As mãos que trazem cor à cidade

A adrenalina, a paz e o prazer. São estas as motivações de Diogo Rezende, o típico menino de cascais que se tornou artista de Street Art, para trazer cor à cidade de Lisboa.


São 17h. Está um dia típico de primavera e o sol ainda vai alto. É enquanto fuma um cigarro, que Diogo nos abre a porta àquele que é o seu mais íntimo mundo artístico – a sua casa. Num ambiente de descontração e grande à vontade, Diogo Perestrelo de Rezende, conhecido artisticamente por Rezende, começa por falar sobre as caricatas situações em que já se viu envolvido no mundo da Street Art. O espaço que nos rodeia é uma sala onde as paredes ganham um sentido diferente. São “telas” que Diogo preenche com posters, pinturas e peças de arte.

Foi na própria rotina do dia-a-dia que encontrou aquilo que se viria a tornar o refúgio da monotonia do quotidiano. Desde cedo que Diogo, no caminho de comboio para a escola, admirava as peças de Street Art que pintavam a viagem. Lugares e pessoas cruzaram-se entretanto no seu caminho e, se foi Lisboa que despertou a curiosidade, a passagem por Londres e pelo Brasil trouxeram a inspiração e vontade de criar. Foi em casa que, em tom de brincadeira, deu os primeiros passos no mundo da Street Art.

A Street Art, ou Arte Urbana em português, diz respeito a manifestações artísticas desenvolvidas no espaço público e que podemos encontrar nos meios urbanos. Esta forma de expressão pode ter variadíssimas modalidades e grafismos, desde o Graffiti ao  Stencil, Stickers, Cartazes etc.

Este género de arte que se encontra espalhado por todo o mundo, surgiu na década de 70 nos Estados Unidos e o seu principal objetivo  é precisamente sair dos lugares “destinados” às exposições e apresentações artísticas (como os teatros, cinemas, museus), para dar visibilidade à arte quotidiana, espalhada pelas ruas. Apesar de existirem diversos temas retratados pelos artistas, a grande maioria é pautada pela crítica social, política e económica.

Lisboa é já uma cidade reconhecida pela arte urbana e podemos perceber isso se fizermos um simples passeio pelo centro ou pelos bairros históricos, onde somos surpreendidos por verdadeiras obras de arte.

ARTE vs VANDALISMO

Quando falamos de arte urbana, torna-se muitas vezes difícil traçar uma linha entre o que é arte e o que não o é. A linha que separa o vandalismo da Street Art é muito, muito ténue!

Um dos objetivos de Rezende enquanto artista de Street Art é acabar com o rótulo de vandalismo. Ainda está muito presente na sociedade a ideia de que pintar na rua é estragar. “O critério é mais no sentido de serem prédios abandonados ou caixas de eletricidade, para não interferir com ninguém. Dentro do ilegal, não causar danos.”

“O que eu sinto é que quando começo a pintar as pessoas ficam a olhar de lado porque pensam que vai ser só um tag mas depois quando vêem a peça acabada ficam todas contentes e dão-me os parabéns.”

Diogo encontra também um sentido de missão naquilo que faz. Mais do que o poder contrariar a ideia de vandalismo através das suas peças, tem a responsabilidade de passar este testemunho de embelezamento da cidade para as gerações futuras.

O SEU TRABALHO

Faz arte mas não se considera artista. Rezend tem percorrido um caminho de descoberta do seu traço. O stencil é a sua técnica de eleição, uma ferramenta que veio compensar a sua “falta de jeito para o desenho”. Apesar de ainda não ter encontrado o elemento que o distingue enquanto artista, diz que o facto de não se prender a uma coisa e de estar num processo de aprendizagem, lhe traz alguma liberdade.

Algumas peças do Diogo Rezende:


O SENTIMENTO

Ao contrário do que possamos pensar, o ato de “pintar” é, para os artistas de Street Art, muito mais do que a busca pela exposição e reconhecimento. É um momento de paz e prazer que é individual, um momento em que têm a possibilidade de estar a sós consigo mesmos, de transpor para as paredes aquilo que são os sentimentos que os transtornam ou alegrem nesse preciso momento. Muito mais do que para os outros, construir arte é algo terapêutico para o “eu”.

COLETIVO “YES YOU CAN SPRAY” E A STREET ART EM LISBOA

Atualmente está envolvido no projeto da “Yes You Can Spray”, uma iniciativa social e intercultural que teve como ponto de partida uma equipa de mulheres. Começou com a atividade “Lisbon Street Art Tours”, que se mantém até aos dias de hoje e que permitiu o crescimento do projeto.

Este coletivo desenvolve várias atividades com o objetivo de dar maior reconhecimento e visibilidade à arte urbana e aos seus artistas. Organizam encontros entre artistas de rua, amantes da arte de urbana, colecionadores, ou até mesmo aspirantes a artistas, provenientes de todos os lugares do mundo para espalhar boas energias e vibrações pela cidade.

Oferecem também workshops de Street Art com as boas dicas de Diogo que, sendo um artista de Stencil, apresenta algumas das suas diferentes técnicas nestes encontros.

Convidam graffiti writers e artistas de rua que vivem ou estão de passagem por Lisboa a juntarem-se numa tarde artística em que pintam em conjunto em torno de um tema escolhido.

“Come with us and discover the city in a total different way. Learn about different techniques & styles and the whole graffiti and street art-scenery in Portugal and worldwide.”

Street Art em Lisboa:

Em Lisboa, há cada vez mais espaço para a Street Art. É no Bairro Alto, Mouraria, Alfama, Graça e Cais do Sodré que esta arte ganha maior expressão. Mais do que locais de movimento, são locais de partilha e cruzamento de culturas. Rezend acredita que existe cada vez mais uma aceitação das pessoas relativamente à Street Art e que o sentimento de gratidão da parte de quem vê os seu lar ganhar cor é uma grande recompensa.

Véro J. L. van Grieken sobre Street Art em Lisboa

O FUTURO

Diogo Rezende, como tantos outros artistas, tem o sonho utópico de poder vir a viver apenas da sua arte, contudo, considerando-se realista, não trabalha apenas com esse propósito. Tendo a necessidade evidente de ter outros trabalhos, diz-nos que continuará a colorir as paredes de Lisboa enquanto isso permanecer algo que lhe traga paz e prazer e enquanto fizer sentido para si.

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