ANA TERESA BARROS: CANTANDO LEMBRANÇAS

Por Federico Bodin, Lais Di Lauro, Marta Turrato

Olhos castanhos, cabelo levemente emaranhado e pele alva. Sorriso espontâneo e fácil. Se chama Ana Teresa. Nasceu em 1983, na cidade de Recife, no estado do Pernambuco. O estado é reconhecido no Brasil por ser um berço cultural que contempla diversos tipos de miscigenação, como Ana relata, “é um rio colorido por diversas culturas”.

Quando pequena, Ana e sua família costumavam ir visitar os seus avós no interior. Nos interiores do Pernambuco, onde a cultura está especificamente contida e enraizada, Ana cresceu e, junto consigo, a arte, a dança e a música cresceram também. “A cultura do estado de Pernambuco é viva e pulsa, vibra e canta em cada canto que se olhe”.

A influência cultural da região e da sua própria família foram matrizes essenciais para o desenvolvimento da personalidade da Ana. Sua família, principalmente os seus avós e o ambiente rural onde viviam foram inspiração para a paixão dela pela música desde de pequena. Seu avô paterno Pedro Luís da Silva tocava realejo, cantava e fazia novenas em devoção aos dias de São Pedro.

Nos quintais e garagens da casa dos seus avós, Ana ainda menina, e tímida, observava curiosa a brincadeira, a dança e a música feita pelos mais velhos de sua família após as rezas do terço. As práticas expressivas comuns à sua família, como os forrós, as mazucas e cirandas, foram essenciais para a concretização da sua ligação com a cultura artística e musical.

Toda a vivência cultural e familiar – incluindo as tradicionais festas juninas, novenas e queima da fogueira em homenagem aos santos, foram fatores que desde de sempre estiveram presentes na vida da Ana. Desde pequena na escola era lembrada por ser a mais espoleta da turma. Na hora dos intervalos juntava-se com os colegas para abrir rodas de cantiga e dança.

A necessidade de encontrar um meio de exteriorizar toda energia que havia dentro de si fez com Ana se apaixonasse por tudo que envolvia música e arte. Sempre encontrava um jeito de estar em contato com a arte e com a música. Por causa dessa aproximação com o cenário cultural ao qual cresceu rodeada, a curiosidade e vontade de aprender mais sobre a arte musical fez com que frequentasse diversos cursos e eventos culturais.

© arquivo pessoal Ana Teresa
Apresentação do trabalho autoral no bairro da Mouraria, Portugal

“Fugia para fazer curso de teatro, ia escondido mesmo.”

Ana, sempre teve facilidade com as humanidades e artes, e, como era de se esperar não tinha muito interesse nas disciplinas exatas. Seus pais pegavam no seu pé em relação ao seu desempenho estudantil, por isso sempre deram preferência aos estudos formais, o que não facilitava muito as escapadelas para os cursos de arte. Mas Ana sempre encontrava um jeito de ir ao encontro da arte, linguagem a que mais se identificava.

Pensou em cursar Artes cénicas ou música, mas, para além de não haver essa opção em sua cidade, se sentia insegura em cursar algo o qual ainda não tinha certeza se queria seguir para sempre. Além do mais, na altura, para se cursar Música era pressuposto haver conhecimentos de teoria musical, o qual ela não possuía. Estudou durante um ano e meio Relações Internacionais e logo se destacou por sua espontaneidade e boa comunicação, acabou virando a representante da classe. Embora fosse um curso muito bom, segundo Ana, ele não correspondia a sua verdadeira língua; não falava arte.

Ana percebeu que nem ela sabia ao certo o por quê de estar estudando Relações Internacionais. Foi quando resolveu ingressar no curso de Comunicação Social e, apesar de não ser exatamente o que queria, se identificou com a área da comunicação. Paralelamente a faculdade, estava sempre estudando outros assuntos do seu interesse e fazendo cursos ligados a arte, música, canto, dança, teatro e fotografia.
Na busca por aulas que agregassem ao seu trabalho artístico, dedicou-se a aprender construir e tocar rabecas com Dinda Salú, filho do já falecido Mestre Salustiano, considerado património Vivo do Estado de Pernambuco. Apesar de saber tocar alguns instrumentos percussivos, a rabeca se tornou a grande influência para sua música não apenas por ser um instrumento regional, mas pelo fato dela possuir profunda identificação com ele.

© arquivo pessoal Ana Teresa
Foto tirada no enceramento do curso de construção de rabeca na Cidade Tabajara em Olinda – PE com Dinda Salú.

Em seu projeto de mestrado, na Universidade Nova de Lisboa, estuda Ciências Musicais com especialização em Etnomusicologia, e sua pesquisa está voltada para um ritmo chamado mazuca – em específico estudo a memória da mazuca da família Tiago dos Santos. Paralelamente ao mestrado, trabalha no projeto autoral “Pernambuc-Ana”, que vai resultar na gravação de um CD.

Ana costuma dizer que sua ligação com os instrumentos musicais perpassam o saber tocá-los, mas considera a sua voz seu instrumento preferido. Gosta de compor sobre tudo o que fez ela ser quem ela é hoje, afirmando suas memórias e histórias de vida. Nas letras de suas canções costuma registrar as suas lembranças da infância e do tempo onde ia visitar os avós. Como ela define, suas músicas são lembranças cantadas. Quando questionada sobre a inspiração para compor as letras das suas músicas.

“Tinha as canções comigo desde sempre.”

Embora muitas vezes tenha sido difícil estudar música e canto, Ana nunca desistiu de seguir seu sonho. Estava sempre atenta aos eventos que ocorriam em sua cidade, procurava sempre encontrar formas de estar em contato com a música regional. Todos os empecilhos que surgiram em seu caminho serviram para fortalecer e reforçar o amor pela música. Tudo que fez no âmbito musical, seja os eventos que fora convidada para participar ou os trabalhos que realizou, foram conquistados com muito esforço e dedicação.

“Música é sentimento e a minha música é sentimento com balanço”.

O caminho de quem escolhe seguir carreira musical nem sempre é o mais fácil, entretanto, quando alguém possui vocação e dom para o que faz e faz com prazer e amor, os caminhos se abrem, aos poucos, para concretização de projetos e trabalhos. Para Ana, a música e os sentimentos possuem uma relação estreita e é isso que faz ela ter forças para continuar em busca dos seus sonhos.

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