Bruno Alves: o género de não ser definido

Por Juliana Santos, Mariana Caeiro e Pedro Granacha

Mais de 200 quilómetros separam o Bruno da Bruno. Ele nasceu e cresceu na vila da Sertã, em plena Beira Baixa. Ela surgiu há cerca de três meses, em Lisboa. Falamos de Bruno Alves, 21 anos, estudante de História, que, depois de um processo de definição de identidade, se define hoje como transgénero não-binário, utilizando o pronome feminino.

A vinda para Lisboa, aquando da entrada na faculdade, abriu portas ao contacto com novas pessoas, novas realidades e novos temas, nomeadamente o da identidade de género. “Como todas as pessoas que existiam à minha volta, simplesmente ia lidando com essa problematização e tornou-se natural em mim. Até que eu própria comecei a fazê-lo e apercebi-me que não me identificava com o meu género”, conta Bruno.

A acompanhá-la nesta transição esteve Sara Marques, amiga de Bruno desde 2010, que reconhece este ponto de viragem. “Ter vindo para a faculdade e de ter conhecido e lidado com pessoas diferentes do que estava habituada na Sertã nota-se bastante na personalidade dela. Está mais confiante, não só em termos da sexualidade, mas nas acções e nas coisas que diz.”

Rita Narra Lucas foi uma das pessoas que encontrou em Lisboa. Colega de licenciatura, garante que o contexto académico influenciou ambas. “Tivemos uma vertigem de conhecimento e politização quando aqui chegámos. Em História temos a sorte de ter um grupo de amigos e amigas muito interessantes, e acabámos de fazer esse processo uns com os outros, numa multiplicidade de frentes.”

Do drag à identidade

O primeiro contacto com roupas não normativas foi através da prática de drag. “Não me recordo bem quais foram as minhas intenções ao início, simplesmente uma questão de me divertir à noite e de experimentar maquilhagem como forma de expressão”, recorda Bruno. Entretanto, a relação com o drag foi mudando à medida que o tempo passou. Com regras e imposições estéticas, Bruno foi-se apercebendo que estas não a caracterizavam.

Assim, adoptou um estilo próprio mais fluido que define como não-normativo: “uso maquilhagem mais diferente e não aceito todos os passos que são impostos”. Apesar disso, a experiência serviu para testar terreno, tanto socialmente, para perceber como as pessoas reagiam a isso, como pessoalmente. “Apercebi-me que não estava a fazer aquilo para uma sátira, numa noite em que ia sair”, confessa Bruno. “Não me sentia confortável se, naquele momento, parasse e pensasse sobre mim.”

Enquanto que, no que disse respeito ao pessoal, o teste serviu para atestar o que ela já sentia, no terreno social, Bruno passou a ter de lidar não só com os julgamentos daqueles que por si se cruzavam, mas também com as constantes questões que muitas vezes não se ficavam apenas por assuntos superficiais.

“O nome mantém-se”

“Sou uma pessoa trans não-binária e quero que me tratem pelo pronome «feminino». Sempre. O nome mantém-se”. Foi assim que, há cerca de três meses, a Bruno nasceu oficialmente. Através de uma publicação no seu Facebook pessoal, Bruno fez questão de resolver o problema das perguntas incómodas e divulgar publicamente que, a partir daquele momento, esperava todos a tratassem de acordo com a sua verdadeira identidade.

A escolha do meio não foi, de todo, ao acaso. A exposição da rede social permitiu-lhe chegar ao maior número de conhecidos possível, da maneira mais pública e fácil que tinha. “Não me sinto muito confortável com a questão de ter de sair do armário. Fi-lo mais para não ter de pedir especificamente a cada pessoa para me tratar de uma maneira diferente”, esclarece.

Rita vê este acontecimento como um momento difícil, mas catártico; um momento em que “sentes um empoderamento de uma maneira muito intensa.” Para Sara, não foi um momento do qual não estivesse à espera. “A Bruno fazer um post no Facebook a dizer ‘ok, eu assumo-me como pessoa transgénero não binária’ não foi um big deal tão grande.”

o apoio dos mais próximos

Ainda assim, o Bruno ainda não desapareceu. Quando os pais a visitam em Lisboa, Bruno vê-se obrigada a agir de maneira diferente. “Tenho que arrumar o meu quarto de maneira diferente, cortar as unhas e tirar o verniz”, refere Bruno. Quando vai à Sertã, os esforços são reforçados: “Não levo certa roupa que os meus pais possam achar que não é adequada para mim.”

Esta mudança de comportamento deve-se ao facto de não se ter afirmado como pessoa transgénero não-binária perante a sua família. O processo, que Bruno prevê ser turbulento, foi adiado indefinidamente. “Vou poder afirmar-me da maneira como quero a partir de que momento em que possa simplesmente desligar-me dos meus pais ou cortar a relação com a minha família”, garante.

Cortadas foram também as relações com alguns conhecidos da Sertã, na presença dos quais Bruno não se sentia à vontade para ser como é. Esta selecção chega até às redes sociais, nas quais Bruno faz uma gestão permanente dos amigos e seguidores, para garantir que ninguém que ela crê incapaz de lidar com o assunto possa ter acesso às suas publicações, incluindo familiares.

Durante o processo de definição de identidade, os amigos assumiram um papel central. “A maior dificuldade nesse processo todo foi ter duvidas eu mesma sobre esse processo e ter que esclarecer as pessoas. Ter estes pontos de referência [os amigos] ajudou-me muito”, admite Bruno. Sara reconhece que “não há propriamente uma substituição em relação à família”, mas que passa pelos amigos, os de Lisboa e os da Sertã, garantir que Bruno se sente apoiada e aceite.

Um trabalho de desconstrução constante

Ao mesmo tempo que Bruno tomou consciência da sua identidade de género, o espírito crítico e a insurgência contra muitos dos pressupostos defendidos pela sociedade passaram também a fazer parte de si. A existência de poucos pontos de referência na comunidade LGBTQ e a imagem fabricada que as pessoas cisgénero têm da comunidade faz com que ela própria sinta a responsabilidade de ser uma porta-voz, com todos os fardos que isso possa trazer.

“O ato de existir à volta de pessoas cisgénero ou de falarem comigo e perguntarem coisas específicas faz com que eu seja uma porta-voz de algumas questões”, desabafa Bruno. “Não sinto que deva ser e o facto de ter de ser é uma obrigação para cada pessoa, porque é sempre desgastante.”

Com a sociedade a dar passos lentos em direcção à plena tolerância em relação às minorias, Bruno garante que a comunidade transgénero não vai baixar os braços enquanto o caminho não for concluído, mesmo que isso signifique continuar a lutar por muitos anos. “Obviamente vai levar muito tempo, uma visão histórica das lutas e do movimento social diz isso mesmo. O apoio dentro da comunidade é necessário para que todas as pessoas consigam ter as mesmas possibilidades que eu própria tenho e que sinto muita sorte por ter.”

E se é necessário que as narrativas transgénero sejam ouvidas e tidas em conta, para Bruno é ainda mais necessário que essas narrativas sejam transportadas na primeira pessoa, de forma a que, como afirma, “consigamos representar os nossos próprios interesses”.

Rita vê o próprio processo de descoberta como um ato de insurgência e de luta, na medida em que Bruno foi capaz de se emancipar e enfrentar aquilo (e aqueles) que mais temia. “Conseguiu passar de um papel de auto exclusão e de medo, ou seja, do papel clássico da vítima, para um papel de guerrilheira”, considera a amiga.

A reiterar este carácter corajoso e destemido de Bruno está também Sara, que afirma que se sente bastante orgulhosa do que a sua amiga tem concretizado nos últimos tempos, que segundo esta “não devem ter sido tempos nada fáceis.”

Por sua vez, Bruno garante que se sente “da mesma maneira” que se sentia antes, apenas mais livre por ter conseguido passar por este trabalho de desconstrução. Ainda assim, este ainda não está concluído pois, nas palavras da própria “não é algo que se faça uma vez e depois se meta numa gaveta.”

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