As vozes de Sara

Por Beatriz Conceição, Eugénia Duarte, Joana Carvalho e Joana Fernandes

O mundo começou numa aula de história. Sara tinha 18 anos quando, de lágrimas nos olhos, se apercebeu que tinha que utilizar a sua voz contra uma sala inteira. Uma crise humanitária foi a primeira brecha do mundo de Sara. “Quando nós tentamos influenciar o mundo de forma positiva, quando somos a mudança, está sempre alguém daquele lado a ouvir que acabará por fazer o mesmo.” Este foi o despertar da faceta ativista de Sara, a sua voz tornou-se também a de todos os outros que não se conseguiam fazer ouvir.

Ídolos e Inspirações

O feminismo é uma das áreas em que tenta ter mais força. Ao falar dos filmes, livros, das séries, atrizes e personalidades que a inspiram, um dos primeiros nomes que Sara nomeia é o da Carrie Fisher. Para Sara, Carrie Fisher, a eterna princesa Leia Organa da Saga Star Wars, foi e é um ídolo por ser “uma ativista feminista incrível” que utilizou a sua influência para lutar pelos direitos das mulheres.

 

Sara apela à leitura de duas obras que a marcaram especialmente na forma como encara a causa feminista. “Le Deuxième Sexe”, em português “O Segundo Sexo”, de Simone De Beauvoir, uma obra tão controversa que o Vaticano a colocou na sua lista de novelas proibidas. A obra foi publicada originalmente em 1949 e é uma das obras mais celebradas e importantes do movimento feminista. No seu livro, Beauvoir analisa a situação da mulher na sociedade.

Sara refere também “Feminism is for everybody” de Bell Hooks. A autora acredita que um mundo livre de sexismo só é possível se ambos, homens e mulheres, acreditarem e lutarem pela causa feminista. O que Bell Hooks tenta explicar na sua obra é a história do movimento feminista, os seus sucessos e falhanços, desilusões e reajustes.

Não deixa de falar sobre Frida Kahlo, “Adoro-a! Um exemplo de feminista e mulher!”, exclama Sara.

Not Asking for it

 

A primeira experiência que a marcou aconteceu em 2015 num transporte público. Sara é agarrada por um homem que começa a insultá-la depois de ela lhe ter pedido várias vezes para a soltar. A jovem ativista acaba por ser obrigada a abandonar o autocarro para fugir à situação. Apesar do autocarro ir cheio, ninguém interveio, ninguém ajudou.

 

No início de 2017, Sara foi perseguida por um homem desde a paragem de autocarro até sua casa. Farta dos seus comentários, pediu- lhe várias vezes que não a seguisse. O homem continuou até que Sara lhe deu um grito. Mais uma vez, apesar de não estar sozinha na rua, ninguém interveio. 

Esta e todas as outras instâncias de assédio de que foi alvo despertaram-na para o mundo do ativismo feminista, dando-lhe ainda “mais vontade de lutar por isto, de fazer as pessoas perceberem que isto ainda acontece e que não é exagero nenhum da nossa parte”.

A primeira imagem que acompanha este texto, onde se pode ver uma rapariga com a frase “NOT ASKING FOR IT” escrita no peito, tem Sara como protagonista e teve bastante impacto nas redes sociais. A jovem ativista saiu assim à rua na manifestação do dia da mulher de 2017. A segunda imagem pode também ser encontrada no instagram de Sara e foi tirada no inicio de 2018, em Barcelona, durante um encontro de jovens ativistas.

Ativismo nas redes sociais

Sara começou por levar a sua luta para as redes sociais. Apesar da ação prática ser muito importante, “a luta nestas plataformas não deve ser desvalorizada”, conta Sara. Muitas vezes não é possível tomar as iniciativas práticas necessárias mas “há pequenas coisas que todos nós podemos fazer no dia-a-dia, como por exemplo limpar a desinformação e responder aos comentários machistas que encontramos nas redes sociais.” Desta forma,  faz uso de redes sociais como o Twitter, para limpar a desinformação existente acerca da luta feminista.

ativismo na prática

Depressa Sara levou a luta feminista para a rua. Entre manifestações e o seu voluntariado na UMAR, a jovem ativista agarra todas as oportunidades para se fazer ouvir, a si e aos outros, e contrariar quem tenta silenciar a sua voz. Porque o grande desafio está em ser Mulher com “m” grande, numa sociedade que parece ainda acreditar que só os homens merecem maiúsculas.

a voz da umar

No segundo ano de faculdade, Sara voluntariou-se na UMAR, que ficou a conhecer através das redes sociais. A UMAR foi-lhe indicada como uma biblioteca feminista de livre acesso.

Dentro da organização, ingressou no projeto Memórias e Feminismos, nomeadamente na nova edição do projeto intitulado Múltiplas Discriminações que dá voz a mulheres: a mulheres negras, muçulmanas, migrantes, ciganas, trabalhadores sexuais.

“É importante reconhecer que somos todas mulheres, mas todas temos a nossa história para contar, explica Sara a quem estiver disposto a ouvir. Estas mulheres a quem a UMAR dá voz são mulheres que para além de vítimas de violência, carregam consigo outras agravantes e as nossas histórias e as nossas lutas estão dependentes dessas agravantes. É preciso reconhecê-lo.  “

Dentro da UMAR, luta por fazer compreender que dentro do grupo das mulheres, existem diferentes experiências e diferentes níveis de opressão. Aceitá-lo é estar um passo mais próximo de perceber que tipo de discriminação afeta as mulheres portuguesas.

múltiplas discriminações

A Sara diz-nos:

“O projeto múltiplas discriminações, a nova edição do projeto Memórias e Feminismo, foca sobretudo no feminismo interseccional, ou seja, admite-se que todas as mulheres sofrem pelo simples facto de serem mulheres, mas devido a outras condições sociais, essas condicionantes podem aumentar ou diminuir.

Já tivemos tertúlias com mulheres ciganas, uma comunidade que sofre bastante de racismo em Portugal e em que as mulheres são constantes subjugadas e discriminadas.

Já tivemos uma tertúlia com mulheres migrantes, na qual percebemos que mulheres que vêm viver para um novo país com uma condição de migrante sofrem muito mais que as mulheres oriundas desse mesmo país e também com mulheres transexuais e lésbicas, que sofrem muito mais que mulheres heterossexuais porque também elas são alvo de discriminação.

Por fim, tivemos uma tertúlia com trabalhadoras sexuais que são constantemente denegridas e nem sequer têm o estatuto legal do trabalho que desempenham.”

mulheres ciganas e mulheres migrantes

Escuta o que Sara tem a dizer sobre as mulheres ciganas e sobre as mulheres migrantes . No fim, poderás responder a algumas questões.

Mulheres Ciganas

mulheres migrantes

 

 

 

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