Carlos Gil: “Se Deus existe, é quando eu caminho que estou com ele”

Ser pagador de promessas é uma atividade profissional que remonta à Idade Média. Em Portugal ainda há quem a pratique. Carlos Gil decidiu há uns anos que era o caminho da fé que queria seguir. Com um ar sereno e postura calma, conta como é peregrinar a pedido de outros

Por Fernanda Reis, Isabella Moura e Sofia Robert

O seu destino estava traçado: ser padre. Como a família materna é católica e transmontana o destino de Carlos Gil, como irmão mais velho, era ir para o seminário. A revolução do 25 de Abril de 1974 veio alterar aquilo para que estava destinado. Desistiu e rumou a outro porto. Hoje é imobiliário e pagador de promessas.

Carlos Gil, 52 anos, carinhosamente tratado pelos amigos por Beto, não era muito ligado à religião, apesar da família o ser. No entanto, hoje é cristão praticante. Direcionado para aqueles que lhe estão próximos, “Beto” ajuda a capela local e os desfavorecidos da comunidade onde vive, em Cascais.

“Se tem uma promessa para cumprir ou se quer agradecer, contacte-me”. Há 15 anos decidiu pagar as promessas de outros. Criou um site onde divulgava o seu trabalho e recebeu o contacto dos primeiros clientes. “É um negócio”, afirma Carlos Gil. As promessas que cumpre são sempre religiosas. O peregrino profissional cobra 2500 euros para ir a pé até Fátima.

“Acontece assim: dá-me uma vontade, costumo dizer, deu-me um “vaipe”, com uma intensidade de tal forma que foi contra tudo e contra todos”, refere o pagador de promessas.

Por ano, o pagador de promessas cumpre entre duas a três promessas. Carlos Gil confessa que não planeia a sua viagem e, que durante a peregrinação, já chegou a dormir debaixo da cobertura de um café: “Uma vez, cheguei a um restaurante e perguntei por um sítio para dormir e disseram-me que não havia nada ali. Arranjaram-me uns cartões e assim foi, o café tinha na parte da frente um toldo que protegia da humidade, estendi os cartões ali, abri o saco de cama e foi ali que dormi. Havia muitos mosquitos nessa noite, fiquei todo picado”, conta, entre risos.

Santuário de Fátima, Santiago de Compostela, Machu Picchu (Perú) e Muxima, em Angola, foram os locais onde Carlos Gil já peregrinou. Em outubro de 2017 vai ao terceiro centenário da Nossa Senhora da Aparecida, padroeira do Brasil, em São Paulo.

[Arraste e navegue pelo mapa]

Pensativo e com um sorriso na cara, Carlos Gil admite que não sabe o porquê de ter escolhido este caminho: “É como quando uma pessoa se apaixona: não importa se ele é gordo, baixo, alto, há algo que te atrai que não sabes o que é, é muito forte”.

Quanto à preparação física, Carlos Gil admite ser “muito preguiçoso”. “Eu não gosto de ginásio, não gosto de fazer desporto. Eu acabo uma peregrinação, arrumo as botas e só depois na próxima peregrinação é que vou as vou calçar, mas quando se inicia a peregrinação, eu não sei explicar porquê, ganho uma resistência física que é fora do normal”.

Durante as suas viagens, o pagador de promessas escreve sempre num diário e fala sobre os locais por onde está a passar.  Segundo Carlos Gil, esta é uma forma de mostrar às pessoas que lhe pediram o “serviço”, que, de facto, as viagens são feitas. No entanto, segundo “Beto”, o mais importante é a fé e a confiança que os “clientes” depositam em si. No final de cada viagem, é entregue o diário à pessoa que pediu para ser cumprida a promessa.

Apesar de Carlos Gil não se preparar fisicamente, o imobiliário diz ser através da fé que vai buscar a força para trilhar o caminho da peregrinação: “Se Deus existe, é quando eu caminho que estou com ele, porque tu, de repente, desligas”.

Para este pagador de promessas o sentido de liberdade tem a ver com “a paz e o amor”. Pensativo, o peregrino afirma que “para atingir a liberdade, tem de haver amor no meio, ou seja, é uma entrega total, não se está condicionado porque ou vai chover ou porque vai ficar de noite, a pessoa tem que estar mesmo livre, para fazer a entrega total”. Carlos Gil acrescenta que este é um caminho que tenta seguir. “Eu acredito que o nosso caminho, a nível espiritual, é feito por saltos, não é linear”.

Submit a comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.