma manter relações normais com os filhos, mas que não passam disso mesmo: “Não são tão próximas como gostaria. Mas estou a sofrer as consequências da vida que escolhi, mesmo profissionalmente”, afirma.

A certa altura, mudou-se para Leiria. Foi aqui, na cidade do Lis, que Costa Santos encontrou o amor que lhe trouxe um novo “eu”. Separado desde 2006, conheceu Anabela, também ela já divorciada. Viriam a casar-se, mas a separação, essa que Costa Santos tão bem conhecera ao longo da vida, voltou a ser inevitável. Ainda assim, foi ela que o manteve a viver nesta cidade. Viviam na mesma rua. Talvez assim o coração não sentisse tanto a distância.

“Aos 72 anos, o coração ainda bate por amor?” – Acende um cigarro, mais um no meio de tantos outros já estoirados ao longo da conversa – e responde: “Vou amar até morrer. Um amor que não é carnal, que se ultrapassa com o passar dos anos e com a dilatação da idade, mas um amor diferente. Um amor que sente diferente dos 20 ou 30, mas um amor de afeto, em que um beijo ou uma carícia na mão é mais forte do que um ato sexual”.

“Parar é morrer”, afirma. E só quando esse dia chegar é que deixará de ter projetos. Por enquanto está vivo, e vive para um novo projeto. Está de partida para Macau para junto do filho, para ensinar o jornalismo que aprendeu, da mesma forma como sempre gostou de o fazer.

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