BRUNO OLIVEIRA: Um barbeiro ao serviço da comunidade

Por Daniela Rosa, Helena Santos, Inês Assunção e João Safara

Muitas são as barbearias espalhadas pela nossa capital: várias as que têm anos de histórias que as paredes, ou que as lâminas não contam; outras recentes, com um aspeto rejuvenescido e que oferecem cortes “da moda”. Mas nenhuma é como a Barbearia Oliveira.

A Barbearia do Bairro nasceu em 1879, no número 27 da Rua dos Remédios, em Alfama. Há cerca de cinco anos atrás, Bruno Oliveira e o seu irmão, João, adquiriram o espaço, depois de este ter ficado fechado durante cerca de meio ano, após o falecimento do dono.

O objectivo dos dois irmãos era manter a tradição da arte de barbear, já que esta, segundo Bruno, estava a desaparecer a um ritmo assustador, com o crescente aparecimento de cabeleireiros, centros comerciais e outros que tais, e, simultaneamente, com a técnica a ser perdida nas mãos dos barbeiros mais antigos sem antes ser ensinada a um aprendiz.

Bruno e João remodelaram o estabelecimento de Alfama, deixando igual apenas o chão de calçada portuguesa. O prestígio do trabalho dos irmãos foi reconhecido imediatamente, tendo tido muita atenção dos meios de comunicação social, e o novo negócio depressa ganhou reconhecimento. Muitos novos clientes surgiram, mas os mais velhos não se perderam, e assim não se perdeu a história. “Há clientes que estão cá há 40 anos ou 50 anos, e não são meus, têm mais eles de clientela do que eu em idade”, comentou Bruno.

Há cerca de sete meses atrás, a Barbearia ganhou um novo rumo. Um dos barbeiros, Edson, decidiu contactar pessoas sem-abrigo na zona do Rossio e encaminhá-las para a barbearia, para que estas pudessem cortar o cabelo e a barba sem qualquer custo.

A ideia foi um sucesso: palavra passa palavra, e os sem-abrigos da zona passaram a frequentar constantemente o espaço da barbearia. Mas não vão só cortar cabelos – vão conversar, partilhar histórias de vida, partilhar conhecimento e sabedoria.

No entanto, para Bruno, isto não era suficiente. Ajudar dez ou quinze era óptimo; mas não se comparava ao que eles poderiam realmente fazer. E, assim, a Barbearia Oliveira juntou-se à Associação Acredite para fazer com que o trabalho fosse mais significativo.

Bruno mencionou, ainda, que recentemente tinha cortado cabelo a um sem-abrigo que, nessa manhã, já tinha consumido 45€ em drogas. Mas, sendo assim, será que faz sentido continuar o trabalho? Para Bruno sim, “porque eles precisam de se sentir bem”. E a verdade é que o trabalho de Bruno já levou sem-abrigos a casas de reabilitação e a entrevistas de emprego.

Após a fama crescente do negócio de Alfama, a Barbearia estendeu-se para o Rossio e para o Braço de Prata. Os novos espaços foram inaugurados quatro anos após a aquisição em Alfama, com a diferença de um ano entre um e o outro. Braço de Prata é um 2 em 1: é barbearia, na entrada, e casa de tatuagens ao fundo.

Bruno Oliveira e os seus ajudantes fazem também trabalhos nas residências dos seus clientes mais idosos. Sendo muitos os clientes que ficaram depois da Barbearia do Bairro passar a Barbearia Oliveira, e tendo em conta a idade avançada de muitos, Bruno faz o que pode para cortar os cabelos a quem já não consegue vir para Alfama ou para o Rossio, mesmo que isso signifique acordar uma hora mais cedo ou chegar a casa horas mais tarde.

Segundo Bruno, não há planos definidos para o futuro. Os donos já receberam várias ofertas, inclusive no estrangeiro, mas preferem manter-se em terras lusitanas. A Barbearia Oliveira é muitas vezes convidada para se juntar a centros comerciais ou abrir espaços noutros pontos do país, mas Bruno insiste em manter-se fiel à tradição e permanecer na capital portuguesa, continuando a chamar a atenção dos turistas, pois é raro o comércio tão antigo na Europa e no resto do mundo.

E, embora Bruno diga que a sua barbearia não passa de uma barbearia, a verdade é esta que traz muito de novo. Traz um ombro amigo, traz uma possibilidade de dar a volta à vida; traz experiência; traz de volta a tradição das conversas de barbearia em vez de um simples corte acompanhado por uma revista. Traz a solidariedade na forma de um pente e de uma navalha; e cortes de cabelo que podem levar a uma nova vida.

 

 

 

 

 

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