Augusto Oliveira, o quartel e a FCSH: a emoção de uma vida

Por Ana Sofia Paiva, Daniela Paulo, Lisa Freitas e Rúben Castro

Pela Avenida de Berna e pelo passeio da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), passam milhares de pessoas diariamente. Uma delas é Augusto Oliveira, proprietário de uma loja de ferragens na freguesia das Avenidas Novas, que faz deste percurso apenas mais um local da sua jornada diária até ao local de trabalho.

Este é um caminho que conhece bem. O espaço onde hoje é a FCSH foi utilizado durante várias décadas pelo exército português. Ali ficavam o Grupo de Companhias de Trem Auto (G.C.T.A.) e o Batalhão do Serviço de Transporte, no qual Augusto Oliveira cumpriu serviço militar entre 1955 e 1976. Chegou com 18 anos e saiu com 39. Entrou um menino e saiu um homem, do local onde fez a sua “aprendizagem” e ganhou a “disciplina” que tem hoje.

Desde o dia em que saiu, em dezembro de 1976, nunca mais voltou a entrar no edifício que não resistiu à mudança dos tempos. Oportunidades para fazê-lo não faltaram. A mais flagrante aconteceu há cerca de 20 anos quando um dos porteiros da faculdade, um cliente da sua loja, convidou-o a entrar. Recusou.

Quis o destino que no dia 30 de novembro de 2016, passados quase quarenta anos desde a última vez que saiu do quartel, Augusto Oliveira passasse lentamente debaixo do portão da FCSH. “Antes tinha um triângulo, e as letras do G.C.T.A”, relembra o septuagenário, uma das poucas pessoas que ainda podem descrever as mudanças que o espaço sofreu.

Depois de “uma certa emoção” Augusto Oliveira perde o olhar tentando identificar todos os locais da faculdade. “À esquerda, eram as casernas e a enfermaria” e “ali tinha um relógio”. “Aquelas árvores”, apontando para um dos jardins existentes no pátio, “fomos nós que as plantámos”, afirma enquanto continua a descrição.

Esta viagem no tempo chega até ao dia em que passou pela primeira vez pelo portão do antigo G.C.T.A., onde “um rapaz da província, que tinha vindo a Lisboa” não escondeu a intimidação por entrar “naquele portão”. Apesar da visível felicidade do presente, o sentimento só não é maior pelo facto de “o edifício não estar ao natural”, tal como era antigamente.

Augusto Oliveira tem 79 anos e é natural de Freixianda, concelho de Ourém. Órfão de pai desde a adolescência e com apenas cinco anos de escolaridade, saiu da antiga província da Beira Litoral com 18 anos, idade com que chegou à capital.

Em Lisboa, apesar de ter conseguido arranjar emprego na Carris, a ida para o exército era inevitável e Augusto Oliveira acabou por voluntariar-se pouco antes do tempo previsto. Após quatro meses de recruta seguiu para o campo militar de Santa Margarida, onde fez manobras militares com um camião cheio de explosivos.

Na altura, o G.C.T.A. era conhecido pela “boa formação” ao nível dos transportes e “no anos 50 metade dos taxistas de Lisboa tinham tirado aqui a carta”, afirma Augusto Oliveira.

Ali decidiu fazer carreira. Pouco depois, e já a trabalhar no secretariado da organização militar, ingressou durante três meses num curso de sargentos milicianos. O cargo e o trabalho de secretária, onde “entrava às nove e saía às cinco e meia”, mantiveram-se até à chegada da guerra colonial.

Pelo meio, com 21 anos, conhece a mulher. A trabalhar parte do seu tempo na Academia Portuguesa de Ex-libris, relembra-se do primeiro contacto com Maria Amélia, uma jovem alentejana: “A gente olhou-se de caras e eu disse para mim ‘uma mulher que me servia para esposa’ e ela saiu de lá e disse ‘oh pai, está ali um rapaz que era bom para meu marido’, foi amor à primeira vista”. Desde esse dia passaram cinquenta anos. Com um filho e dois netos, Augusto Oliveira confidencia que se pudesse voltar atrás no tempo nada mudaria e “voltava a casar com a mesma mulher”.

A guerra colonial e a reforma militar

O tempo da guerra colonial chegou. Augusto Oliveira esteve na Guiné de 3 de fevereiro de 1973 a 21 de setembro de 1974 com a tarefa de administrar a companhia de transportes. Dos tempos em África, não faltam episódios que guarda na memória.

Depois do fim da guerra e de um período de estabilização do novo governo guineense, volta a Lisboa passados 20 meses. “A minha companhia veio da Guiné, foram buscá-los ao aeroporto. Quando a companhia chegou, com farda impecável, cabelo aparado, impecavelmente vestidos e disciplinados”, o espanto daqueles que os esperavam era bem visível. Augusto Oliveira não poderia estar mais orgulhoso, mas a ‘bandalheira’ existente dentro do exército foi algo que não conseguiu suportar.


Chegada da companhia ao G.C.T.A. em 1974 (Ao meio Augusto Oliveira) © Foto de Augusto Oliveira

Aos trinta e nove anos, a vida militar chega ao fim com a reforma. A altura de se adaptar à vida civil tinha chegado. Foi como gerente de uma loja de ferragens que fez a adaptação desta passagem. “Eu entrei nesta firma como gerente, estava falida, tentei levantá-la e consegui fazer uma firma relativamente próspera.” Aos setenta e nove anos, é dono do estabelecimento.

No escritório onde trabalha, as memórias do tempo passado no G.C.T.A. ainda se encontram vivas. Augusto Oliveira não esconde a emoção ao falar no assunto.


Cédula militar © Foto de Augusto Oliveira

Em 1978 o edifício do antigo espaço militar é cedido à Universidade Nova de Lisboa. Augusto Oliveira viu com bons olhos a mudança da escola de condução mais antiga de Lisboa para uma Academia, o lugar do conhecimento e da cultura.

Apenas com uma frase, Augusto Oliveira caracteriza os momentos da sua vida militar e do edifício: “Foi uma vivência, uma escola de vida, um sítio maravilhoso aqui, na Avenida de Berna”.

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