Bernardo Lobo Faria: ator de bata branca

Tem 21 anos. Ninguém o diria pelo percurso que já alcançou. Bernardo Lobo Faria é madeirense mas é em Lisboa que vive dois sonhos em simultâneo. Estuda Medicina e faz Teatro.  Vive ambos de forma intensa, dos quais não se cansa. Desistir não é opção. Só assim consegue sentir-se completamente feliz.

Por Carolina Branco, Fátima Sousa e Mariana Cruz

É diferente dos típicos estudantes de Medicina. Não abdica da vida social. As saídas ao Bairro encaixam no rigoroso horário de estudo que impõe a si próprio. Acredita que a organização é a chave para o equilíbrio. Bernardo defende que “deixar a vida social de lado é pior do que não fazer anatomia”. Inscrito há quatro anos na NOVA Medical School, durante esse tempo, Bernardo licenciou-se também em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema.

Em criança, sonhava ser veterinário para salvar animais. Incentivado pela mãe, descobriu que, sendo médico, poderia salvar pessoas.

Com o passar do tempo, começou a questionar se o rótulo de herói associado aos médicos era o suficientemente motivador: “Será que me quero sacrificar assim tanto para salvar as outras pessoas? Será que vale a pena?”. “Não vou estar a ir para Medicina porque é só estudar. Não vai ser vida!”. Foi este pensamento que levou Bernardo a desleixar-se no 11ºano, não obtendo os mínimos necessários para entrar no curso. Porém, aos dezassete anos, percebe que Lisboa lhe dá oportunidade de conciliar várias áreas de interesse. Em 2014, repete todos os exames, consegue os mínimos e, em Setembro, voa até à capital e passa a ser estudante da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa.

“deixar a vida social de lado é pior do que não fazer anatomia”.

Oriundo da Madeira, Medicina é o seu porto seguro mas não o satisfaz. Desde cedo, percebeu que teatro era sua verdadeira paixão. No 7ºano, teve o primeiro contacto quando entrou num grupo de teatro e foi protagonista da peça  “O doido e a morte” de Raul Brandão. No ano seguinte, elevou a sua fasquia. Foi a personagem principal de uma tragédia grega. Com“Rei Édipo” percebeu que sua capacidade interpretativa podia provocar emoções nas pessoas. Não queria acreditar. No secundário, a par do grupo de teatro da escola, entrou no Gabinete Coordenador de Educação Artística.

Em 2016, terminou a licenciatura em Teatro com a apresentação final no Festival Ao Largo. Sob a direção artística de Cristina Carvalhal, Bernardo participou na peça “Sonho de uma noite de verão”, de Shakespeare.

No ensino superior, tudo se tornou mais sério. Bernardo caracteriza a Escola Superior de Teatro e Cinema como estranha e peculiar. No início, chegas e não sabes o que estás ali a fazer. Dizem-te para esquecer tudo o que aprendeste até então.”. Bernardo esqueceu mas rapidamente se apercebeu que a linguagem da escola não era tão diferente da dele. O primeiro ano é de integração. O segundo de definição de um caminho. “No terceiro, já és o dono da escola!”.

“Ou sou verdadeiro ou trabalho mais nisto de fingir que sou outra coisa.”

Porém, admite que este é também o ano em que se passa por uma fase muito profunda do questionamento e de relativizar as coisas. É nessa altura que Bernardo começa a pensar: “Ou sou verdadeiro ou trabalho mais nisto de fingir que sou outra coisa.”. Decidiu seguir o caminho da verdade.

É uma questão de organização. Bernardo admite que mais depressa questiona o tempo que passou a dormir mais uma hora do que aquele que usou a fazer teatro, a estudar medicina ou a sair com os amigos.

A sua vida sempre foi feita de escolhas. Mas teatro foi sempre a número um. “Teatro vai estar sempre à frente de medicina, ou seja, se eu tiver um ensaio geral e tiver um teste, vou ao ensaio geral.”.  O seu quotidiano gira sempre em volta do teatro. Estabeleceu dedicar-lhe sempre, pelo menos, uma hora por dia para não se “deixar sentar no sofá, ficar confortável no curso de medicina e acabar teatro.”. Tem a certeza que “se nunca mais pensar em teatro, não vai ser o teatro que vem atrás.” dele.

Não se cansa de viver em dois mundos. A alternância entre um e o outro é a sua solução para chegar à noite suficientemente cansado para dormir bem. Na criação tens de estar focado na relatividade do mundo e em medicina tens de estar no certo e óbvio. Então fazer os dois, ir de um para o outro é descansar. É descansar completamente de um e de outro.”. Esta diferença faz-lhe sentido.

“Fazer os dois, ir de um para o outro é descansar.”

Bernardo desmistifica os estereótipos associados a estes dois domínios: “Falo tão bem com pessoas de teatro como com pessoas de Medicina e não há diferença entre inteligências, isso não existe mesmo.”. Medicina significa estudar para ultrapassar um máximo. Teatro é uma superação do nível de criatividade.

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