As viagens de Adélia Ferreira

Por Ana Rosário, Catarina Santos, João Silva, Nuno Martins

Nasceu a 24 de fevereiro de 1966, em Almagreira, terra onde ainda hoje vive. Dito desta forma, o leitor pode até pensar que a sua vida foi linear, mas se assim pensa, desengane-se. Na estrada que é a vida, só o condutor foi o mesmo: Adélia. Já o percurso e o carro: curvas e contracurvas, avarias no motor, barulhos estranhos, acidentes. No meio de tantos percalços, numa viagem que ainda não acabou, impõe-se perguntar: Adélia, ganhaste a corrida?

Mudar de transporte

No final do verão, Adélia estava a sachar na horta, quando a vieram chamar. O pai, Manuel, estava há poucos meses em França, emigrado, com a tia e madrinha de Adélia, Deolinda. Deolinda estava nos últimos meses de gravidez, e não podia fazer muitos esforços. Por causa do trabalho, Manuel não conseguia cuidar de tudo. Precisava de ajuda.

Em 1979, apanhou o autocarro para Paris, em Pombal. Até à fronteira espanhola-francesa, o autocarro avariou 8 vezes e os passageiros foram forçados a empurrar o autocarro em diversas ocasiões. Tiveram de mudar de autocarro. Acabaram por chegar com 12 horas de atraso. Com esta premonição, e depois de, aos 5 anos, ter emigrado para França pela primeira vez, e de por lá ter ficado outros 5, Adélia não sabia que futuro ali teria. Quando saiu do autocarro estava feliz, porque imaginava que em França a vida seria melhor, mais fácil e menos dura, mas também estava triste, porque sentia-se só. Tinha deixado a mãe e a irmã em Portugal, juntamente com todos os seus amigos.

Ao início, a habituação custou e isso refletiu-se nas notas. Mas, pouco a pouco, Adélia começava a ganhar ímpeto. Terminou o ensino básico na melhor turma e, mesmo não tendo formação superior, trabalhou em secretariado e contabilidade, num cabeleireiro em Paris.

A vida corria-lhe bem, não só em França, mas também em Portugal. Adélia visitava Almagreira sempre que podia, passando cá os verões. No tempo do calor, aproveitava para estar com os amigos, ir à praia, ir a clubes e discotecas, e envolver-se em projetos religiosos e culturais da comunidade. Tinha uma vida preenchida e feliz. Aos 18 anos tirou a carta e começava a tornar-se uma mulher adulta.

Travar

Em Portugal, os verões eram todos diferentes e preenchidos, mas há um em particular que Adélia guarda para sempre na memória: o de ’87.

Adélia soube no dia seguinte ao óbito. Não foi acusada de nada, mas o seu coração sentia-se culpado. Não soube lidar com o que se tinha passado e entrou em negação. “A morte de uma pessoa deu-me a volta à cabeça. Durante 6 meses, não acreditei que aquilo tinha mesmo acontecido.” Nesse tempo, levou a sua vida naturalmente, como se nada se tivesse passado. Mas o peso da realidade era cada vez maior. Adélia cedeu. Teve de aceitar.

Para o fazer, foi procurar Deus. No verão seguinte, em 1988, foi a um acampamento espiritual com uns amigos, para S. Pedro de Moel, na Marinha Grande. Quando chegou, refletiu sobre o acidente, sobre si, sobre a vida e sobre Deus. Foi a Ele que recorreu na esperança de que Ele lhe desse força para continuar o seu caminho. Mas Ele não falava a mesma linguagem que ela. Como conta, “o mais difícil não é acreditar em Deus, mas ter uma forma de comunicar com Ele”. Adélia continuou a pensar, a refletir e a orar.

Até que, quando estava sozinha, na praia, a meditar, um desejo súbito de pintar abalroou o seu espírito.

Curva à esquerda

Quando chegou a casa, comprou mais cores e começou a desenhar cântaros, frutas e postais. Durante um ano, desenhou postais sobretudo com pores do sol, paisagens campestres e elementos da natureza. Na altura disse, “pintava sem nenhuma técnica e pensei: gostava de aprender a pintar”, recorda.

Em 1989, em Achères, a cidade onde vivia, a 30km de Paris, já pintava regularmente e tinha desenvolvido uma relação mais forte com Deus através da pintura. A 18 de abril, seguia para uma reunião de um grupo religioso, com uma amiga. Adélia ia a conduzir e, no caminho para o encontro, chegou a um entroncamento, no qual teria de virar à esquerda. Fez pisca, aproximou-se do corte e viu, pelo espelho retrovisor, que um carro ia ultrapassá-la pela esquerda. Cautelosamente, parou e aguardou que o carro passasse. “O carro ia a bem mais de 120 km/hora”, relembra. Assim que o viu à sua frente, não perdeu tempo e cortou à esquerda. Adélia tinha agora o volante seguro. Mas, naquela noite, o perigo não se apareceu à frente, veio de trás.

Não se lembra do momento. Acordou com os bombeiros a desencarcerarem-lhe o carro. Foi levada para o hospital, onde ficou em recuperação, durante três meses. O diagnóstico: bacia esmigalhada do lado direito. O da colega: bacia esmigalhada do lado esquerdo. “Mas como?”, perguntou. Um carro seguia atrás do veículo que a ultrapassara, numa competição a alta velocidade. Quando Adélia cortou, o outro carro ia a meio da ultrapassagem e embateu contra o de Adélia. O choque foi de tal forma intenso que os cintos rebentaram e Adélia embateu com a sua bacia na da colega, que seguia no lugar do pendura.

“Posso ter filhos?”, perguntou. O médico disse que sim, mas só quando tivesse a bacia totalmente recomposta. Quase seis anos depois, Adélia recuperaria e a sua filha, Mariana Baltazar, a sua melhor e mais perfeita criação, haveria de nascer, em Poissy, França, a 26 de novembro de 1994.

A alta velocidade

“Se não tivesse tido o acidente, tinha sido secretária-contabilista para o resto da vida.” Saída do hospital, Adélia decide ir tirar um curso de pintura de técnica clássica, o qual finaliza em 1991. Por ter partido a bacia, também não podia estar muito tempo sentada, então viu-se sujeita a uma reconversão profissional. A assistente social aconselha Adélia a seguir a via de animadora sociocultural e, motivada, Adélia começa esse curso em 1992.

Foi também nesse ano que fundou, com um conjunto de amigos, o “Grupo de Teatro de Benfica D´Achères”. O grupo é um sucesso. São amadores mas já fazem digressões por França e Portugal. Mas a associação não lhes dá o que eles querem e, por desentendimentos, o grupo e amigos abandona a associação e cria outro grupo de teatro amador e independente. Em 1998, já depois de muitos anos da sua primeira peça, em 1986, a produtora Gemini Filmes entra em contacto com o grupo de Adélia, para a recolha de informação para um guião. A partir daí, Adélia descobre todo um novo lado da representação.

É em longas conversas com João Canijo, o realizador do filme, que colabora com ideias para o guião e para a sua concretização cinematográfica.

A primeira cena que gravam é uma discussão entre a sua personagem, Fernanda, e a de Rita Blanco, Cidália. O choque é imenso. O amador opõe-se ao profissional, mas, em 7 takes, a cena está finalizada.

O filme, “Ganhar a Vida”, que retrata a incessante busca de uma mãe portuguesa, tentando descobrir o assassino do seu filho, interliga-se também a uma procura pelo seu propósito e pelo seu sentido da vida. Um filme potente, que Adélia guarda com carinho no coração e na cómoda da sala.

Abandona a França em julho desse ano e começa a trabalhar na Santa Casa da Misericórdia de Leiria, como animadora sociocultural, mas sai passados dezoito meses, entrando para o lar da Fundação Otília Lourenço, em Abiul, Pombal, onde desempenha a mesma função.

Por se ter dedicado mais às artes teatrais, e por causa do mau cheiro que as tintas tingiam o seu apartamento, Adélia deixou de pintar. No entanto, em 2002, o desejo surgiu de novo. Estava no terraço da Casa Paroquial de Pombal quando, olhando para os telhados do centro histórico da sua cidade, quis pintar aquelas cores. Criou 10 telas e, ainda nesse ano, inaugurou a sua primeira exposição, “Pombal Histórico”, na Biblioteca Municipal de Pombal.

Falha no motor

Em 2015, Adélia ainda trabalhava no lar, em Abiul. Foi nesse estabelecimento, após um momento acesso de discussão com uma das coordenadoras, que sentiu o coração a falhar. Sem aviso, uma pressão no peito, falta de ar, tonturas. Não conseguiu pronunciar um ai sequer, só os olhos mexeram e, num flash, pensou: “Morri”.

Depois desta paragem cardíaca, Adélia foi procurar um médico, que a alertou para o decadente estado das suas artérias. Era necessário tomar comprimidos para que aquele susto não voltasse a acontecer. Com isso, Adélia abriu os olhos e percebeu que a vida estava a passar por ela.

“Eu trabalhei num lar durante muitos anos, então sei o que é ver uma pessoa perder a vida, desistir de viver, estar morta mas viva. Eu não queria isso para mim. Quero chegar aos meus 80 anos e ainda fazer aquilo que gosto.” Sentiu que estava a deixar a vida escapar-se por entre os dedos. Então mudou.

Demitiu-se do emprego e candidatou-se ao curso de Conservação e Restauro, no Instituto Politécnico de Tomar, porque não gosta de ver Arte Sacra em mau estado, aliando a sua paixão pela pintura ao seu talento profissional adquirido ao longo dos anos: cuidar. Com a candidatura aceite, com as propinas pagas, Adélia mudou-se para Tomar em setembro de 2015. É lá que vive durante a semana, partilhando um apartamento com duas colegas 20 anos mais novas. Ao fim de semana, regressa a casa, para estar com o marido, a filha, os pais e o irmão.

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